O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou, nesta quinta-feira (26/02), os resultados do Censo Escolar 2025, pesquisa anual que coleta informações sobre as instituições de ensino, turmas, alunos e profissionais da Educação Básica no país.
Em 2025, foram contabilizadas 46 milhões de matrículas nas 178,8 mil escolas de Educação Básica no Brasil. Entre os anos de 2024 e 2025, a rede pública teve uma redução de 2,1%.

De acordo com a fala do ministro da Educação Camilo Santana, a tendência de queda observada é influenciada por fatores demográficos, mais especificamente pelo envelhecimento da população, e por melhoras na eficiência do sistema educacional, com quedas significativas da taxa de distorção idade-série.
No entanto, é importante mencionar que a qualificação dessa tendência dependerá também da divulgação dos dados de fluxo escolar, que compõem a segunda etapa do Censo Escolar e permitirão compreender com maior precisão os movimentos de aprovação, reprovação e abandono. Além disso, como o próprio ministro também ressaltou, persistem desafios relevantes relacionados à equidade, uma vez que as taxas de distorção idade-série ainda apresentam diferenças expressivas entre estudantes negros e brancos. Esses dados indicam que os ganhos recentes do sistema educacional, embora importantes, ainda não alcançam todos os grupos de forma homogênea.

Por fim, ainda sobre dados de matrículas, é importante destacar que o país atingiu o maior percentual de estudantes em tempo integral em todas as etapas da Educação Básica dos últimos quatro anos: o resultado de matrículas presenciais em tempo integral cresceu 10,7 pontos percentuais (p.p) na rede pública de ensino durante o período de 2021 a 2025, passando de 15,1% para 25,8%.
Conectividade na educação
Os resultados indicam um novo avanço no percentual de escolas públicas com acesso à internet, que passou de 82,8% em 2024 para 94,5% em 2025. O dado reforça uma trajetória positiva observada nos últimos anos e sinaliza a continuidade dos esforços para ampliar o acesso à internet nas escolas públicas do país.
É importante destacar, no entanto, que o Censo Escolar é uma pesquisa declaratória, baseada nas respostas fornecidas pelas próprias escolas, e não contempla uma aferição técnica da qualidade da conectividade disponível. Ou seja, o Censo permite identificar se a escola declara ter acesso à internet, mas não avalia se essa conexão atende aos parâmetros necessários para apoiar práticas de ensino e aprendizagem.
Nesse sentido, os resultados do Censo Escolar relativos à conectividade oferecem uma leitura complementar da realidade da conectividade escolar no Brasil. Para uma análise mais precisa da conectividade voltada ao ensino e à aprendizagem, é fundamental considerar os dados produzidos pelo Painel de Monitoramento da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, que hoje constituem a fonte mais robusta sobre o tema. Ao combinar diferentes bases administrativas e técnicas, o painel cruza informações sobre velocidade de conexão, cobertura de rede Wi-Fi nos ambientes escolares, infraestrutura elétrica e capacidade de uso simultâneo, elementos essenciais para caracterizar a internet como uma ferramenta efetiva de ensino e aprendizagem.
Vale mencionar que o Painel do MEC também tem capturado uma evolução da conectividade adequada para fins pedagógicos¹, que passou de 57% em 2024 para cerca de 70% no final de 2025. Além disso, também em dezembro do último ano, 27% das escolas públicas estariam fora dos parâmetros adequados, e apenas 2,8% permaneceriam completamente sem acesso à internet para fins pedagógicos.
É importante pontuar que, além da diferença metodológica entre os dados de conectividade do Censo e do Painel do MEC, há também uma distinção temporal entre as fontes: enquanto o último utiliza dados mais recentes, atualizados no final do ano passado, o primeiro se baseia em informações reportadas pelas escolas no primeiro semestre de 2025. Assim, ao incorporar indicadores de qualidade e medições mais atuais, o painel permite uma leitura mais acurada do estágio de conectividade das escolas públicas brasileiras e reforça a evidência de que os avanços recentes são até mais expressivos do que aqueles observados exclusivamente a partir dos dados do Censo Escolar.
Para além da ampliação da conectividade, a disponibilidade de dispositivos digitais nas escolas é um elemento central para a efetivação da educação digital. Os dados indicam um avanço no uso de computadores e tablets nas escolas públicas, observado em praticamente todas as etapas e modalidades da educação básica, tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio. As informações apresentadas na tabela a seguir evidenciam esse movimento.

