Não existe um “método de Singapura”, da Estônia ou do Japão que possa simplesmente ser copiado de um país para outro. Ainda assim, os sistemas educacionais que lideram o PISA compartilham algumas características: estabelecem objetivos de aprendizagem elevados, apoiam rapidamente os estudantes que enfrentam dificuldades e mantêm suas políticas educacionais por tempo suficiente para que produzam resultados. Essas são as principais lições apresentadas neste texto.
Em uma década marcada pela queda do desempenho educacional, alguns sistemas conseguiram preservar bons resultados. O PISA 2025 coloca quatro regiões chinesas, Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, conhecidas em conjunto como B-S-J-Z, e Singapura no topo da classificação. Estônia, Japão, Coreia, Macau, Taiwan e Reino Unido também aparecem entre os dez primeiros colocados em Ciências, Matemática e Leitura.
Esses sistemas pertencem a sociedades diferentes e, em alguns casos, adotam formas de organização bastante distintas. Eles também continuam enfrentando problemas importantes. Na Coreia, por exemplo, ainda existe uma grande distância entre os estudantes com melhores e piores resultados. Em Singapura, a origem socioeconômica continua influenciando o desempenho escolar. A Estônia, por sua vez, apresentou uma queda nos resultados de leitura.
Apesar dessas diferenças, a comparação entre os resultados do PISA e os estudos da OCDE sobre as políticas educacionais desses lugares permite identificar três características comuns. A primeira é o investimento na preparação dos professores para que consigam trabalhar com objetivos de aprendizagem elevados. A segunda é a oferta de apoio assim que surgem as primeiras dificuldades dos estudantes. A terceira é a continuidade das políticas educacionais, que não são completamente interrompidas ou substituídas a cada mudança política. Os bons resultados, portanto, não são comuns. Por trás de cada posição no ranking existem decisões concretas sobre formação docente, apoio aos estudantes e manutenção das políticas educacionais. A seguir, veremos cada uma dessas lições.
Primeira lição: objetivos ambiciosos exigem professores bem-preparados
Não basta afirmar que um país valoriza ou confia em seus professores. A pergunta mais importante é: o que esse país faz para criar condições para que eles ensinem bem? Os sistemas que lideram o PISA adotam diferentes processos de seleção, formação e acompanhamento dos professores. Todos eles, no entanto, partem de um mesmo princípio: a qualidade do ensino não depende apenas da formação inicial, mas precisa ser desenvolvida ao longo de toda a carreira.
No Japão, os profissionais formados precisam ser aprovados em um exame competitivo para ingressar na docência. Depois que começam a trabalhar, sua formação continua dentro da própria escola. Uma das práticas mais conhecidas é o lesson study, ou estudo de aula. Nessa atividade, vários professores planejam uma aula em conjunto, observam como os estudantes respondem e depois analisam o que poderia ser melhorado.
Singapura adotou uma estrutura diferente e bastante organizada. A carreira oferece possibilidades de progressão em docência, liderança escolar e especialização. Assim, os professores podem assumir novas responsabilidades e avançar profissionalmente sem precisar, necessariamente, abandonar a sala de aula. Os dados da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS) 2024, da OCDE, ajudam a compreender como essa estrutura influencia a atratividade da profissão. Em Singapura, 71% dos professores afirmam que seu trabalho é valorizado pela sociedade. A média entre os países da OCDE é de 22%. Entre os profissionais que estão começando a carreira, 79% dizem que a docência foi sua primeira escolha profissional.
A Estônia apresenta outro elemento importante. O país possui padrões profissionais que definem quais competências são esperadas dos professores e orientam tanto sua formação quanto seu desenvolvimento ao longo da carreira. Ao mesmo tempo, escolas e professores possuem ampla autonomia para decidir como colocar o currículo em prática. Essa autonomia, porém, não significa abandonar cada escola à própria sorte. Ela se apoia na formação dos profissionais e em referências comuns para todo o sistema.
Embora adotem modelos diferentes, esses sistemas chegam a uma conclusão semelhante: não é possível estabelecer objetivos de aprendizagem mais ambiciosos sem investir na preparação daqueles que ensinam. Um processo rigoroso de seleção pode contribuir, mas não é suficiente. Os professores também precisam de formação vinculada à prática, tempo para observar e analisar aulas, oportunidades de colaboração e uma carreira capaz de manter bons profissionais na rede de ensino.
O PISA 2025 também aborda essa questão a partir da perspectiva dos estudantes. Em 56 países os alunos que percebem maior apoio de seus professores tendem a obter melhores resultados em Ciências, mesmo quando se considera sua origem socioeconômica. Japão e Coreia estão entre os sistemas nos quais essa percepção de apoio mais cresceu desde 2015. Esse dado não prova, por si só, que o apoio dos professores seja a causa direta dos melhores resultados. Ainda assim, reforça a importância de contar com profissionais capazes de identificar dificuldades, explicar um conteúdo de outra maneira e ajustar suas estratégias de ensino às necessidades dos estudantes.
