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27.04.2016
Tempo de leitura: 4 minutos

Como o ensino de robótica para crianças e adolescentes vai muito além da criatividade

Como as aulas de robótica incentivam a tentativa e erro e estimulam o pensamento criativo em sala de aula.

A ideia de criar e fazer junto também favorece as relações entre educadores e alunos.

Meninas e meninos de variadas idades se agrupam em torno de peças quadradas LEGO e delicadas placas de Arduino. Eles são o sujeito de criação daquilo que vai nascer do amontoado de peças: pode ser um pequeno robô humanoide ou um carrinho – tudo depende da criatividade e da disposição do grupo. O professor orienta o processo, interferindo apenas quando necessário. O que for criado será fruto da imaginação, do senso de coletividade e da coragem de errar de quem ligou circuitos e apertou componentes.

Aulas como a descrita acima acontecem na escola EMEF Campos Salles, no bairro paulistano de Heliópolis, há quatro anos. Referência em inovação por seu modelo descentralizador e integral de educação, a escola tem aulas de robótica oferecidas no contraturno para alunos do quinto ao nono ano. Os adolescentes são introduzidos à robótica e aprendem noções básicas de programação e eletrônica. A premissa, entretanto, é que eles criem o que vier de suas mentes e o que mais os agradar.

O educador responsável, Eder Souza, conta que as classes são muito experimentais, o que também vale para a reinvenção do lugar do professor. “Temos como moldado o perfil do que é ser professor, e nas aulas de robótica isso muda completamente. Então estou sempre aprendendo”, define. Eder não traz projetos prontos aos estudantes. As criações robóticas nascem do ajuntamento de ideias coletivas, da pesquisa feita por alunos e professor, e principalmente, da tentativa e erro. “Digo aos meus alunos que não temos obstáculos, e sim desafios.”

“Um grande desafio para os educadores atualmente é manter o interesse dos estudantes, nativos digitais, pelo conteúdo das aulas. A robótica é uma grande ferramenta de empoderamento para esses educadores, uma vez que permite um maior engajamento desses jovens pelas atividades escolares”, complementa Henrique Foresti, engenheiro de sistema do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R), apoiador da Fundação Telefônica Vivo no Projeto Escolas Rurais Conectadas. O professor não necessariamente precisa dominar todos os conteúdos – o processo laboratorial de criação conjunta é vantajoso para ambos os lados. “Ele cria e desobstrui os caminhos para construção do conhecimento”.

Os ganhos de esmiuçar componentes e criar dispositivos funcionais, para Eder, são sentidos no decorrer da aula. Ele percebe que os alunos se tornam mais audaciosos em seu projetos e ideias, buscando recursos para além daqueles que estão à sua disposição. Como exemplo, ele diz de jovens que, conhecendo o Scratch (comunidade de aprendizagem criativa), começaram a buscar novas formas para programar. Ele adiciona que a transdisciplinaridade ocorre de maneira espontânea. “Não preciso conduzir o aluno a aprender matemática ao programar. Eventualmente surge uma multiplicação ou divisão, então é natural”.

A transdisciplinaridade vai muito além da proximidade da robótica com ciências exatas. A complexidade de criar seres interdependentes desperta nas crianças e nos adolescentes questionamentos nos campos da biologia, história, línguas a educação artística. “Antes de construir um robô, precisamos pensar em porque construir, como essa nova persona não humana vai se relacionar com os humanos, quais as emoções que esses seres vão produzir em quem interagir com eles.”

Para que outras escolas como a Campos Salles possam desfrutar de aulas de robótica, é imprescindível que os poderes públicos deem abertura e regularizem a participação da matéria no currículo básico escolar. “A Lei de Diretrizes e Bases da educação no Brasil já prevê uma diversificação no conteúdo currículo que permite a inclusão da robótica”, completa Henrique. Ele ainda aponta que a popularização da robótica, a diminuição de preços de componentes e o fortalecimento de competições de robótica nacionais podem ser caminhos para que mais crianças e adolescentes entrem em contato com essas oficinas de experimentação e criatividade.

Crédito da imagem: Maker Faire


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