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21.12.2020
Tempo de leitura: 6 minutos

Artistas se reinventam durante a pandemia

Isolamento social imposto pela Covid-19 levou artistas a ampliarem e inovarem em suas produções, como realizar podcasts ou séries a distância. Saiba mais!

Imagem mostra artistas que se reinventaram na pandemia. Um braço de violão aparece desfocado em frente a uma tela de notebook aberta em uma chamada de vídeo com várias pessoas.

Os artistas e o setor cultural foram um dos mais afetados pela pandemia provocada pela Covid-19. Cessaram-se os shows, as exposições, as peças de teatro, e quaisquer outras atividades culturais que pressupunham a aglomeração de pessoas. Impossibilitados de trabalhar, muitos se viram diante de dificuldades financeiras.

“Já estava achando que todo o trabalho de dedicação à arte foi um erro”, conta o artista e educador, Daniel Camatta, natural de Santos (SP).

O artista acabou sendo um dos beneficiados pela lei federal Aldir Blanc, que prevê apoio em ações emergenciais ao setor cultural diante do estado de calamidade pública decretado pela União.

“Estar em casa me fez entender que eu precisava mudar, entender as tecnologias, novas formas de produção e divulgação. E o dinheiro destinado a mim e a outros trabalhadores da cultura ajudou a retomar as energias, pagar as contas e investir em novos materiais para continuar a produzir”, afirma.

Assim como Daniel, muitos artistas acabaram desenvolvendo novas formas de trabalhar durante o período da pandemia.

Dos palcos para o rádio

O Grupo de teatro Pano precisou repensar novos formatos de atuação para além do teatro presencial, já que os espetáculos foram cancelados. “Para nós, não fazia sentido fazer teatro no formato on-line e a gente encontrou no programa de rádio uma forma artística que nos interessava”, explica Cecília Barros, atriz e integrante da companhia.

O grupo foi convidado a produzir o Radiocracia Já – que depois viraria a Radiola Livre – uma rádio comunitária criada por um coletivo de artistas e comunicadores. O formato deu tão certo que eles criaram um podcast próprio, o Passando Pano.

O podcast se define enquanto “um programa de rádio fracassado” ou um “tropeço radiofônico”. “Um programa de rádio comandado por um grupo de teatro fracassado, que tem por princípio o compromisso com o fracasso e com as tropicadas cênicas, ou apenas falta de capacidade dos integrantes de fazer sucesso”, brinca a equipe na descrição do programa.

Apesar de ter sido um ano muito “frustrante”, segundo Cecília, o grupo de teatro conseguiu desenvolver habilidades muito importantes para o futuro. Todos passaram a escrever os roteiros do podcast, não só os responsáveis pela dramaturgia das peças. Os músicos ainda fizeram as trilhas para os programas. “Foi um ano muito duro e muito difícil, mas acho que as pessoas se reinventaram muito, e isso tem um valor imenso. Principalmente para o artista”, diz Cecília.

Série produzida e filmada remotamente

Tomás Fleck, roteirista e diretor de TV e cinema, também teve o seu trabalho impactado, pois “filmar é aglomerar muita gente”, diz ele. Muitas das suas produções foram pausadas, algumas que estavam em processo de roteiro foram adiadas, outras canceladas.

“A perspectiva do mercado ficou confusa como um todo. E daí eu comecei a pensar em como filmar sem realmente não precisar tirar ninguém de casa”, explica Tomás.

E foi pensando em uma possibilidade de continuar produzindo obras audiovisuais, sem sair de casa, que o Confessionário Online saiu do papel. A série conta a história do padre Esteves (Rafael Pimenta), que tem uma crise de fé após se envolver amorosamente com Mariana (Rita Batata) e resolve criar um confessionário online para seguir com o sacerdócio.

Enciclopédia do Teatro Impossível

Rafa Pimenta, ator que interpreta o padre Esteves no Confessionário Online, criou, durante a pandemia, o podcast Enciclopédia do Teatro Impossível. O programa comenta histórias e lendas do teatro brasileiro, vista pelos seus fracassos. “No fundo, são histórias sobre pessoas que viveram um momento extraordinário em suas vidas através do teatro, mesmo que ele não tenha dado certo. Faz um tempo que eu coleciono elas. Agora eu finalmente posso dividir com vocês”, escreve Pimenta na descrição do podcast. 

O diretor Tomás Fleck conta que o Confessionário Online não tinha nenhuma pretensão de abordar o Covid-19 na história e isto foi bastante desafiador. “Eu teria que justificar dentro da história o porquê de os personagens não estarem juntos, sendo que pandemia não é citada”, conta ele. 

O processo de produção também foi muito difícil, pois como este era um cenário novo para o diretor e o resto da produção, ele precisou ser inventado. A produção foi realizada através do envio dos equipamentos profissionais e infraestrutura para a residência do elenco, como câmeras, luzes, figurinos e objetos de arte.

Imagem mostra cena de Confessionário Online, produção em que artistas se reinventaram na quarentena. Nela aparecem uma mulher e dois padres em videoconferência.

Experimentações

Muitas produções artísticas migraram de mídia, como os shows, que se transforam em lives. Outras tiveram adaptações, como os programas de entrevista. Artistas independentes também puderam usar este período como uma janela de oportunidade para experimentações. Confira algumas iniciativas:

  • Museu do Isolamento Brasileiro & The Covid Arte Museum

A relações públicas Luiza Adas criou o Museu do Isolamento Brasileiro para promover artistas dos mais variados estilos. Atualmente com mais de 70 mil seguidores, o perfil se tornou um ambiente para refletir sobre a pandemia e os sentimentos que nasceram nesse momento. Além de acompanhar e descobrir artistas, também é possível compartilhar seu trabalho a partir de um formulário do perfil.

Outra iniciativa parecida é o projeto “The Covid Art Museum” (CAM) – O Museu de Arte do Covid. Ele foi criado por um trio de publicitários espanhóis para tentar reunir as iniciativas artísticas, de todo o mundo, que surgiram na quarentena.

Neste trabalho, o público é convidado a ouvir poemas e textos de sete autores com a temática do racismo, interpretados pelos artistas Thereza Piffer, Gabriela Fortanell e Arnaldo Ramalho. Os textos discorrem sobre o pensamento do racismo, com todo fenômeno sociocultural e histórico que ocorreu em países além do continente africano devido à imigração forçada. Esta é uma vivência multidisciplinar que une literatura, interpretação, fotografia e música.

  • Oficina Livre de Interpretação d’Os Satyros

A companhia Os Satyros vem investigando os meios digitais em seus espetáculos. A oficina livre, coordenada pelo diretor Rodolfo García Vázquez e ministrada por atores da companhia, abre nova frente com seu primeiro curso voltado especificamente para a atuação nos meios digitais. O curso se debruça sobre a pesquisa de uma linguagem pensada integralmente para o suporte digital.


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