Portanto, o aprimoramento da prática docente não pode depender apenas do esforço individual de cada professor. O sistema educacional precisa oferecer condições, tempo e apoio para que isso aconteça. O impacto de uma reforma educacional depende, em grande parte, da capacidade dos professores de colocá-la em prática na sala de aula.
Segunda lição: o apoio deve chegar antes do fracasso
Objetivos de aprendizagem elevados podem incentivar o desenvolvimento dos estudantes, mas também podem aumentar as desigualdades quando não vêm acompanhados de apoio. A diferença está no que o sistema faz quando um aluno apresenta as primeiras dificuldades. Sistemas educacionais robustos não esperam que várias notas baixas ou reprovações confirmem que existe um problema. Eles acompanham a aprendizagem, oferecem tempo e explicações adicionais e procuram manter o estudante participando das mesmas atividades realizadas por sua turma.
Os dados do PISA 2025 mostram a importância dessa intervenção. No conjunto dos países da OCDE, 37% dos estudantes socioeconomicamente desfavorecidos não atingem o nível básico de Ciências. Entre os estudantes mais favorecidos, esse percentual é de 12%. A diferença observada aos 15 anos é resultado de dificuldades acumuladas ao longo de vários anos. Ela também reflete a desigualdade no acesso ao apoio: enquanto alguns estudantes recebem orientações adicionais na escola ou em casa, outros dependem de uma ajuda que sua família talvez não tenha condições de oferecer.
A Estônia construiu parte de sua equidade educacional por meio de um modelo escolar comum até os 16 anos, evitando separar precocemente os estudantes em diferentes trajetórias de acordo com seu desempenho. O apoio aos alunos com dificuldades ou necessidades educacionais especiais deve ser oferecido, sempre que possível, nas escolas regulares. Na última década, o país ampliou a presença de estudantes com necessidades educacionais especiais nessas escolas. O princípio é que uma dificuldade deve gerar uma resposta do próprio sistema educacional, antes que se transforme em motivo para separar o estudante de sua turma ou diminuir as expectativas sobre sua aprendizagem.
O Japão também mostra que é possível combinar alto desempenho médio com uma influência relativamente menor da origem social. A Coreia, por sua vez, apresenta uma proporção elevada de estudantes com desempenho excelente e uma parcela relativamente pequena abaixo do nível básico. Isso não significa que esses países tenham eliminado as desigualdades. Significa que conseguem assegurar o domínio das aprendizagens fundamentais a uma parcela ampla de cada geração.
O relatório apresenta alguns indícios sobre como esse resultado pode ser alcançado. O PISA pergunta aos estudantes, por exemplo, se seus professores continuam explicando até que eles compreendam e se oferecem ajuda adicional quando necessário. Nos sistemas em que essa prática menos diminuiu entre 2015 e 2025, os resultados em Ciências tenderam a cair menos. A existência de um espaço adequado para estudar na escola e a oferta de tutorias entre colegas também estão associadas a pontuações mais altas. A OCDE, contudo, recomenda cautela ao interpretar esses dados, pois uma associação estatística não é suficiente para comprovar que essas medidas, isoladamente, causaram o melhor desempenho.
Para oferecer apoio no momento adequado, as escolas precisam acompanhar continuamente a aprendizagem. A avaliação formativa cumpre essa função: durante a aula, o professor verifica o que os estudantes compreenderam e ajusta suas estratégias de ensino. Dessa forma, pode intervir enquanto a dificuldade ainda é mais fácil de enfrentar. Além de acompanhar a aprendizagem, é necessário direcionar mais recursos às escolas que atendem estudantes com maiores necessidades. Segundo a OCDE, garantir uma educação de qualidade desde os primeiros anos pode reduzir desigualdades e evitar problemas que, posteriormente, serão mais difíceis e mais caros de resolver.
Também é necessário rever medidas adotadas somente depois que as dificuldades já se acumularam. O Education at a Glance 2025 aponta que a repetência está associada a resultados futuros mais baixos e a um risco maior de abandono escolar. Fazer o estudante cursar novamente o mesmo ano pode parecer uma forma de manter o rigor acadêmico, mas frequentemente o coloca no mesmo percurso sem resolver as causas de suas dificuldades.
A lição é prática: o sistema deve definir objetivos de aprendizagem comuns, mas oferecer diferentes oportunidades e formas de apoio para que todos consigam alcançá-los. Isso significa identificar as dificuldades logo no início, oferecer apoio durante o horário escolar e destinar mais recursos aos estudantes e às escolas que enfrentam os maiores obstáculos. Metas elevadas só são justas quando o sistema também assume a responsabilidade de oferecer as condições necessárias para que os estudantes possam alcançá-las.
