Informe Social 2025: inclusão digital como chave para a equidade na educação pública.

Notícias

31.05.2019
Tempo de leitura: 5 minutos

Os “cortes chavosos” que estão ditando a moda e a estética das periferias

Conheça o trabalho de barbeiros que chamam atenção pelo talento, criatividade e pelo impacto social positivo que trazem para as suas quebradas.

Nos últimos anos, a periferia tem ganhado cada vez mais destaque no país por todo o potencial que vem mostrando em diferentes campos, como na educação e na ciência. Outra área na qual essas comunidades têm se destacado é no setor de beleza, com profissionais que estão fazendo a diferença na estética das periferias com exemplos de inovação, empreendedorismo e contribuição para seus contextos sociais.

“Além do poder de compra que cresceu na periferia nos últimos 20 anos, começaram a surgir produtos para quem está lá. A indústria começou a se voltar ao público periférico”, explica Emílio Domingos, documentarista e antropólogo diretor do documentário “Deixa na régua”, que fala sobre como salões de barbeiro de favelas e subúrbios são alguns dos lugares onde a nova estética da periferia se expande.

Para ele, essa mudança de paradigma, na qual é a comunidade periférica quem cria a moda, tem relação com uma juventude que impôs suas demandas perante indústrias como a da beleza.  “Tem muito a ver com as pessoas da favela que demandaram à indústria que os inserissem no mercado e os compreendessem”. O fato de haver mais pessoas negras nos comerciais de beleza atualmente é um dos indícios dessa nova ordem, segundo o especialista.

Domingos afirma ainda que os barbeiros lançam tendências e se mantém conectados com o que há de mais novo no mercado de beleza. “Existe uma inovação constante e contínua, eles sempre procuram criar novos cortes e se atualizar. É um dos segredos para manterem um número enorme de clientes que frequentam os salões semanalmente”, diz.

A imagem mostra o corte de cabelo de um rapaz de perfil

Empreendedorismo é chavoso

“Os barbeiros também são exemplo de empreendedorismo na favela. Eles começam simples e vão se sofisticando, mostrando que o talento e a arte possibilitam a alguém se tornar uma referência”, reflete o antropólogo. “Eles são autônomos e criam um modelo de negócio a partir da observação de seu cotidiano. Muitas vezes, os garotos começam com um espelho, uma cadeira e uma navalha, e a partir disso criam a barbearia, crescem e se tornam referência”.

A trajetória do Vinicius “Bom de Corte” Rodrigues é um bom exemplo. Trabalhou como garçom, estoquista e chapeiro antes de virar o barbeiro que é referência em Guaianases, zona leste de São Paulo. Especialista em diversos cortes “chavosos” (estilosos e diferenciados), ele conta que sempre soube que tinha capacidade para mudar de vida.

O pai tinha um espaço vazio de 2m² e sugeriu que Rodrigues fizesse algum curso na área. “Era um momento em que ou eu escolhia isso ou faria uma escolha errada. Tinha 20 anos quando comecei”. Depois de começar o curso, ele pegou gosto pelo trabalho e passou a investir mais na ideia. “Comprei uma cadeira no ferro velho, por 50 reais. Comecei a cortar e seis meses depois já tinha uma clientela legal. Daí pra frente, só cresceu”, conta.

Um dos clientes fiéis do salão Bom de Corte é Willian Maciel, 27 anos, que trabalha com medição técnica. “Eu já corto com ele há uns quatro anos, conheci por causa de um colega da empresa onde eu trabalhava. Antes era tudo padrão, básico e sem diferencial. Falaram que tinha um cara que cortava diferente e esse camarada me indicou o Vinicius”. Depois de perceber que o trabalho era mesmo diferenciado e que havia um dom ali, Maciel não teve dúvida: “falei ‘é ele mesmo. Vou seguir [cortando] só com ele’”.

Segundo o cliente fiel, as atitudes do profissional fazem diferença porque ele se preocupa em ajudar a periferia. “Ele ajuda crianças, adolescentes e tudo isso foi fazendo com que ele ganhasse meu respeito. Imagina se todo lugar tivesse uma pessoa que pensa no próximo como ele pensa? O mundo seria diferente. É um cara que te incentiva bastante. Ele começou lá de baixo e chegou aonde chegou, e você olha isso e pensa ‘se ele conseguiu, eu consigo também’”.

