Informe Social 2025: inclusão digital como chave para a equidade na educação pública.
Notícias
01.06.2020
Tempo de leitura: 6 minutos

Com autonomia e protagonismo, cultura maker inspira a educação do século XXI

Conheça projetos que fortalecem conceitos como uso de tecnologia, autonomia e protagonismo, além de unir forças no combate à pandemia do coronavírus

Profissionais da saúde posam para foto usando máscaras de proteção facial

Relatório de tendências do Facebook apontou a cultura maker entre os assuntos mais buscados pelos brasileiros em 2019. Além de despertar cada vez mais interesse, colocar a mão na massa ganha força como prática pedagógica ao promover autonomia e protagonismo, conceitos importantes e presentes tanto na descrição da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) quanto na implementação do Novo Ensino Médio.

Análises sobre o futuro do trabalho indicam que estamos em meio à 4ª Revolução Industrial, marcada pela adoção de sistemas inteligentes, o que exige profissionais preparados para desenvolver e lidar com a tecnologia e que saibam atuar em colaboração com seus colegas, contribuindo para o bem comum. Nesse cenário, atuação de movimentos autônomos em todo o mundo ganha relevância.

“O Movimento Maker é marcado pela autonomia, galgado pelo livre compartilhamento de sabedoria entre pessoas com ou sem formação acadêmica”, explica Carlos Eduardo Lima Braga, o Kadu, especialista em Tecnologia Educacional e Google Innovator.

O educador integra o Makers Contra a Covid-19, que promove o combate à pandemia. O coletivo autônomo se formou a partir de uma conversa entre Kadu, que também é fundador da Teia Inovação Consciente, e Denis Massucatto, professor de engenharia de impressora 3D na Universidade de Mogi das Cruzes (SP). A ideia era produzir face shields, máscaras de proteção facial para profissionais da saúde.

A rede de colaboradores envolve ainda engenheiros de software, gestores e professores de universidades, profissionais da área da Saúde e até mesmo do Audiovisual, como fotógrafa e figurinistas.  Com uma estrutura horizontal, coordenam a produção dos makers, ou seja, quem produz os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), até a logística de entrega para hospitais, assistentes sociais e agentes comunitários. Também produzem material de comunicação para divulgação nas mídias sociais.

Kadu Braga conta que já foram doados insumos para 35 instituições de toda a Grande São Paulo e foi fundamental a articulação com a Dra Ho Yeh Li, chefe da infectologia e UTI do Hospital das Clínicas. “Semanalmente, nós enviamos novos protótipos para avaliação e aprimoramento. Essa troca direta com os profissionais da saúde é primordial para o desenvolvimento e legitimação do projeto”, completa.

O poder do fazer

Um dos fatores mais valiosos que a cultura maker pode levar às escolas e para o ensino de competências e habilidades é a ação prática, segundo Fernanda Camara, bióloga e coordenadora do Santos Hacker Clube.

“Quando somos estimulados a realizar um projeto, aprendemos na prática como colaborar, como pesquisar, como solucionar problemas de forma criativa. O fazer é extremamente gratificante: desde fazer um pão até fazer um robô. Quando você se vê capaz de superar os desafios e enxerga o resultado de seus esforços e estudos isso gera uma sensação que eu chamo de o poder do fazer’”, afirma.

O grupo do litoral de São Paulo existe desde 2013 e nasceu do encontro entre amigos criativos e da busca por pessoas engajadas em brincar, estudar e inventar. Unidos por meio do Facebook e Whatsapp, tornaram-se mais ativos em 2019 ao promover estudos presenciais, ganhando uma sala para abrigar equipamentos com a parceria do Instituto Procomum. Hoje, conectam estudantes e diversos profissionais interessados em discutir tecnologia, como professores, artistas, biólogos, engenheiros e físicos.

Sempre conectados, assim que souberam dos primeiros casos de coronavírus no Brasil, os integrantes estudaram o que acontecia em outros países, como o desenvolvimento de válvulas para respirados feitos com impressão 3D pelos italianos. Voltando-se à comunidade local, decidiram que a confecção das máscaras de proteção facial era viável.

Já foram produzidos cerca de 2.000 face shields com o apoio de 28 makers usando  impressoras 3D. Uma equipe de 10 pessoas está na coordenação do projeto e contam ainda com a participação de duas escolas de Ensino Fundamental, uma universidade e duas Organizações Não Governamentais (ONGs).

