A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou, nesta terça-feira (29/09), a edição 2026 do Education at a Glance, publicação de referência que reúne indicadores internacionalmente comparáveis sobre os sistemas educacionais de diferentes países. O relatório traz dados sobre acesso à educação, transição para o mundo do trabalho, financiamento e organização dos sistemas de ensino.
Neste ano, a publicação dedica atenção especial à escassez de docentes e aos desafios relacionados à atração e permanência desses profissionais. Além disso, também discute mudanças recentes no mundo do trabalho e os possíveis impactos da inteligência artificial sobre a demanda por profissionais.
Formação e disponibilidade docente
Um primeiro destaque do relatório diz respeito à escassez de profissionais qualificados, fenômeno que tem afetado diferentes países da OCDE e que também atinge os professores. Segundo a publicação, essa pressão sobre a oferta de docentes se manifesta de formas distintas entre os sistemas educacionais.
No Brasil, um dos sinais desse desafio é a presença de docentes que ainda não atendem a todos os requisitos formais necessários para serem considerados plenamente qualificados. Em 2024/25, 9,0% dos docentes brasileiros do Ensino Fundamental e Médio eram classificados dessa forma.
De acordo com a OCDE, essa condição não significa necessariamente ausência de formação docente. Dependendo do sistema educacional, pode incluir profissionais que possuem a formação acadêmica exigida, mas ainda não concluíram a certificação ou a formação pedagógica obrigatória, docentes em processo de qualificação ou, em alguns casos, profissionais que lecionam em áreas diferentes daquelas para as quais foram originalmente habilitados. Esse percentual é muito similar à média da OCDE (9,1%).
O relatório também destaca que a escassez de professores qualificados pode ser mais acentuada em determinadas regiões, escolas e áreas de conhecimento. Entre os 16 países e economias com dados disponíveis, 11 registraram escassez de docentes plenamente qualificados em Matemática e Ciências Naturais.
Vale mencionar que, nesse contexto, a OCDE reforça que tecnologias digitais e inteligência artificial podem contribuir para tornar o trabalho docente mais eficiente e reduzir a pressão sobre a oferta, diminuindo o tempo dedicado a tarefas administrativas, por exemplo.
É interessante observar que os dados divulgados também sugerem que há demanda por formação continuada do lado dos professores. Em média, 73% dos docentes dos países participantes realizaram ao menos uma atividade de desenvolvimento profissional nos últimos 12 meses, percentual superior ao observado entre outros trabalhadores com nível de escolaridade semelhante (63%). Ainda assim, 34% dos professores afirmaram que gostariam de ter participado de alguma formação, mas não conseguiram.
Os desafios evidenciados pelo relatório também reforçam a importância de políticas docentes estruturantes voltadas ao fortalecimento da profissão. Isso inclui o aprimoramento da formação inicial, com experiências de estágio conectadas aos desafios reais da prática docente; o aperfeiçoamento dos processos de seleção e ingresso na carreira; a ampliação das oportunidades de formação continuada; e a valorização profissional por meio de trajetórias consistentes de desenvolvimento ao longo de toda a carreira.
Também são relevantes estratégias de acompanhamento e apoio ao desenvolvimento profissional dos educadores, como observações de aula, devolutivas formativas e planos individuais de crescimento.
Em conjunto, essas ações contribuem para tornar a carreira docente mais atrativa, apoiar a permanência dos profissionais na rede e fortalecer a qualidade da educação.
Educação profissional, transição para o trabalho e o uso de IA
Outro destaque importante é o papel da educação profissional na transição para o trabalho. Entre jovens de 25 a 34 anos, a taxa de emprego alcança 83% entre aqueles cuja maior escolaridade corresponde à Educação Profissional de Nível Médio¹, em comparação com 73% entre os que concluíram o Ensino Médio regular (média dos países da OCDE). A própria Organização interpreta isso como reflexo de uma conexão mais direta da formação profissional com habilidades ocupacionais demandadas pelo mercado.
A maior associação entre formação profissional e inserção no mundo do trabalho observada pela OCDE também encontra paralelo em evidências nacionais. Estudo recente da Fundação Itaú e do Itaú Educação e Trabalho² acompanha a inserção de egressos no mercado formal por meio de um índice de formalidade, que varia de 0 a 1 e mede a proporção de meses do ano em que o egresso manteve vínculo formal de trabalho ativo. A partir desse indicador, o estudo encontra um valor médio de 0,48 entre os egressos da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), frente a 0,33 entre os que não cursaram a modalidade.
A vantagem também aparece quando se considera uma medida mais ampla da qualidade da inserção profissional. O Índice de Qualidade da Inserção (IQI) – que combina remuneração, estabilidade no emprego formal e características da ocupação relacionadas à sua complexidade e menor grau de rotinização – alcançou 0,62 entre os egressos da EPT, ante 0,52 entre os demais.
