Informe Social 2025: inclusão digital como chave para a equidade na educação pública.
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12.05.2017
Tempo de leitura: 6 minutos

Empresa de mulheres negras promove inclusão ao reciclar notebooks

Infopreta oferece consertos mais baratos e ensina mulheres a entrar no universo da TI

Infopreta oferece consertos mais baratos e ensina mulheres a entrar no universo da TI.
Buh D’Angelo solta uma risada à pergunta de quando se interessou pelo conserto de objetos: “Desde que eu nasci. Saí da barriga da minha mãe consertando”. Ela teve uma infância movida à curiosidade. Passava horas desmontando bugigangas para entender seu funcionamento. A ávida atenção por resolver problemas transformou-se em sustento quando cresceu. Em Guarulhos, cidade da Grande São Paulo, a jovem consertava rádios de carro, televisões e eletrodomésticos. Tudo que aprendeu foi na prática, muito mais do que nos cursos em que se certificou, como eletrônica ou robótica.
Seu talento e competência transbordavam, literalmente. A casa da família estava submersa em um mar prateado de desktops e telas de computador. A dificuldade de conseguir materiais para estudar levou a jovem a criar o empreendimento social Infopreta, em 2013. A ideia era democratizar o mundo da tecnologia e da informática, especialmente para mulheres da periferia e em estado de vulnerabilidade social.
Para dar sequência à empreitada e ter um espaço apropriado para trabalhar, a jovem recorreu a um prédio na região central da São Paulo, onde já tinha feito um curso de drones. A conquista do espaço aconteceu como muitas coisas na vida da autodidata de apenas 22 anos: com criatividade, parcerias, reaproveitamento de objetos e afeto pela tecnologia e seu poder de transformação social.

Equipe que faz parte do Infopreta

Equipe que faz parte do Infopreta
Para falar sobre a Infopreta, Buh não quer falar sozinha. No local onde funciona a empresa, quatro cadeiras são puxadas pelas outras mulheres da empreitada. Uma com um pirulito na boca, outra diminuindo o som da cantora Rihanna, que embala o cotidiano de trabalho, a terceira com uma pequena chave de fenda no bolso. Andressa Pereira, de 22 anos, desabafa: “A Infopreta foi o único lugar onde consegui trabalho na área de tecnologia da informação, porque esse espaço para mulher não existe. O empregador olha seu currículo, pergunta mil coisas e não te aceita. A Buh me acolheu quando vim para cá e disse: ‘te ensino tudo que sei’. Por isso venho todo dia!”, completa com humor a responsável por consertos.
“Mulher preta então! Não está em nenhum lugar perto de tecnologia”, arremata Danielle Lourenço, 19 anos, responsável pela comunicação. “As pessoas ainda têm coragem de perguntar: “Ué, por que vocês só contratam mulher?”. Será que é porque os homens estão 100% inseridos e dominando o mercado de tecnologia? Temos que provar constantemente que sabemos o que estamos fazendo”.
Os dados apoiam as informações de Daniele. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) divulgada em 2016, dos mais de 580 mil profissionais que atuam em TI no Brasil, 20% são mulheres. Quando se fala sobre a história da computação, raramente se menciona que a primeira programadora foi uma mulher, Ada Lovelace.

Infopreta tem a filosofia de preço acessível e transparência no conserto de equipamentos

Infopreta tem a filosofia de preço acessível e transparência no conserto de equipamentos
A Infopreta é primeira assistência técnica feita por mulheres, em sua grande maioria negras. Ela funciona como assistência comercial, prestando serviços como reparação e formatação de computadores, manutenção de aparelhos eletrônicos, desenvolvimento de websites e consultoria tecnológica, além da reciclagem de aparelhos eletrônicos. Eles também oferecem cursos esporádicos voltados para mulheres e orientação técnica especializada para elas, tornando-as aptas a também realizar seus próprios pequenos consertos.
Fernanda Monteiro, a sócia da Infopreta, atua há mais de 12 anos na área de TI. Tendo não somente passado pelos percalços de ser mulher em um ambiente masculino, ela sofreu enquanto fazia sua transição de gênero. O mercado de tecnologia é restrito para quem não é homem, branco e cisgênero – pessoa que se identifica com o sexo com o qual nasceu, ao contrário do transgênero. Por isso, reforça a importância da atuação do Infopreta no que chama de ativismo do cotidiano. “As assistências técnicas convencionais geridas por homens sobrecarregam o preço dos serviços de TI. Quando fazemos um conserto barato, que é o justo, estamos militando para que mais pessoas tenham acesso à tecnologia e sejam incluídas social e digitalmente”.
Danielle, por sua vez, acredita que o futuro da Infopreta é ser um modelo para outras mulheres jovens da periferia, inspirando projetos similares a nascer. “Existir nesse espaço de tecnologia como mulher, negra e periférica já é por si só uma representação imensa. O que fazemos é empoderamento na prática”.
Mônica Souza, outra das técnicas, completa. “É empoderamento como trabalho, porque mulheres nunca encontram espaço na área. É empoderamento quando fazemos uma menina perceber que é capaz de consertar qualquer coisa. É empoderamento quando vemos uma mulher com um computador consertado e funcional, ganhando o mundo”.
O projeto Notes Solidários da Preta reflete essa visão da Infopreta. Ele consiste em consertar notebooks danificados e encaminha-los para jovens mulheres estudantes de ensino superior, de forma gratuita ou por um preço simbólico. “Consertamos e enviamos um notebook para uma estudante de enfermaria. No mercado, ela só conseguiria a máquina por volta de R$ 3000 reais, mas aqui, foi por R$ 70 reais. Hoje ela está estudando e muito feliz. É isso o que acontece quando cobramos pouco ou passamos o computador gratuitamente”, diz Buh.

Buh em foto ao lado da chanceler Angela Merkel, durante evento do G20 em Berlim

Buh em foto ao lado da chanceler Angela Merkel, durante evento do G20 em Berlim
A iniciativa rendeu à Infopreta o terceiro lugar em uma premiação promovida pelo G20 em Berlim, em um evento sobre como incluir a mulher no mundo da tecnologia. Buh participou do encontro em abril, após sua equipe ganhar a competição na etapa nacional, e conta que se sentiu mais prestigiada no exterior. “Os gringos reconhecem muito mais a gente do que aqui”, desabafa.
Atualmente, a Infopreta está se dedicando a editais para potencializar o projeto e Buh continua disseminando seu espírito empreendedor. Hoje, ela é uma influenciadora do Programa Pense Grande, iniciativa da Fundação Telefônica Vivo que incentiva e prepara jovens para desenvolverem suas ideias.


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