São beneficiados hospitais em sete cidades da Baixada Santista e a bióloga destaca que é gratificante dar suporte aos profissionais da área da Saúde, mas também está sendo fundamental contar com a solidariedade de todos.

“Nos colocamos da melhor forma para ajudar nessa missão de cuidar de quem cuida, mas todo o processo é feito a partir de doações. E assim buscamos chegar ao maior número possível de pessoas”, salienta. O site do Santos Hacker Clube detalha as maneiras de colaborar e traz informações sobre logística, produção e distribuição dos EPIs.

Um movimento para transformar o mundo

O educador Kadu Braga analisa que makers assumiram a produção de EPIs em escala mundial por conta da demora nas respostas à pandemia do Covid-19. Além disso, acabam fortalecendo políticas públicas, o que no Brasil significa atuar pelo fortalecimento do SUS, Sistema Único de Saúde, por exemplo.

“Percebemos que nosso objetivo seria ‘achatar’ a curva de contaminação dos profissionais de saúde visando não sobrecarregar, ainda mais, o sistema”, conta. Nesse sentido, a natureza da cultura maker, fundamentada em uma organização de trabalho horizontal, na solução de problemas com alta capacidade criativa e com uso da tecnologia, torna o processo muito mais eficiente e colaborativo.

A maneira de trabalhar dos movimentos também já é adaptada ao isolamento social por utilizar a fabricação digital e o compartilhamento de projetos para a fabricação dos insumos em casa. “A própria tradução do nome explica, é a cultura do fazer e neste momento temos o propósito comum de enfrentar a pandemia. Sempre esteve ligado ao compartilhamento e a colaboração. É isso que possibilita que tenhamos autonomia para realizar uma produção independente de grandes indústrias”, complementa Fernanda Camara.

Kadu defende, contudo, que é preciso reconhecer o privilégio de quem dispõe de conhecimento e maquinário prévios para viabilizar projetos e atuar para aprimorar mecanismos na disseminação do movimento maker.

“A cultura maker não está intrinsecamente ligada a tecnologias ‘de ponta’, como uma impressora 3D, porém isso não pode se tornar uma desculpa para o não investimento. Acreditamos em um movimento acessível, que busque prototipar soluções para problemas reais da sociedade, seja ela com maiores ou menores bens de consumo ou acessos”, resume.


Outras Notícias

Enem: 5 aplicativos gratuitos que professores podem indicar para apoiar a preparação dos estudantes

27/08/2026

Enem: 5 aplicativos gratuitos que professores podem indicar para apoiar a preparação dos estudantes

Saiba como a tecnologia pode fortalecer a aprendizagem, complementar o trabalho pedagógico e contribuir para o desenvolvimento de competências digitais

Educação midiática: conheça estratégias para combater fake news na escola

24/08/2026

Educação midiática: conheça estratégias para combater fake news na escola

De memes e vídeos virais a conteúdos gerados por inteligência artificial, especialistas explicam como transformar o ambiente digital em uma oportunidade de aprendizagem e formação cidadã

Entre a escola e o mundo do trabalho: os caminhos que a EPT abre para os jovens

18/08/2026

Entre a escola e o mundo do trabalho: os caminhos que a EPT abre para os jovens

No Dia do Estagiário, histórias de estudantes e egressos mostram como a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) contribui para a inserção no mundo do trabalho, o acesso ao Ensino Superior e a construção de projetos de vida.

Dia do Estudante: preparar os jovens para a era da inteligência artificial é um desafio da educação

11/08/2026

Dia do Estudante: preparar os jovens para a era da inteligência artificial é um desafio da educação

Mais do que aprender a usar ferramentas digitais, estudantes precisam desenvolver pensamento crítico, criatividade e competências para atuar em uma sociedade cada vez mais influenciada pela inteligência artificial.

Como tecnologia, IA e formação docente fortalecem a recomposição da aprendizagem

31/07/2026

Como tecnologia, IA e formação docente fortalecem a recomposição da aprendizagem

Plataformas adaptativas, análise de dados e inteligência artificial ajudam professores e gestores a identificar lacunas de aprendizagem e personalizar estratégias para apoiar estudantes

Implementar a BNCC Computação é o caminho para trabalhar inteligência artificial na escola

27/07/2026

Implementar a BNCC Computação é o caminho para trabalhar inteligência artificial na escola

As competências necessárias para compreender algoritmos, dados e os impactos da IA já estão previstas nas diretrizes para o ensino da computação. O desafio das redes de ensino agora é transformar os currículos já atualizados em experiências concretas de aprendizagem