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30.11.2016
Tempo de leitura: 5 minutos

“O propósito é como seremos moralmente responsáveis e, em nosso tempo de vida, ver o fim do trabalho infantil”, diz ativista indiano

Créditos: Yuri Kiddo

por Arturo Hartmann, do Promenino com Cidade Escola Aprendiz
Enviado especial a Brasília

O ativista Kailash Satyarthi era um dos mais requisitados para reuniões e conversas. Esta entrevista exclusiva que concedeu ao Promenino foi interrompida pelo pedido de seu assessor, pois ele devia correr para uma reunião de última hora com uma autoridade da Coreia do Sul. O indiano, militante contra o trabalho infantil desde os anos 80, falou sobre o atual estágio da erradicação, do que devemos fazer para acelerar o passo e da responsabilidade moral que recai sobre a comunidade internacional.

Lei mais sobre a Conferência:
Plenária debate urgências para que metas de erradicação sejam cumpridas

Promenino: Algumas discussões da Conferência, e você disse isso no primeiro dia, mostram preocupação de que não iremos cumprir as metas de 2016, de erradicação das piores formas. Devemos rever as metas ou encontrar formas de acelerar as políticas de combate?

Kailash Satyarthi: Acho que devemos fazer um momento de instrospecção e usar nossos sucessos até agora para multiplicá-los em outros lugares. Temos que fazer isso imediatamente. Se continuarmos no passo presente, não permaneceremos no caminho. Mas se pudermos fazer esforços regionais, podemos alcançar as duas metas (a de erradicação de piores formas em 2016 e de todo o trabalho infantil até 2020). Em um espaço de três anos muitas coisas mudam. Depois de dois anos, você imaginaria as mudanças que vimos nos países árabes. O que aconteceu no Egito, na Síria, no Iêmen. As coisas mudaram porque as pessoas queriam que mudassem. O que esta Conferência pode aprender é que se você estiver comprometido, se for honesto, se tiver uma estratégia, então pode alcançar o objetivo. Eu não sou pessimista se um esforço genuíno for feito.

Promeino: Quais políticas estão sendo bem-sucedidas?

Kailash Satyarthi: Vemos em vários países que muitos desenvolvimentos estão sendo expandidos em educação, incluindo na Índia. Ou em países pobres, como Bangladesh. Se as crianças estão indo à escola e lá há incentivos e uma boa educação, elas permanecem na escola. Outra coisa que funcionou na Índia foi o esquema de garantia de emprego nas zonas rurais, um programa de proteção social que ajudou milhões de pessoas e retirou crianças do trabalho infantil e colocou-as na escola. Em países onde a educação foi tornada grátis e mais útil, como na Tanzânia ou no Quênia, as crianças estão indo à escola em vez de irem a minas, fábricas e fazendas. Isso funcionou.

Outra questão é a pressão do consumidor. Por exemplo, a indústria do carpete, no sul da Ásia. Quando comecei a lutar contra ela, no começo dos anos 90, o número de crianças que trabalhavam neste setor era de um milhão, fazendo carpetes que eram vendidos para todo o mundo. Lançamos uma campanha na Europa e nos Estados Unidos, e isso pressionou as grandes companhias e os fornecedores locais a acharem uma saída. A demanda então cresceu para carpetes livres de trabalho infantil. Tivemos que introduzir um novo sistema de identificação para os consumidores, que começaram a comprar carpetes sem trabalho de criançasl. O resultado foi que, do meio dos anos 90 até hoje, o número caiu de um milhão para 300 mil, ou seja, 700 mil crianças foram tiradas do trabalho infantil e estão, muito provavelmente, na escola.

Promenino: Você disse algo interessante no primeiro dia, sobre a emergência ética, o fato de que temos que ter uma ética, pois essas crianças que trabalham não poderão nos cobrar responsabilidade.

Kailash Satyarthi: Falamos de crianças neste hotel caro e muito bonito, um lindo ambiente, boa comida, um lugar luxuoso para viver, além de viajarmos por todo o mundo. Mas a todo o momento devemos pensar que temos que ser cobrados por nossa responsabilidade em relação às crianças cujos problemas, dores e sofrimento estamos representando aqui, e isso é uma questão moral. E se não nos cobrarmos responsabilidade a nós mesmos, então por que estamos aqui? Não estamos aqui para nos mostrar a nossos doadores ou fazer boas reportagens e ficarmos felizes, ou mostrarmos nossas faces na câmera. Isso é bobagem, o propósito é como seremos moralmente responsáveis em relação a essas crianças e, em nosso tempo de vida, ver o fim do trabalho infantil.

Promenino: Hoje enfrentamos algumas crises, como a questão na Síria. Ou ainda tivemos a crise econômica de 2008. A comunidade internacional criou mecanismos para que esses momentos não façam retroceder as conquistas de erradicação do trabalho infantil?

Kailash Satyarthi: Isso é verdade, sobre crises econômicas ou ecológicas, devido a mudanças climáticas. Ou então insurgências ou guerras entre países. Estas coisas atingem os pobres dos pobres, e quem são os mais vulneráveis, os mais miseráveis, os últimos membros de uma sociedade? São as crianças de uma família pobre, de um trabalhador pobre de uma vila, em qualquer parte do mundo. Enquanto não vermos o mundo por meio do olhar desta última pessoa do mundo, não conseguiremos uma mudança rápida e positiva. Então temos que ter em conta que, quando lidamos com uma crise, nossos gastos na erradicação do trabalho infantil ou em educação não podem diminuir. Não podemos ter cortes de governos ou de nossos doadores. Investir em crianças é investir no presente e também no futuro.

Assista à entrevista completa no canal de YouTube do Promenino:

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