Ao articular formação escolar e qualificação profissional, ampliando as possibilidades de transição entre educação e trabalho, a EPT ocupa um lugar estratégico no enfrentamento da exclusão educacional e produtiva entre os jovens. A perspectiva comparada trazida pelo relatório da OCDE ajuda a dimensionar esse problema que ainda persiste no país.
Em 2024, 22% dos jovens brasileiros de 18 a 24 anos não estavam empregados nem participavam de educação ou formação, frente a uma média de 14% nos países da OCDE em 2025. Os dados também revelam desigualdades internas importantes no Brasil: entre as mulheres de 18 a 24 anos, 28% estavam nessa situação em 2024, ante 17% dos homens.
Experiências internacionais
Diante desse desafio, o relatório também chama atenção para o uso de novas tecnologias no acompanhamento das trajetórias educacionais e na prevenção de situações de afastamento da educação e do trabalho. Entre os países mencionados, destacam-se os casos da Finlândia e da Nova Zelândia, por sua relação direta com a educação profissional e com a transição dos jovens para o mundo do trabalho.
Na Finlândia, a aplicação está diretamente associada à educação profissional. O país desenvolve o piloto AI-HOKS (Artificial Intelligence-supported Personal Competence Development Plan), um plano individual de desenvolvimento de competências apoiado por inteligência artificial e direcionado a estudantes da educação profissional.
A experiência finlandesa ilustra um uso da tecnologia voltado à personalização e ao acompanhamento dos percursos formativos, em uma modalidade na qual as trajetórias dos estudantes podem combinar diferentes competências e experiências de aprendizagem.
Já a Nova Zelândia utiliza modelos preditivos para identificar jovens em risco de ficarem fora tanto do mundo do trabalho quanto da educação ou formação. Nesse caso, a tecnologia aparece como instrumento de identificação precoce de situações de vulnerabilidade, permitindo que o risco de desengajamento seja detectado antes de se consolidar.
Esses exemplos mostram como a inteligência artificial começa a ser incorporada aos próprios sistemas educacionais.
O papel da IA
Além disso, o relatório também aborda a IA por outra perspectiva: como parte das transformações que vêm alterando o mundo do trabalho e o conjunto de competências demandadas dos profissionais.
A OCDE destaca que a rápida adoção dessas tecnologias, combinada a outras mudanças econômicas e demográficas, reforça a necessidade de atualização contínua das competências ao longo da vida. Nesse contexto, ganham importância tanto a atualização de conhecimentos e habilidades já adquiridos (upskilling) quanto o desenvolvimento de novas capacidades diante das mudanças nas ocupações (reskilling).
Essa discussão dialoga diretamente com a nota técnica publicada recentemente pela Fundação Telefônica Vivo sobre IA, futuro do trabalho e EPT Tech.
A publicação mostra que as transformações tecnológicas vêm alterando o perfil de competências valorizadas pelo mundo do trabalho, ampliando a importância do pensamento crítico, da criatividade, da resolução de problemas, e, sobretudo, da capacidade de aprender continuamente. O estudo reforça, assim, a necessidade de seguir adquirindo e atualizando conhecimentos ao longo da trajetória profissional e avança ao apresentar recomendações para a Educação Profissional e Tecnológica, com destaque para metodologias que ampliem o protagonismo dos estudantes, avaliações voltadas à construção do conhecimento e uma maior aproximação entre escolas e setor produtivo.
Em conjunto, todas essas evidências sugerem que a discussão sobre educação profissional não se limita à preparação para ocupações específicas, mas envolve a construção de condições para que os jovens consigam acessar e se adaptar a um mundo do trabalho em transformação.
Em um contexto em que a inteligência artificial altera tanto as competências demandadas quanto as formas de ingresso nas carreiras, torna-se ainda mais relevante ampliar oportunidades de formação que articulem conhecimentos técnicos, competências digitais e experiências práticas de aprendizagem.

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¹ O conceito utilizado pela OCDE neste caso é vocational upper secondary or post-secondary non-tertiary attainment, que corresponde à conclusão de programas de formação profissional no nível do Ensino Médio ou em formações posteriores a ele, mas que ainda não integram o Ensino Superior (como a modalidade subsequente de oferta de EPT).
² Para onde vão os egressos da EPT? Empregabilidade e acesso ao ensino superior no Brasil. Disponível em: https://www.itaueducacaoetrabalho.org.br/acontece/itau-educacao-e-trabalho-apresenta-estudo-inedito-sobre-a-trajetoria-de-egressos-da-educacao-profissional-e-tecnologica.

