Mensagens que chegam pelo WhatsApp, vídeos virais nas redes sociais, imagens manipuladas e conteúdos produzidos por inteligência artificial fazem parte da rotina de crianças, adolescentes e adultos. Em meio a esse volume crescente de informações, identificar o que é verdadeiro, enganoso ou falso se tornou uma habilidade tão importante quanto ler, escrever e interpretar textos.
Esse fenômeno integra o que especialistas chamam de desordem informacional, conceito que descreve a circulação de conteúdos de diferentes naturezas e níveis de confiabilidade, muitas vezes compartilhados sem que sua origem, contexto ou intenção sejam devidamente avaliados.
Os números ajudam a dimensionar esse desafio. Dados da pesquisa Painel TIC – Integridade da Informação, conduzida pelo Cetic.br e divulgada em abril de 2026, mostram que 41% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam ter contato diário com deepfakes, conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial para parecerem reais. O levantamento também aponta que os mais jovens estão entre os grupos com maior percepção desse tipo de conteúdo, evidenciando a importância de fortalecer habilidades relacionadas à análise crítica da informação e ao letramento digital.
Para crianças e adolescentes, a situação pode ser ainda mais desafiadora. Embora estejam familiarizados com as tecnologias digitais, isso não significa que possuam, automaticamente, repertório para avaliar a credibilidade de conteúdos, interpretar contextos ou identificar tentativas de manipulação.
Em períodos de grande repercussão pública, como eleições, eventos climáticos extremos ou crises sanitárias, a circulação de conteúdos enganosos tende a se intensificar. Nesse contexto, a escola tem um papel fundamental: apoiar estudantes no desenvolvimento de competências que permitam compreender, questionar e utilizar informações de forma consciente, ética e responsável.
O que é educação midiática e por que ela é essencial na formação cidadã
A capacidade de questionar conteúdos, avaliar evidências, identificar desinformação e fake news, e compreender como diferentes mídias produzem e difundem informações faz parte do que se convencionou chamar de educação midiática.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), trata-se de um conjunto de competências que permite acessar, analisar, avaliar, criar e participar de conteúdos midiáticos de forma crítica, ética e responsável.
Na prática, isso significa saber identificar fontes confiáveis, compreender os interesses que influenciam a produção e a circulação de conteúdos, interpretar dados e evidências, reconhecer possíveis manipulações e refletir sobre o impacto das próprias atitudes nos ambientes digitais.
Essas competências fazem parte de um conceito mais amplo: a cidadania digital. Além do combate à desinformação, ela envolve o uso ético das tecnologias, a proteção de dados pessoais, a convivência respeitosa nas redes e a participação consciente em espaços digitais.
“De modo geral, os jovens possuem facilidade para identificar conteúdos abertamente fabricados ou irrealistas, mas ainda carecem de um senso crítico mais aprofundado”, afirma Rafael Kapa, coordenador de Educação da Agência Lupa.
Como a BNCC Computação fortalece esse trabalho
A boa notícia é que gestores e professores brasileiros já contam com diretrizes, referenciais e diversos recursos que guiam e dão apoio ao trabalho de desenvolver as competências digitais necessárias para lidar com este novo cenário informativo.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já prevê objetivos voltados à análise crítica de textos midiáticos, mas é a BNCC Computação quem traça as diretrizes para a inclusão da educação digital e midiática como elemento curricular nas redes de ensino.
O conjunto dessas orientações busca preparar os estudantes para atuar no mundo digital de forma crítica, ética e cidadã. Entre seus eixos estruturantes, a Cultura Digital se destaca por promover competências essenciais para analisar informações, avaliar evidências e reconhecer fake news e outras formas de desinformação que circulam nas redes.
A implementação da BNCC Computação é obrigatória a partir deste ano, o que reforça a importância de preparar os jovens para lidar com o volume massivo de informações não confiáveis a que estão expostos diariamente.
A Estratégia Brasileira de Educação Midiática (EBEM), lançada em 2023, e a Política Nacional de Educação Digital (PNED), também de 2023, são outros marcos importantes que visam promover habilidades para a compreensão, análise, engajamento e produção crítica no ambiente informacional.
A urgência de fortalecer a educação midiática em todas as disciplinas
Colocar estas diretrizes e orientações em prática é tarefa que se mostra ainda mais relevante quando se percebe que as estratégias de quem produz e dissemina desinformação são aprimoradas a cada mudança tecnológica.
Segundo Rafael Kapa, coordenador de Educação da Agência Lupa, atualmente é raro que uma desinformação seja totalmente falsa. “Em geral, ela parte de algo real que é distorcido por meio de cortes de vídeo fora de contexto, uso de inteligência artificial e combinação de informações verdadeiras para construir narrativas enganosas”, explica.