“Não é só cortar cabelo”

Vinicius Rodrigues conta que percebeu, com o tempo, que o seu trabalho ia muito além da estética. “Não é só cortar cabelo. Com o trabalho de corte, tem muita coisa relacionada. Servir de exemplo e mostrar que tem outro caminho que dá pra seguir é importante”.

Para ele, também é fundamental trazer referências de fora da quebrada e se ligar nas tendências. “A ideia é trazer para a periferia a qualidade e o conforto da classe alta. Conforme faço eventos e frequento vários espaços, trago novidades que talvez a molecada não conheça”.

Outro ponto importante tem relação com a autoestima dos jovens chavosos. “Tem moleque que chega lá que parece estar na depressão! Depois que você troca um papo, corta o cabelo, tira umas fotos e mostra pra ele ver que tá ficando bom mesmo, ele fica em outro nível. Se ele tá com algum pensamento negativo, depois do corte ele muda”, revela Rodrigues.

O barbeiro conta que cortes como os que ele faz têm sido cada vez mais procurados. “O Brasil virou referência por cortes que vieram do extremo da periferia, quebrando muitos preconceitos. Três anos atrás, se eu fizesse um risco na cabeça de um cliente, ele era abordado pela polícia. Hoje não, já virou moda e fez parte até de desfile na SPFW. Quebramos mais uma barreira”, conclui.


Outras Notícias

Implementar a BNCC Computação é o caminho para trabalhar inteligência artificial na escola

27/07/2026

Implementar a BNCC Computação é o caminho para trabalhar inteligência artificial na escola

As competências necessárias para compreender algoritmos, dados e os impactos da IA já estão previstas nas diretrizes para o ensino da computação. O desafio das redes de ensino agora é transformar os currículos já atualizados em experiências concretas de aprendizagem

12 jogos gratuitos para desenvolver pensamento computacional e raciocínio lógico na escola

20/07/2026

12 jogos gratuitos para desenvolver pensamento computacional e raciocínio lógico na escola

Lista reúne opções digitais e de tabuleiro que transformam conteúdos curriculares em desafios interativos e ajudam estudantes a desenvolver habilidades essenciais para a resolução de problemas.

ECA Digital amplia a proteção de crianças e adolescentes e fortalece a cidadania digital nas escolas

15/07/2026

ECA Digital amplia a proteção de crianças e adolescentes e fortalece a cidadania digital nas escolas

A atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente incorpora novos desafios do ambiente digital e amplia a responsabilidade das escolas na formação dos estudantes. Para apoiar educadores, a Fundação Telefônica Vivo oferece gratuitamente o curso Cidadania Digital, da plataforma Escolas Conectadas.

Formação de professores de matemática: como a tecnologia pode apoiar a aprendizagem docente

08/07/2026

Formação de professores de matemática: como a tecnologia pode apoiar a aprendizagem docente

Resultados da Prova Nacional Docente evidenciam desafios na formação de professores e mostram como tecnologias digitais podem apoiar o desenvolvimento profissional docente e contribuir para a aprendizagem em matemática.

IA na educação: o que dizem MEC, BNCC e especialistas sobre o uso nas escolas

02/07/2026

IA na educação: o que dizem MEC, BNCC e especialistas sobre o uso nas escolas

Diretrizes da Base Nacional Comum Curricular - Computação e outros documentos mostram como usar inteligência artificial com foco em equidade, formação de professores e proteção de dados

Cidadania digital e respeito às diferenças: o papel da BNCC Computação e do ECA Digital na escola

25/06/2026

Cidadania digital e respeito às diferenças: o papel da BNCC Computação e do ECA Digital na escola

No mês do Orgulho LGBT, dados apontam o avanço do discurso de ódio online contra a população LGBTQIA+ no Brasil; BNCC Computação e ECA Digital indicam caminhos para que a escola forme estudantes preparados para uma convivência ética, crítica e responsável no ambiente digital