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29.02.2016
Tempo de leitura: 5 minutos

O que faz da EMEF Campos Salles, no bairro de Heliópolis, São Paulo, uma escola inovadora?

Apoiada pela Fundação Telefônica Vivo, a escola reúne estratégias que a tornaram referência na área da inovação na educação.

A EMEF Campos Salles traz um projeto inovador, que contempla ideais de autonomia, responsabilidade e solidariedade.

Apoiada pela Fundação Telefônica Vivo, a escola é referência de inovação na educação.

Existe uma premissa por trás de todas as iniciativas que tornaram a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Presidente Campos Salles, situada na Estrada das Lágrimas, no bairro de Heliópolis, Zona Sul de São Paulo (SP), uma referência em inovação na educação: a concepção de que a criança não é um ser menor ou incompleto. É preciso dar voz aos meninos e meninas, respeitar e ouvir suas opiniões.

O pensamento do educador Braz Nogueira trouxe à instituição um novo olhar sobre a prática educacional. Inspirado pela experiência portuguesa da Escola da Ponte e pelos princípios da educação integral, o então diretor da EMEF decidiu se distanciar do tradicional padrão de aulas de 45 minutos e ministradas por um único professor, criando, junto à comunidade e à família, um projeto inovador, que contemplasse ideais de autonomia, responsabilidade e solidariedade.

A mudança mais radical e simbólica neste processo, pela qual a escola é até hoje lembrada, foi a derrubada das paredes das salas de aula, formando salões de estudo. As mesas deixaram de ser individuais, e os estudantes se organizam em pequenos grupos, realizando atividades distintas. Como forma de exercitar sua autonomia, procuram resolver as questões entre si, recorrendo a um dos educadores de prontidão na medida em que encontram dificuldade. O intuito era permitir o trabalho colaborativo entre os alunos e uma gestão compartilhada entre professores.

Além disso, no lugar da aula expositiva, os estudantes recebem roteiros de estudo, segundo os quais desenvolvem percursos de aprendizagem individuais e em grupo sobre as diversas áreas do conhecimento (português, matemática, ciências, história etc.). Há também a preocupação de que esses roteiros estimulem a interdisciplinaridade e, por consequência, o pensamento e a investigação contextualizada.

Segundo dados do Mapa de Inovação e Criatividade do Ministério da Educação (MEC), que reconheceu a EMEF Presidente Campos Salles, assim como outras 177 instituições que promovem práticas criativas e inovadoras na educação básica brasileira, 60% dos itens do currículo da escola se referem às expectativas de aprendizagem da Secretaria Municipal de Educação. Os demais 40% nascem da realidade social, da vida e dos interesses dos estudantes, complementando os roteiros temáticos.

Imagem panorâmica da Escola Campos Salles, em Heliópolis (SP), comunidade conhecida como bairro-educador.

Apoiada pela Fundação Telefônica Vivo por meio do projeto Escolas que Inovam – que incentiva as escolas na experimentação de práticas com Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e avalia o avanço das aprendizagens dos alunos –, e também pelo Instituto Natura, a Campos Salles demonstra sua linha de atuação coletiva em diversas iniciativas.

Uma delas, recebida pela escola em 2015, foi o projeto Primeiro Livro, idealizado pelo educador Luís Junqueira. Mesmo sem dispor de recursos para realizá-lo, a escola abraçou a ideia e – após um financiamento coletivo – Luís inseriu-se na rotina escolar e, junto com os professores, deu início à produção de escrita criativa com os alunos.

“A questão da escrita nas escolas não é trabalhada de forma leve, e as crianças acabam acreditando que não são capazes. O projeto Primeiro Livro mostra o contrário, e potencializa sonhos e esperanças”, elogia a diretora da EMEF, Rosemeire Schimidt. O êxito ficou visível no lançamento das obras literárias de 120 crianças, realizado na própria escola, em dezembro.

É importante ressaltar que toda transformação ocorrida na escola envolve a comunidade. Nos anos 1990, o muro de alvenaria que separava a instituição do bairro deixou de existir, e a praça em frente ao prédio, ponto de comercialização de drogas, foi revitalizada, conectando os dois espaços. Hoje essa integração se dá por meio de um Conselho de Escola, que conta com a participação e o apoio efetivo das lideranças locais.

Caminhada pela paz: a EMEF Campos Salles traz um projeto inovador, que contempla ideais de autonomia, responsabilidade e solidariedade.

A Caminhada da Paz, realizada pela escola e a UNAS (União de Núcleos Associações Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco) desde 1999, é um exemplo dessa parceria. O encontro reúne mais de 10 mil moradores para celebrar a cultura de paz na comunidade e reivindicar políticas públicas e participação social na redução da violência na região.

A aproximação bairro-escola aliada à visão da educação como um direito fundamental da comunidade possibilita também, como ressalta Braz Nogueira, que o estudante se reconheça como sujeito da sua aprendizagem e pratique, desde cedo, o exercício da cidadania. “É como se cada morador tivesse um cinzel na mão para esculpir o outro e também se deixar esculpir”, refletiu, poeticamente, deixando clara a vocação da EMEF Presidente Campos Salles, assim como dos moradores de Heliópolis, para liderar o desenvolvimento a partir da educação.


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