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03.10.2016
Tempo de leitura: 4 minutos

Entre a rigidez e a inovação, os paradoxos do sistema educacional japonês

O país oriental tem escolas conceituadas e metodologias inovadoras, em paralelo a uma severidade prejudicial ao desenvolvimento de seus alunos.

O país oriental tem escolas conceituadas e metodologias inovadoras, em paralelo a uma severidade prejudicial ao desenvolvimento de seus alunos.

Crianças correm no telhado circular que não parece ter fim; um menino enche suas galochas de água, enquanto outros se penduram nas árvores crescendo dentro e fora do espaço educativo. O joelho ralado faz parte do aprendizado, como também ajudar um colega a descer a escada ou lavar as mãos. A pré-escola Fuji fica em Tachikawa, a poucos quilômetros de Tóquio e foi desenhada pelo arquiteto Takaharu Tezuka para que crianças sejam o que podem ser: autônomas, criativas e capazes de aprender com erros e acertos. “Não as controle, não as proteja. Elas precisam tropeçar e se machucar. Isso faz com que aprendam a viver nesse mundo”, falou o arquiteto no vídeo The Best Kindergarden You’ve Ever Seen.

Há dois tipos de notícias comuns quando se fala do sistema educacional do Japão: a primeira diz de uma educação exemplar e disciplinada – o Japão ficou em quarto lugar no ranking de países com melhor educação, divulgado em 2015 pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). As matérias exaltam a disciplina, as notas altas e a responsabilidade e autonomia dos alunos, que cuidam da limpeza e da organização de suas escolas. Já a segunda fala do alto índice de suicídio dos adolescentes, principalmente quando se aproxima a data de volta às aulas, e de um ambiente escolar de opressões e expectativas que quando não alcançadas, geram frustração, violência e depressão.

No artigo Violência Filial no Japão: Quando os adolescentes se tornam perigosos em casa, a antropóloga Hilda Gaspar traça um panorama do que leva aos altos índices de violência doméstica no Japão, sendo uma das razões a juventude oprimida e incapaz de alcançar as expectativas de pais e da sociedade. O ijime, termo japonês para bullying, já foi experimentado por mais de 60% das crianças e adolescentes, e acontece ante o clima de competição que é estabelecido entre alunos. “O bullying nas escolas tem levado muitos estudantes ao abandono escolar”, complementa Hilda.

O sistema educacional é gratuito e toda criança tem direito de estudar em escolas próximas de onde moram. Na transição do ensino fundamental (chugakkou) para o ensino médio, a média escolar determina quais alunos vão para escolas consideradas de qualidade ou ruins. “Por orgulho, alunos que não conseguem notas suficientes para entrar em uma ‘boa’ escola preferem parar de estudar”, conta Fernanda Atoji Pinto, operária e moradora de Tóquio. Sua filha, Manuela, está terminando a quarta série e passou pelas alegrias e dificuldades de estudar em um sistema educacional peculiar.

Manuela relata gostar bastante das diferentes matérias, além do senso de responsabilidade criado por atividades como a limpeza das escolas, essas tarefas criam a noção de independência, como também de afetividade com o espaço usado. Em contraponto, ela estranha a frieza de alguns colegas e a quantidade de tarefas propostas. “Mesmo ela estando em férias, tem lição de casa equivalente para o mês todo”, completa Fernanda. Ainda que sua filha nunca tenha sofrido bullying, já presenciou alguns casos. “No Japão há um ditado: ‘prego diferente tem que ser martelado’”, explica.

Diego Miyagi morou por alguns anos no Japão, e se lembra do quanto era importante para a escola fortalecer a autonomia dos alunos, confiando em sua habilidade de tomar decisões e resolver problemas: “Como exemplo, não é costume que pais acompanhem as crianças na ida à escola. Elas se juntam em grupos e vão sozinhas”. Ele também alerta que um dos aspectos negativos é o lugar de submissão dado às mulheres, facilmente notado na vida escolar: as posições de destaque, como a liderança de grêmios estudantis, são assumidas por meninos.

As fortes conexões estabelecidas entre Japão e Brasil – é o país com o maior número de imigrantes nipônicos – também podem favorecer trocas entre o campo da educação. Como qualquer sistema educacional, o do Japão carrega aspectos que valem como inspiração e também como alerta. Se houver um equilíbrio entre a liberdade e o desejo e se aprimorar, nenhuma criança sofrerá terá sua liberdade de expressão retirada, e todas poderão aprender subindo em árvores e limpando a lousa com apagadores – liberdade que faz parte da educação no século XXI.


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