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20.01.2022
Tempo de leitura: 5 minutos

Xeque-mate: como o ensino do xadrez está transformando realidades em comunidade de SP

Imagem mostra alunos do projeto Casa Xadrez em volta de uma mesa onde há três tabuleiros do jogo. Eles estão acompanhados de um adulto, que parece ser o professor, e estão concentrados observando as peças do jogo

Tudo começou em 2013, quando a psicóloga Luciana Damasio participou de uma ação voluntária de Natal debaixo do viaduto do Minhocão, na cidade de São Paulo (SP). Mas surpreendida pelo impacto da iniciativa, ela foi tomada pela vontade de ajudar ao próximo e fundou a ONG Casa Bodisatva, que hoje sedia o projeto Casa Xadrez para aprender jogar Xadrez no tabuleiro.

A Casa Bodisatva, baseada nos preceitos do budismo, ocupa uns dos barracos da comunidade Recanto Suave, em Cotia, município da Grande São Paulo. O trabalho teve início com visitas em domicílio e alfabetização de famílias locais. No entanto, a ideia do ensino de xadrez partiu do psicólogo Fábio Damasio, marido de Luciana, que aprendeu a jogar com seu avô ainda na infância.

“A ONG já atuava com atendimentos a algumas famílias. Porém, percebemos que as crianças tinham à disposição apenas uma quadra de futebol de salão, sem professores ou participação de alguma organização para criar e manter atividades regulares”, relata Fábio.

Atualmente, o projeto busca passar lições de comunicação não-violenta, além de estimular o aprendizado e oferecer opções de lazer para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Assim, as aulas que aconteciam na casa de uma moradora da comunidade ganharam espaço próprio e mais alunos.

Dessa forma, cerca de 50 crianças e jovens da comunidade, entre 5 e 16 anos, são atendidos pelo projeto, que tem retomado as atividades e torneios presenciais. Porém, antes disso, foi necessário adaptar as aulas para plataformas on-line devido ao distanciamento social imposto pela pandemia.

Oportunidades e novos horizontes

Fábio Damasio explica que o Casa Xadrez não pretende formar campeões na modalidade, mas oferecer novas perspectivas aos alunos. Por exemplo, muitos jovens que nunca tinham saído da comunidade puderam conhecer novos lugares e realidades através do projeto.

O estudante José Gabriel Morais, 14, foi o terceiro colocado no 4º Open Vicentino de Xadrez, realizado em São Vicente, no litoral paulista. O jovem teve a oportunidade de ver o mar pela primeira vez devido à viagem que fez para o torneio.

“O projeto me proporcionou diversas coisas, como sabedoria e uma pequena quantia mensal que faz com que eu consiga ajudar minha mãe nas finanças. Tive outras oportunidades, uma delas foi jogar em lugares que nunca imaginei que iria”, declara José.

Para Iago Resende, 15, a iniciativa promoveu uma mudança de postura. “Me ajudou a seguir regras, que são essenciais no xadrez, e também na forma de me comprometer com as coisas”, diz.

A ex-aluna Rosangela Guilherme, hoje com 34 anos, garante que sua participação nas aulas de xadrez mudou a sua maneira de enfrentar os obstáculos. “O xadrez me influenciou a pensar aonde quero chegar e a não desistir. Aprendi a olhar para o meu alvo”, reflete.

O projeto Casa Xadrez também oferece a “bolsa xadrez” aos participantes. O auxílio contempla cestas básicas e itens de higiene doados aos alunos mais assíduos e que também frequentam a escola, além da ajuda de custo mensal.

“A recepção da comunidade foi muito boa. A divulgação foi feita boca a boca e mais crianças foram aparecendo. Sempre levávamos lanches e algumas famílias enviavam seus filhos para que pudessem comer. Assim, acabavam aprendendo a jogar. Mas aos poucos, os dias de xadrez passaram a ser esperados por muitos”, complementa Fábio.

Uma nova perspectiva no ensino do xadrez

Com o intuito de ensinar concentração, habilidade para lidar com as frustrações e o pensamento de antever e planejar, o projeto Casa Xadrez conquistou apoiadores. Por exemplo, Krikor Sevag Mekhitarian, xadrinista bicampeão brasileiro da modalidade, e Renato Quintiliano, mestre internacional que já morou perto da comunidade e hoje viaja o mundo para disputar campeonatos.

Motivados por valores como respeito, amor e compaixão, Fábio pontua algumas mudanças notáveis no comportamento e autoestima das crianças após entrarem no projeto. Da mesma forma, analisa o impacto da ação para o futuro da comunidade.

“De fato, muitas crianças achavam que não seriam capazes de aprender. Entretanto, hoje são boas jogadoras, mais seguras de si e confiantes em suas potencialidades e capacidades. E não apenas no xadrez. Percebemos também uma maior conscientização sobre o aprender, e descobrir a importância que a educação tem na formação e na busca futura pelas oportunidades que o mundo oferece”, define.

Leia mais: Jogos de raciocínio desenvolvem habilidades cognitivas e emocionais


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