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02.12.2016
Tempo de leitura: 5 minutos

A história da minha família

Gilda Silva Gabas
Santos – SP
Pra começar, quero ilustrar como a minha família é composta. Tenho quatro filhos, sendo duas meninas e dois meninos. Hoje vivo com meu companheiro que, acima de tudo, é meu cúmplice, pois está sempre presente, me ajudando a criar e educar meus filhos.
A história que quero trazer para vocês começa quando fiquei viúva. Na época, não tinha recurso financeiro nenhum e, infelizmente, não havia concluído os estudos. Fiquei arrasada, pois estava sozinha e com três filhos para criar. Desamparada, um certo dia bateu em minha porta uma moça que se apresentou dizendo ser assistente social. Fez inúmeras perguntas pra mim, tais como se eu conhecia o CRAS (Centro de Referência da Assistência Social), se recebia algum benefício etc. No momento, eu não conhecia e achei que a pessoa estava querendo me vender alguma coisa. Mas quando a moça começou a me explicar, percebi que realmente existia uma luz no fim do túnel. Dessa forma, fui conhecer o CRAS, onde fizeram meu cadastro do Programa Bolsa Família e, a partir daí, uma série de oportunidades surgiu em minha vida. Iniciei diversos cursos de artesanato e, depois de muito tempo, comecei a me sentir alguém útil.

Porém toda vez que eu olhava para meus filhos, sentia que ainda faltava alguma coisa. Logo fui procurar informações sobre o que eu poderia fazer para melhorar a qualidade de vida das crianças. Eles já estavam matriculados na escola, mas isso não era suficiente, pois no bairro em que moro não há nenhum atrativo para eles. Então, um dia, indo pra casa, passei em frente a uma casa onde estava escrito: “Conselho Tutelar – garantindo os direitos da criança e do adolescente”. Entrei na esperança de que eles me dessem alguma dica de como promover aos meus filhos atividades de recreação. Lá eles indicaram um serviço chamado “socioeducativo”. Na verdade não entendi nada de nada do que a pessoa me disse mas, como saí de lá com um endereço, fui nele imediatamente. Ao chegar no local, fui extremamente bem atendida e me explicaram o que era o tal de socioeducativo e fiquei encantada com a possibilidade dos meus filhos poderem fazer coisas que nunca pensei que fosse possível. Aula de incentivo a leitura, jogos e brincadeiras diversos, artes, capoeira, dança de rua, percussão, teatro, além, é claro, do convívio com outras crianças e educadores, que estão ali principalmente para incentivar a autonomia deles.

Foi visível a mudança de comportamento desde que matriculei os três mais velhos na instituição. Hoje eu converso com eles questões de direito, responsabilidade, cultura e assim aprendo com eles e eles aprendem comigo. A forma como guio os passos deles fortalece ainda mais os nossos laços. Por esse motivo, minha filha mais velha conseguiu expressar de forma direta que a escola na qual ela estava inserida, por conta da distância, fazia com que ela não quisesse mais estudar. Por entender que o estudo é o único bem que posso deixar para os meus filhos, expliquei para ela que deveria continuar indo à escola, mas que, como das outras vezes, iríamos arranjar uma solução para esse problema.

Dessa vez, fui procurar apoio no grupo de pais de que faço parte, nessa mesma instituição da qual as crianças participam. Lá expus o drama pelo qual estava passando e, com a troca dos saberes, foi falado que é direito garantido em lei que toda criança deve ter acesso fácil à escola. Fui aconselhada a procurar a Secretaria de Educação, pois, com certeza, lá eles iriam dar um jeito nisso. Chegando à Secretaria, eles fizeram inúmeros levantamentos para saber se, de fato, a distância era grande o suficiente para minha filha não querer e muitas vezes não conseguir ir para a escola. Feito isso, chegou-se à conclusão de que, da minha casa para a escola onde eu havia conseguido vaga para ela, era praticamente impossível ir, por exemplo, em um dia de chuva. E como aqui em Santos mais chove do que qualquer outra coisa, me deram duas opções. Ou eu entrava com um pedido de vale transporte ou eu solicitava, através do CT, vaga em uma escola no bairro em que moro. Na dúvida, fiz as duas coisas. Em menos de um mês, minha filha conseguiu a vaga na escola do bairro e hoje ela é uma das melhores da turma. Acorda antes que todo mundo para ir primeiro à ONG e depois sai disparada para a escola.

Fico muito feliz com a rotina que a minha família tem e, quando olho para trás, vejo e reconheço que, se não fosse a união de todos os atores e lugares que fazem você ampliar seus conhecimentos na busca da cidadania plena, eu nunca iria atingir esse nível de querer e garantir o melhor para os meus filhos.

Essa é a história da minha família e espero que, como eu, muitas outras tenham, não apenas um final feliz, mas também, um recomeço melhor!

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