Para ele, o enfrentamento desse cenário não pode ficar restrito a uma única área do conhecimento. “O combate à desinformação deve ser um compromisso de todas as disciplinas. As Ciências Humanas contribuem com a análise crítica das fontes, as Ciências da Natureza com a verificação de evidências científicas e a Matemática com a interpretação e análise de dados”, afirma.
Kapa também destaca a importância de aproximar o tema do universo dos estudantes. Uma estratégia é utilizar conteúdos produzidos por divulgadores científicos e iniciativas de checagem que atuam em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube. Com linguagem acessível e alinhada aos formatos consumidos pelos jovens, esses criadores tornam conceitos complexos mais compreensíveis sem abrir mão do rigor e do compromisso com os dados.
Embora esse tipo de conteúdo ainda ocupe um espaço reduzido nas redes sociais, seu fortalecimento é fundamental. Afinal, ele oferece aos estudantes uma espécie de “vacina” contra a desinformação, utilizando justamente os canais e linguagens que fazem parte do cotidiano dessa geração.
Estratégias práticas para a sala de aula
• Investigar mídias: incentivar a pesquisa e checagem de mensagens duvidosas, aproximando técnicas jornalísticas da pesquisa escolar;
• Produzir notícias: fazer com que os alunos conheçam o processo jornalístico para valorizar a informação de qualidade e identificar conteúdos falsos;
• Avaliar memes: utilizar memes para promover leitura crítica, protagonismo e debate sobre ética, intenção, autoria e contexto;
• Analisar filmes, séries e TV: exercitar o olhar analítico dos estudantes sobre autoria, propósito e aspectos técnicos das produções midiáticas;
• Atentar à linguagem e emoção: orientar os estudantes a avaliar a fonte de mensagens que geram forte emoção ou pedem ação imediata, especialmente as que confirmam crenças pessoais.
Combatendo a desinformação na Amazônia
Essas estratégias ganham vida em experiências como a da professora Marcela Castro, em Santa Izabel do Pará, na Grande Belém. Na Escola Estadual Antônio Lemos, Marcela desenvolve um projeto de educação midiática com alunos do Ensino Médio.
Em parceria com o portal Amazônia Vox, estudantes revisam textos jornalísticos. “Cheguei na sala de aula com o texto impresso, já que na minha escola à época não havia computadores. Os alunos liam e marcavam o que não compreendiam”, conta.
Essa abordagem simples mostrou-se eficaz para “treinar o olhar crítico” dos jovens.
O projeto estimula os alunos a questionar, sugerir mudanças e refletir sobre temas que impactam suas vidas. “Eles se viram como pessoas importantes, cuja opinião é significativa”, diz a professora. A atividade evoluiu para debates, pesquisas e checagem, levando-os a perceber que “nenhum conteúdo é inocente, que tudo tem alcance e consequência”.
Os resultados incluem desenvolvimento de leitura, escrita, vocabulário, repertório e autoestima. Um texto revisado integrou uma reportagem premiada, resultando na doação de 30 computadores para a escola. Marcela enfatiza que “de nada adianta aprender escrever uma redação somente para uma prova se não houver relação daquilo que é ensinado com a vida real.”
“Quando os alunos entenderam que a informação não brota de forma asséptica num chat de WhatsApp, fiquei muito feliz”, conta a professora Marcela Castro.
A experiência de Marcela e tantos outros educadores demonstra que a educação midiática não exige recursos sofisticados, mas um movimento que transforme estudantes de meros consumidores de conteúdo em participantes ativos e críticos do mundo digital.
Conheça recursos didáticos e oportunidades de formação em educação midiática
Curso“Redes Sociais para o Uso Consciente e Criativo”, da plataforma Escolas Conectadas
Com 20 horas e certificado MEC, explora impactos sociais, cognitivos e emocionais das redes, e apresenta estratégias para o uso consciente e crítico na Educação Básica. Discute cidadania digital, desinformação, cyberbullying, saúde mental e potencialidades pedagógicas, alinhado à BNCC, à BNCC de Computação e à LGPD.
Lupeiros, material didático desenvolvido pela Agência Lupa
Traz orientações para professores, textos de apoio, histórias em quadrinhos alinhadas à BNCC, podcast, jogos pedagógicos e quiz digital para o Ensino Médio.
Publicações do MEC
O Ministério da Educação desenvolveu o “Referencial de Saberes Digitais Docentes” e o guia “Educação Digital e Midiática: Como Elaborar e Implementar o Currículo nas Escolas” para guiar gestores e professores na implementação de estratégias de ensino nesta área.
“Autoavaliação de Competências Digitais de Professores”
A ferramenta, desenvolvida pela Fundação Telefônica Vivo em parceria com o CIEB, ajuda a identificar rapidamente o nível de domínio das tecnologias digitais por professores e escolas, permitindo planejar ações de formação.

