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23.05.2018
Tempo de leitura: 6 minutos

Quatro maneiras de falar sobre suicídio na escola

Casos recentes acenderam um alerta entre educadores e pais, por isso a pauta é urgente e precisa fazer parte do cotidiano escolar.

Imagem que ilustra matéria sobre suicídio de crianças e adolescentes mostra tela artística com pintura de rosto desconfigurado

Por que é preciso falar de suicídio na escola? A divulgação de casos recentes de suicídio entre alunos de colégios particulares de São Paulo deixou em alerta pais, educadores e adolescentes. E os números são alarmantes: entre 2000 e 2015 os suicídios aumentaram 65% entre pessoas com idade de 10 a 14 anos, e 45% entre adolescentes de 15 a 19 anos, tornando-se a segunda causa de morte desta faixa-etária. Os dados recém-divulgados são do Mapa da Violência 2017, publicado anualmente a partir de indicadores do Ministério da Saúde.

Jovens e adolescentes são também o principal grupo de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, principalmente depressão. Segundo relatório da federação de empresas de seguro de saúde dos Estados Unidos, desde 2013 as taxas de depressão aumentaram 65% entre meninas adolescentes e 47% entre meninos.

As explicações para isso são muitas, como esclarece a psicóloga Alessandra Xavier, da Universidade Estadual do Ceará (UECE). “A adolescência é um período peculiar em que se está construindo uma série de referências profissionais, sociais, de vínculos e orientação sexual. Também são constantes as mudanças no corpo, na rede de amizades e na autoestima”.

Soma-se tudo isso às pressões dos pais e da escola para ingresso no ensino superior e à cultura do consumo e narcisismo, escancarada pelas redes sociais. Assim, segundo a psicóloga, muitos adolescentes acreditam que dar fim a própria vida é solução ou, no mínimo, um ato impulsivo de expressão do descontentamento com a realidade.

“A verdade é que somos todos muito despreparados para lidar com mudanças e angústias. Ficamos vulneráveis a qualquer experiência de dor e sofrimento”, define Alessandra, que articula uma série de ações junto ao ministério público do Estado do Ceará para prevenção do suicídio entre jovens e adolescentes.

Precisamos falar sobre isso

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% dos casos de suicídio podem ser evitados através de ações de prevenção.
É por isso que a escola, espaço no qual crianças e adolescentes vivem grande parte de suas vidas, precisa falar sobre suicídio e outros potenciais desencadeadores, como bullying, depressão, abuso de drogas e violência doméstica. De preferência, de maneira constante para que se desmistifique o tabu que ronda a temática.

Sinais que podem indicar sofrimento psíquico:

• Mudança significativa de comportamento ou personalidade (agressividade, irritabilidade, apatia, pessimismo);
• Queda brusca de rendimento escolar;
• Isolamento, baixa autoestima, excesso de ansiedade;
• Abuso de álcool e/ou drogas;
• Histórico de transtorno mental (esquizofrenia, bipolaridade ou depressão);
• Desejo súbito de concluir ou organizar coisas e deixar mensagens aos amigos e parentes.

O trabalho pedagógico deve envolver os pais e agentes da saúde, levar em conta o contexto de vida de cada aluno e se concentrar em atividades que promovam a interação, o acolhimento socioemocional e a criação de uma cultura da paz. A seguir, confira quatro ações que podem começar a ser implementadas desde já.

 

Valorização do grupo

 

Promover jogos ou dinâmicas que propiciem o desenvolvimento de competências socioemocionais. “As rodas de conversas diversa mediadas por um psicólogo ou professor capacitado funcionam bem”, indica Sheila Cavalcante, psiquiatra da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Unifesp.

Usando como premissas o respeito à diversidade de opinião e o incentivo ao diálogo, o mediador coloca em pauta temas pertinentes e dá direito a voz e ouvidos a todo o grupo, responsável pela construção de um conhecimento coletivo.

 

Promoção do autoconhecimento

 

Nem sempre é tão fácil reconhecer aquilo o que se está sentindo. Por isso, a escola pode fornecer informações e uma educação integral que ajude crianças e adolescentes a identificar seus estados emocionais e expressá-los de modo a pedir ajuda. Este é, inclusive, um dos pilares do Programa Cuca Legal, que desenvolve estratégias de melhoria da saúde mental por meio de trabalho científico e educativo.

 

Pedagogia da presença

 

A escola pode investir na capacitação de profissionais, que podem ser tanto professores como funcionários, para se aproximar dos estudantes de modo a construir vínculos e identificar traços de sofrimento psíquico.

“Uma boa maneira de começar a se mostrar mais disponível e acolhedor é pedir que eles escrevam cartas anônimas sobre sonhos, aspirações e incertezas sobre o futuro”, aconselha a psiquiatra da Unifesp. Aqui você encontra mais dicas de como implementar a pedagogia da presença.

 

Artes e abordagem interdisciplinar

 

A arte é uma das melhores maneiras de expressas sentimentos, por isso, pode ser mais trabalhada em sala de aula. Além disso, os professores devem se integrar para abordar a temática em suas aulas.

 

“O professor de História levanta com os alunos os dilemas contemporâneos da humanidade, o de Matemática mostra indicadores de aumento da depressão ou do bullying e aproveita para puxar a discussão em sala. O profissional de aproveita para debater o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe (1749-1832), que traz a temática”, indica Alessandra.

O que fazer se houve um caso de suicídio ou tentativa?
“Estudos mostram quando há um caso de suicídio na escola, duas semanas depois haverá uma segunda tentativa se nada for feito”, aponta Sheila Cavalcante, da Unifesp. “Adolescentes podem encarar o ato de tirar a própria vida como uma espécie de heroísmo ou exemplo a ser seguido”, completa.

Como medida de prevenção, a escola deve convocar um especialista para elaborar o luto de toda a turma e das famílias. “As famílias e a escola devem estar prontas para acolher o jovem, dando espaço para que ele expresse sentimentos como tristeza, raiva e culpa sem julgamentos”, diz a especialista.

Apoio
No Brasil, o principal meio disponível para quem precisa de ajuda é o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação sem fins lucrativos que há 54 anos conta com serviço gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio. O CVV oferece apoio 24 horas pelo telefone 141 e pelo site https://www.cvv.org.br/.

A Sociedade Brasileira de Psiquiatria também disponibiliza gratuitamente um manual completo de prevenção do suicídio.

A lei de combate ao bullying nas escolas, sancionada em maio, altera um trecho da Lei 9.394, de 1996, e amplia as obrigações das escolas no combate à prática.  Além das instituições de ensino, clubes e agremiações têm o dever de desenvolverem medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying.


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