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17.05.2016
Tempo de leitura: 4 minutos

Gambiologia: a arte de ser criativo e inovador com o pouco que se tem

Entre a gambiarra e a recém-chegada cultura maker, surgem tendências tecnológicas potentes.

Entre a gambiarra e a recém-chegada cultura maker, surgem tendências tecnológicas potentes.

Ela está sempre lá, nos improvisos de casa e nas ruas. O artista plástico Hélio Oiticica fez morada nas comunidades do Rio de Janeiro e na criatividade de quem tinha pouco à disposição para criar os Parangolés. Foi juntando sucata e grandes sonhos que Bispo do Rosário teceu vestimentas que mostravam em objetos sua percepção de mundo. A gambiarra faz parte do cotidiano brasileiro: é a inventividade que nasce da necessidade, as soluções temporárias ou permanentes do marceneiro e do artista plástico. E se, por um tempo injusto teve um significado pejorativo, hoje a ideia a lota as bibliotecas e assume títulos de exposições de arte.

Para o dicionário, gambiarra tem origem duvidosa – possivelmente portuguesa, atravessou o mar trazendo o significado de um varal de luzes, mas com raízes também nos vocábulos ‘haste’ e ‘improviso’. Para o gambiólogo Fred Paulino, gambiarra é uma das expressões mais sensíveis e criativas do ser humano. “É uma habilidade que temos para resolver os problemas do cotidiano, quase sempre usando os recursos limitados ao redor, com o custo mais baixo possível. Tem a ver com a inventividade humana”. Junto com os companheiros Lucas Mafra e Paulo Henrique Pessoa “Ganso”, Fred mantém a plataforma Gambiologia, um lugar de dissolver ideias, oficinas e propostas sobre gambiarra e arte, que conta com a colaboração de várias outras pessoas. “A ideia surgiu como uma campanha em 2008. Entre 2009 e 2015 foi um trio-coletivo, mas hoje se configura como um selo propositor de projetos, uma rede”, explica Fred.

E se artes e o design aprendem com o conceito de gambiologia e suas ramificações criativas, pareceria natural que a cultura maker também o fizesse. Afinal, elas dividem afinidades. Surgida nos Estados Unidos, país onde a cultura de faça-você-mesmo é muito presente e facilitada pela farta oferta de matéria-prima, a cultura maker se espalhou e se reproduziu em outros países. No Brasil, pipocam cada vez mais espaços similares, que vão desde territórios mais independentes até fabriquetas privadas.

A cultura maker – e para Fred Paulino é simbólico que ainda não se tenha achado um termo para traduzir essa expressão, sendo o vocabulário brasileiro tão inventivo – poderia aprender com a gambiarra, atingindo quem a gambiarra atinge, não criando abismos entre makers e gambiólogos, fazendo pontes entre inventivos. Fred acredita que essa seja uma responsabilidade de quem se propõe a trabalhar e pesquisar cultura da gambiarra e cultura hacker. “É de nossa responsabilidade, conhecendo as duas pontas, criar espaços de intersecção, usando de forma positiva o potencial das ferramentas novas e ao mesmo tempo nossa habilidade usar materiais comuns, fechando esse curto-circuito.”

E tanto para os gambiólogos como para os makers, a importância recai sobre o objeto e a habilidade humana de manuseio e ressignificação de suas funções. Como diz a filósofa Jeanne Marie Gagnebin “os objetos que não são mais os depositários da estabilidade, mas se decompõem em fragmentos”. Fred acredita que, assim como outras artes e habilidades, a gambiarra pode ser ensinada, só é preciso um território propício. “Tem muito a ver com ensinar as pessoas a verem os materiais ao redor, de onde eles vêm e para onde podem ir. Essa potência de transformação de juntar dois materiais e transformou em um objeto, seja uma obra de arte, uma peça de design ou um utilitário. Ser gambiólogo é retomar nossa potência de diálogo com um mundo de forma material, humana e tátil.”

Tendências tecnológicas – Oficinas de gambiarra

Além de fortalecimento e presença nos debates sobre gambiarra, o Gambiologia também ensina como fazê-las. Ainda que variem de formato, sendo oferecidas para públicos de escolas ou instituições, todas as oficinas tem a verve de sensibilidade para com o objeto. “Sugerimos aos alunos que levem objetos que eles gostam, mas não usam e também objetos que usam e não gostam. Essa é a potência da transformação das coisas que muitas vezes estão guardadas, sem saber o motivo, e de repente rola um renascimento deles por meio da gambiologia”.


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