De forma complementar, seria importante acompanhar outros indicadores como a relação entre o número de equipamentos e alunos e a frequência de uso desses dispositivos em atividades pedagógicas, de modo a qualificar a leitura sobre o avanço observado e compreender em que medida eles são efetivamente incorporados ao cotidiano escolar.
É válido também ressaltar que os resultados divulgados indicam avanços na ampliação da conectividade escolar no país e se inserem no marco das orientações estabelecidas pela Estratégia Nacional de Escolas Conectadas. Cumpre mencionar que esses resultados dialogam diretamente com o debate em curso sobre o novo Plano Nacional de Educação (PNE), atualmente em tramitação no Senado, que incorpora, pela primeira vez, metas e estratégias relacionadas à conectividade e educação digital. Trata-se de um marco relevante e que deve ser celebrado.
Ao mesmo tempo, cabe reforçar que esses avanços recentes na conectividade escolar indicam que o debate sobre as metas do PNE se dá em um contexto já marcado por progressos importantes, o que reforça a necessidade de acompanhar a implementação do novo plano não só com atenção ao acesso e à qualidade do acesso, mas também à intencionalidade do uso pedagógico da tecnologia e à redução das desigualdades. Isso implica considerar de que maneira os recursos digitais são integrados às práticas de ensino e o grau de preparo dos professores para utilizá-los de forma crítica.
Importância do professor e desenvolvimento de competências digitais
Os avanços recentes na conectividade das escolas públicas e na ampliação do acesso à internet representam um passo fundamental para a consolidação da educação digital no país. No entanto, a experiência nacional e internacional demonstra que esses investimentos, por si só, não são suficientes para promover transformações efetivas nos processos de ensino e aprendizagem. Para que a tecnologia cumpra seu potencial pedagógico, é indispensável que ela seja incorporada de forma intencional, planejada e alinhada aos objetivos educacionais, processo no qual o papel do professor é central.
Nesse contexto, ganha destaque a necessidade de fortalecer o desenvolvimento das competências digitais docentes. Esse debate torna-se ainda mais relevante neste momento em que o novo PNE segue para apreciação no Senado. A efetividade das metas propostas no plano dependerá, em grande medida, do cumprimento das estratégias previstas, entre as quais se destaca o fortalecimento da formação inicial e continuada de professores. Trata-se de uma condição central para que conectividade, dispositivos e recursos tecnológicos sejam, de fato, convertidos em impacto educacional concreto.
Crescimento de EPT
Um destaque positivo trazido pelos dados divulgados hoje é o crescimento da Educação Profissional e Tecnológica (EPT). Na rede pública, a razão entre matrículas em cursos técnicos integrados ou concomitantes ao ensino médio e o total de matrículas no ensino médio regular cresceu de 15,4% para 20,1%, um avanço expressivo. Considerando rede pública e privada, o avanço no mesmo período foi de 17,2% para 21,5%.
Cumpre mencionar que essa métrica também é uma referência usada em análises internacionais. De acordo com indicadores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em países membros essa participação de estudantes em programas vocacionais ou técnicos no nível de ensino médio gira em torno de 44%. Esse movimento de crescimento indica que o Brasil está caminhando em direção a padrões observados em contextos comparáveis, fortalecendo trajetórias de formação que podem ampliar o repertório de competências e a empregabilidade dos jovens.
Entre os diferentes eixos dessa modalidade, merece atenção especial o de Informação e Comunicação, que inclui os cursos voltados à tecnologia, registrando um avanço de 11% entre 2024 e 2025 (resultados para a rede pública) como apresentado abaixo.

Os dados reforçam que a EPT tem avançado de forma consistente no Ensino Médio. Esse movimento é relevante tanto do ponto de vista educacional quanto do mundo do trabalho, ao ampliar oportunidades de desenvolvimento de competências técnicas e digitais alinhadas às demandas produtivas.
De acordo com pesquisa realizada pelo Itaú Educação e Trabalho em conjunto com a Fundação Roberto Marinho (“Juventudes Fora da Escola”²), 77% dos jovens que deixaram a escola e pretendem voltar para concluir o Ensino Médio manifestam interesse no ensino técnico. Cursos técnicos, especialmente em áreas em expansão como a de tecnologia, ao estarem mais conectados às demandas do mercado de trabalho, oferecem aos estudantes uma perspectiva mais concreta de futuro, tendo um papel importante na permanência desses jovens na escola.
É importante reforçar que o avanço da modalidade também coloca em evidência a relevância de fortalecer o monitoramento e a avaliação dos cursos de EPT, de modo a compreender em que medida a expansão observada se traduz, de fato, em formação alinhada às competências demandadas pelo mundo do trabalho e em impactos positivos sobre a evasão escolar, inclusive em comparação com outras modalidades do Ensino Médio. Trata-se de uma agenda que o Inep já vem estruturando por meio da construção de matrizes de avaliação e painéis de monitoramento. A evolução e consolidação desses esforços, articuladas à divulgação dos dados de fluxo escolar da segunda etapa do Censo Escolar, será fundamental para qualificar análises de médio e longo prazo, e orientar os próximos passos da política de Educação Profissional e Técnica no país.
¹ A metodologia por trás da construção do Inec (Indicador Escolas Conectadas) classifica as escolas em níveis de 0 a 5: nível 0 (escola sem conexão à internet ou sem energia adequada), nível 1 (escola com velocidade inadequada e sem rede Wi-Fi), nível 2 (escola com velocidade e rede Wi-Fi inadequados), nível 3 (escola com velocidade adequada e sem rede Wi-Fi), nível 4 (escola com velocidade adequada e rede Wi-fi insuficiente), nível 5 (escola com velocidade e rede Wi-Fi adequados). Apenas os níveis 4 e 5 são considerados adequados.
² Disponível em: <https://fundacaoitau.org.br/observatorio/biblioteca/juventudes-fora-da-escola>

