Com a rápida expansão da inteligência artificial na educação, muitos gestores e educadores ainda se perguntam por onde começar. A dúvida, muitas vezes, vem acompanhada da percepção de que será necessário criar novas disciplinas, elaborar currículos específicos ou aguardar novas orientações para que o tema chegue às salas de aula.
Na prática, porém, grande parte desse caminho já está prevista na BNCC Computação. As redes que avançaram na adaptação de seus currículos possuem os elementos necessários para iniciar esse trabalho desde já. Competências relacionadas à compreensão de algoritmos, ao uso de dados, à resolução de problemas, à cidadania digital e à análise crítica das tecnologias já fazem parte dos referenciais que orientam a Computação na Educação Básica.
Isso significa que a inteligência artificial não deve ser entendida como uma agenda paralela ou um conteúdo isolado. Ela representa um desdobramento natural da educação digital prevista pela BNCC Computação, que organiza as aprendizagens em torno dos eixos de Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital. São esses conhecimentos que permitem aos estudantes compreenderem como os sistemas inteligentes funcionam, analisarem seus impactos e utilizarem a tecnologia de forma crítica, criativa e responsável.
Essa é uma das principais mensagens da nota técnica “Educar na Era da Inteligência Artificial: Caminhos para a BNCC Computação”, da Fundação Telefônica Vivo. O documento defende que a integração da IA aos currículos deve partir das estruturas já existentes, fortalecendo referenciais e práticas pedagógicas que as redes vêm construindo a partir da implementação da BNCC Computação.
Como a BNCC Computação prepara estudantes para compreender a IA
A relação entre BNCC Computação e inteligência artificial se torna evidente quando observamos os três eixos que estruturam a Computação na Educação Básica.
O eixo Pensamento Computacional desenvolve competências relacionadas à identificação de padrões, à elaboração de estratégias para resolver problemas e à compreensão de processos automatizados. Essas aprendizagens ajudam estudantes a entender a lógica que sustenta algoritmos e sistemas inteligentes.
O eixo Mundo Digital contribui para a compreensão dos componentes e do funcionamento das tecnologias digitais, incluindo dados, dispositivos, redes e sistemas computacionais. É nesse campo que os estudantes desenvolvem conhecimentos fundamentais para entender como a inteligência artificial é alimentada, treinada e utilizada.
Já o eixo Cultura Digital amplia a reflexão sobre os impactos da tecnologia na sociedade. Temas como privacidade, proteção de dados, ética, segurança digital, participação cidadã e vieses algorítmicos fazem parte desse conjunto de aprendizagens.
Quando uma rede trabalha esses conteúdos, ela já está criando condições para que crianças e jovens compreendam a inteligência artificial. Mesmo que a sigla “IA” ainda não apareça explicitamente nas aulas, os fundamentos necessários para entendê-la já estão sendo construídos.
A educação para a IA começa muito antes do Ensino Médio
Um dos equívocos mais comuns é imaginar que o ensino de inteligência artificial deve começar apenas no Ensino Médio. Na prática, trata-se de uma aprendizagem construída de forma progressiva ao longo de toda a Educação Básica.
É na Educação Infantil que se constroem os fundamentos cognitivos e lógicos que sustentam essas aprendizagens. Noções de sequência, de causa e consequência e de agrupamento, trabalhadas por meio do brincar, preparam o terreno para a compreensão posterior de processos automatizados.
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, os estudantes podem desenvolver habilidades relacionadas ao reconhecimento de padrões, à categorização de informações, à identificação de regularidades e à construção de sequências lógicas. Essas experiências ajudam a formar a base do raciocínio necessário para compreender como funcionam os algoritmos.
Nos anos finais do Ensino Fundamental, o trabalho avança para a análise de dados, a compreensão de sistemas digitais e a discussão sobre como as tecnologias influenciam o cotidiano. Aos poucos, os estudantes ampliam sua capacidade de interpretar o funcionamento de sistemas automatizados e seu papel na vida em sociedade.
Esse percurso culmina no Ensino Médio, quando a BNCC Computação prevê explicitamente a habilidade EM13CO10, relacionada ao conhecimento dos fundamentos da inteligência artificial, à comparação entre inteligência humana e computacional e à análise de potencialidades, riscos e limites dessas tecnologias.
A presença dessa habilidade e de outras que dão suporte ao tema reforça que a IA não deve ser tratada como um tema isolado, mas como parte de uma trajetória formativa construída progressivamente ao longo de toda a Educação Básica.
Inteligência artificial também pode ser ensinada sem computadores
Outro aspecto importante é que trabalhar conceitos relacionados à inteligência artificial não depende necessariamente de laboratórios sofisticados ou acesso permanente a dispositivos digitais.
Diversos conceitos podem ser explorados por meio de atividades desplugadas, o que amplia as possibilidades de implementação em diferentes contextos educacionais e favorece a equidade.