Terceira lição: as reformas precisam de coerência e continuidade
Os países que lideram o PISA tampouco compartilham uma mesma fórmula de governança. Singapura possui uma forte direção central; a Estônia concede autonomia considerável às escolas e aos professores; o Japão combina um currículo nacional com uma implementação local bastante consolidada. A convergência encontra-se em outro aspecto: as diferentes partes do sistema transmitem sinais coerentes entre si.
Os países que lideram o PISA não compartilham um único modelo de gestão. Singapura possui uma administração educacional mais centralizada. A Estônia concede ampla autonomia às escolas e aos professores. O Japão combina um currículo nacional com uma forte capacidade de implementação local. A principal semelhança entre eles não está, portanto, no grau de centralização. Está na articulação entre as diferentes políticas educacionais.
No Japão, o currículo estabelece objetivos comuns, enquanto a formação continuada ajuda os professores a transformar esses objetivos em práticas de sala de aula. O lesson study permite observar como os estudantes aprendem e utilizar esse conhecimento para aperfeiçoar o ensino. Na Estônia, a autonomia das escolas e dos professores funciona em conjunto com padrões profissionais e mecanismos nacionais de acompanhamento. Em Singapura, a formação, a avaliação e as possibilidades de progressão na carreira docente fazem parte de uma estrutura contínua. Embora o grau de autonomia varie, as políticas adotadas em cada sistema procuram se reforçar mutuamente.
Essa coerência ajuda a evitar problemas frequentes nas reformas educacionais. Um país pode, por exemplo, aprovar um currículo voltado ao pensamento crítico enquanto suas avaliações continuam valorizando principalmente o “decoreba”. Também pode introduzir novas tecnologias sem preparar os professores para utilizá-las ou exigir atendimento individualizado sem contratar profissionais suficientes para realizá-lo. No Education Policy Outlook 2025, a OCDE argumenta que as reformas têm maior possibilidade de produzir resultados quando currículo, ensino, ferramentas digitais e medidas de equidade estão articulados. Uma iniciativa isolada dificilmente transforma o sistema se as demais políticas apontam em outra direção.
Além de coerência, as reformas precisam de tempo. Formar uma nova geração de professores, disseminar uma prática entre milhares de escolas e avaliar seus efeitos são processos que levam anos. Depois de recuperar sua independência, a Estônia preservou seu modelo de escola comum e realizou ajustes graduais no currículo, na autonomia escolar e nos sistemas de informação. O Japão manteve práticas de colaboração entre professores mesmo durante sucessivas reformas. Singapura atualizou suas prioridades sem desmontar as capacidades institucionais construídas anteriormente.
Continuidade não significa manter todas as políticas inalteradas. Esses três sistemas revisam suas estratégias, corrigem problemas e respondem a novos desafios. O próprio PISA 2025 registra quedas de desempenho entre alguns dos países que permanecem nas primeiras posições. A diferença é que as mudanças são incorporadas a instituições que acumulam conhecimento e aprendem com a experiência. Em vez de reiniciar todo o sistema a cada nova reforma, esses países procuram preservar o que funciona e modificar o que precisa ser corrigido.
Essa é uma lição menos chamativa do que a adoção de um método estrangeiro, mas provavelmente mais importante. Antes de introduzir uma nova reforma, é necessário verificar como ela se relaciona com o currículo, as avaliações, a formação e o trabalho dos professores. Depois de implementá-la, é preciso oferecer apoio, acompanhar seus resultados e realizar ajustes com base em evidências. A continuidade mais produtiva não é aquela que impede mudanças. É aquela que preserva objetivos comuns enquanto permite corrigir os caminhos adotados para alcançá-los.
Aprender sem copiar
As classificações identificam os sistemas que alcançam os melhores resultados. A análise de suas políticas explica o que pode ser aprendido com eles: professores que continuam se aprimorando, ajuda disponível antes do fracasso e reformas que mantêm uma direção. É aí que se encontram as três lições.
Os rankings mostram quais sistemas educacionais alcançam os melhores resultados. A análise de suas políticas ajuda a compreender como esses resultados foram construídos: investir continuamente na preparação dos professores, oferecer apoio antes que as dificuldades se transformem em fracasso escolar e manter políticas coerentes por tempo suficiente para que sejam implementadas, avaliadas e aperfeiçoadas.
Essas lições não podem ser aplicadas igualmente em todos os países. Os recursos disponíveis, as instituições, as desigualdades e a cultura escolar variam de um contexto para outro. Por isso, a comparação internacional é mais útil quando ajuda a compreender como as políticas funcionam em conjunto, e não quando serve apenas para importar práticas isoladas. O bom desempenho dos sistemas que lideram o PISA não resulta de uma técnica única ou de uma solução rápida. Ele foi construído pela capacidade de transformar algumas prioridades educacionais em práticas consistentes, apoiadas por instituições e mantidas ao longo do tempo.
Artigo extraído do Observatório Profuturo: Las lecciones de los sistemas educativos que lideran PISA – ProFuturo

