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13.08.2021
Tempo de leitura: 7 minutos

Camila Achutti busca levar mais mulheres para a área da tecnologia e da programação

Guiada pela educação, ela enfrentou preconceitos e criou uma plataforma para levar diversidade ao mundo da programação

foto de Camila Achutti

Nome: Camila Achutti
Idade: 29 anos
Cidade/Estado: São Paulo, SP

A computação já fazia parte do universo de Camila Achutti desde a infância. Pelos cômodos de casa, ela e a irmã gêmea viam o pai andar com disquetes e falar sobre programação todos os dias. “A gente tinha sete anos de idade e eu sempre olhei para a tecnologia como um superpoder, porque os materiais de computadores estavam muito acessíveis para nós. Então, aquilo era algo que a gente convivia e aqueles códigos eram praticamente um idioma”, conta.

O interesse pela área veio para ela de forma natural. “Eu gostava muito de matemática e de computadores também. Meus pais sempre valorizaram os estudos e incentivaram a gente a seguir o caminho que nos fizesse feliz, independente de qual fosse. Mas eu descobri que a tecnologia poderia ser minha grande aliada para o mundo”, relembra.

Camila seguiu os estudos em Ciência da Computação pela USP. E foi durante a vida acadêmica que ela se deu conta do desafio que enfrentaria: o mercado da computação era muito rígido para as mulheres.

“Eu, na graduação, era a única mulher da minha turma. Dentro da sala de aula era fácil perceber que, no mercado, iria faltar mulheres. Se poucas meninas chegam à graduação em Ciências da Tecnologia, Engenharia e Matemática, a quantidade das que finalizam os cursos e alcançam o mercado de trabalho é ainda menor”, ressalta.

“Na faculdade a gente tinha que se impor, não faltam piadinhas para desmotivar, histórias de assédio, sexismo, e eu precisei de muita resiliência nessa missão”, complementa.

Por sua luta constante para mudar o cenário do mercado de tecnologia, ela conquistou o prêmio Women of Vision 2015 e foi a primeira estudante latina a receber esse reconhecimento. Em 2016, fundou em parceria com seu sócio a MasterTech, uma plataforma de educação voltada para o ensino de programação e transformação digital.

 

Qual a importância de abraçar outras mulheres em um ramo majoritariamente masculino, como o da computação e da tecnologia? 

Quando a gente exclui 52% do planeta da resolução de problemas e criação de soluções, inevitavelmente vai representar interesses e realidades de um grupo específico. Essa pode ser também uma justificativa econômica, já que não parece esperto em um mercado tão crescente, excluir metade do planeta como consumidor e força de trabalho.

Eu vejo que estou abrindo portas e felizmente consegui estar em uma posição onde outras meninas podem ter referências dentro da área de tecnologia e podem ser empoderadas.

Por isso, em 2010, ainda durante a faculdade, criei o blog Mulheres na Computação. Como muitos textos da área são em inglês, eu traduzia os materiais técnicos, o que permitiu que fossem acessíveis para qualquer pessoa.

Eu queria mudar esse ecossistema, contar sobre esse superpoder para mais pessoas, para mais meninas. Minha ideia era que elas pudessem encontrar referências, conteúdo, ter voz e ouvir vozes que não fossem só masculinas.

Como surgiu a Mastertech? 

Uma das minhas metas de vida é mostrar o poder de transformação da tecnologia e do empreendedorismo. Seguindo esse sonho, eu e o Felipe Barreiros fundamos em 2016, a MasterTech, uma plataforma de educação de habilidades.

O plano era mudar a vida das pessoas com uma escola capaz de produzir impacto positivo e distribuir renda através do ensino de tecnologia, formando profissionais para a área.

MasterTech ensina tecnologia, UX e design de negócios para pessoas e empresas em Boot Camps, workshop, cursos imersivos noturnos e diurnos em áreas como tecnologia, design, marketing digital e negócios. A plataforma busca ensinar, no menor espaço de tempo possível, o maior número de pessoas, não só mulheres. O curso tem duração de 8 semanas.

Temos orgulho em dizer que 52% dos nossos alunos são do sexo feminino e é o trabalho focado em detalhes que faz isso acontecer. Quero cada vez mais mostrar às meninas e mulheres que elas podem aprender o que quiserem, e ser quem quiserem.

Você foi listada pela Forbes como 30Under30 em Tecnologia e Educação, prêmio que destaca empreendedores com menos de 30 anos que desenvolvem negócios que transformam o mundo. Imaginava chegar tão longe? 

Nunca. E essa nunca foi uma tônica nas minhas decisões. Acho que o meu único mérito foi estar sempre atenta e forte para reconhecer possibilidades, onde muitas pessoas não viam. Não necessariamente possibilidades de negócios, mas de melhorias, de alternativas.

Para mim, o sucesso acontece quando vejo meu propósito fazendo a diferença na vida de outras pessoas, quando percebo que a tecnologia transformou e empoderou pessoas e que a Mastertech foi a ponte para isso acontecer.

É importante reconhecer não só os títulos, mas também a representatividade, porque é muito difícil a gente conseguir virar alguma coisa que a gente não sabe que é possível. O mundo dos negócios, do empreendedorismo, como qualquer outro, pode ser cheio de distrações e atalhos. Me manter firme me fez ter sucesso pessoal, com essa clareza interna o sucesso vem em qualquer instância.

Como você vê o cenário deste mercado de tecnologia para as mulheres hoje?

Já avançamos muito sem dúvida nenhuma, principalmente em aspectos qualitativos. Estamos fazendo essa matéria, por exemplo, o que uma década atrás não tinha espaço. Com isso, hoje estamos buscando possibilidades de conquistar aspectos quantitativos, precisamos engajar, formar e empregar mulheres na tecnologia.

A gente abraçou a diversidade como causa, isso é bom para a inovação. Entendemos que não é justo uma mulher ganhar menos do que um homem. Mas a gente ainda tem muitas barreiras quantitativas.

As mulheres ainda têm um menor acesso a essa infraestrutura por vários motivos. Elas estão estudando mais, mas ainda chegam pouco às carreiras de ciência e tecnologia, engenharia e matemática por vários estigmas. Precisamos engajar, formar e empregar mulheres na tecnologia.

O quanto a educação foi importante na sua trajetória para chegar até aqui? 

Educação foi tudo e hoje consigo reconhecer a importância de ter me dedicado a ela desde cedo, na realidade, sou grata por ter tido uma família que me incentivou e suportou na dedicação a ela.

Quais conselhos daria para um jovem que está no Ensino Médio e enfrenta desafios ou tem questionamentos sobre o seu futuro? 

Foque no hoje, em se dedicar, se manter curioso é parte integrante da sociedade. É fácil acabar caindo no erro de focar só no futuro e não construir essas pontes para um futuro desejável.

Para você, acreditar na educação é… 

Incentivar pessoas para que elas enxerguem possibilidades!


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