Na Educação Infantil, brincadeiras baseadas em comandos e regras ajudam as crianças a compreenderem relações de causa e consequência presentes em sistemas automatizados.
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, atividades de classificação e agrupamento de objetos permitem explorar conceitos semelhantes aos utilizados em sistemas de reconhecimento de padrões.
Já nos anos finais, fluxogramas, jogos e dinâmicas de tomada de decisão contribuem para a compreensão de algoritmos e automação, mesmo sem o uso de equipamentos tecnológicos.
Essas abordagens demonstram que a educação para a inteligência artificial pode começar antes mesmo do contato com ferramentas específicas, ampliando oportunidades de aprendizagem em diferentes realidades escolares.
Formação docente é o principal desafio para integrar IA à educação
Embora a inteligência artificial esteja no centro do debate educacional, os principais desafios enfrentados pelas redes não costumam estar relacionados às ferramentas.
As dúvidas mais frequentes envolvem a formação dos professores, o papel da docência em um contexto de expansão da IA e a construção de práticas pedagógicas alinhadas aos objetivos de aprendizagem.
Dados recentes ajudam a compreender esse cenário. Segundo a pesquisa TIC Educação, apenas 31% dos professores que participaram de formações sobre tecnologias digitais afirmam ter realizado cursos específicos sobre inteligência artificial aplicada à educação. Já a pesquisa TALIS 2024 aponta que 64% dos docentes brasileiros consideram não possuir as habilidades necessárias para ensinar com apoio dessas tecnologias.
Os números reforçam uma conclusão importante: a formação continuada é um elemento decisivo para que a inteligência artificial seja integrada às práticas educacionais de forma crítica, ética e alinhada ao currículo.
Para a Fundação Telefônica Vivo, a formação docente é o eixo central de qualquer transformação curricular significativa, incluindo a necessária abordagem consciente da IA nas escolas. Por isso, reuniu na nota técnica Recomendações para Formação Docente em Inteligência Artificial na Educação Básica evidências e orientações para apoiar redes públicas e instituições formadoras nessa tarefa.
A nota técnica propõe um ciclo de implementação em três etapas, que pode orientar as redes desde já: um diagnóstico inicial, que mapeia repertórios docentes e as condições materiais reais da escola, como infraestrutura, conectividade e equipamentos disponíveis; a construção de ofertas formativas contextualizadas a partir desse retrato; e o monitoramento contínuo, com instrumentos como rubricas de observação de aula, portfólios e autoavaliações. Partir das condições concretas de cada rede é o que evita propostas formativas descoladas da realidade das escolas.
O desafio não é a tecnologia, mas a formação de cidadãos
A inteligência artificial já está presente na vida de crianças e jovens. O desafio das escolas não é decidir se irão ou não conviver com essa realidade, mas preparar os estudantes para compreendê-la.
Nesse contexto, implementar a BNCC Computação significa criar condições para que os estudantes desenvolvam conhecimentos técnicos, pensamento crítico e responsabilidade no uso das tecnologias. Significa também garantir que a inteligência artificial seja abordada não apenas como ferramenta, mas como objeto de conhecimento e tema de reflexão.
Por isso, a principal mensagem para gestores e educadores é clara: não é preciso esperar novas disciplinas ou orientações para começar. A base curricular necessária para trabalhar inteligência artificial na Educação Básica já existe. O desafio agora é avançar da atualização curricular para a implementação efetiva, transformando diretrizes em práticas pedagógicas capazes de preparar estudantes para compreender, questionar e utilizar essas tecnologias de forma crítica, ética e responsável.
Ensinar sobre e com IA na prática
Considerando este diálogo entre a BNCC Computação e a tarefa de ensinar sobre e com inteligência artificial, a Fundação Telefônica Vivo tem desenvolvido formações voltadas a gestores e educadores das redes públicas para pensar como traduzir diretrizes em práticas.
Para o trabalho com os estudantes, uma das referências utilizadas é uma estrutura com cinco dimensões que dialogam diretamente com os eixos da BNCC Computação e podem ser desenvolvidas de forma gradual ao longo da trajetória escolar:
• Letramento em IA: aborda o que é IA e como influencia o cotidiano;
• O papel dos dados: como as informações são coletadas e utilizadas pelos sistemas;
• Como a IA pensa: explora algoritmos e reconhecimento de padrões;
• IA em sociedade: discussões sobre ética, vieses e privacidade;
• Criar com IA: desenvolvimento de projetos e soluções para problemas reais com apoio da inteligência artificial.
Em todas essas dimensões, os aspectos éticos ocupam papel central. Afinal, formar cidadãos para uma sociedade cada vez mais digital exige mais do que o domínio de ferramentas tecnológicas. Significa desenvolver a capacidade de compreender como a inteligência artificial funciona, reconhecer seus limites e vieses, avaliar criticamente seus impactos e utilizá-la de forma ética, responsável e alinhada aos princípios da cidadania digital.

