Informe Social 2025: inclusão digital como chave para a equidade na educação pública.

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31.07.2026
Tempo de leitura: 7 minutos

Como tecnologia, IA e formação docente fortalecem a recomposição da aprendizagem

Plataformas adaptativas, análise de dados e inteligência artificial ajudam professores e gestores a identificar lacunas de aprendizagem e personalizar estratégias para apoiar estudantes

Imagem ilustra a matéria que exemplifica o termo recomposição da aprendizagem

Os efeitos da pandemia sobre a educação ainda fazem parte da realidade de milhões de estudantes brasileiros. Dados da Pnad Contínua 2025 mostram que o país segue enfrentando desafios relacionados à defasagem escolar, reforçando a necessidade de estratégias capazes de garantir que crianças e jovens aprendam o que é esperado em cada etapa da educação básica.

Mais de um milhão de estudantes de 6 a 14 anos não estavam matriculados na série adequada para a idade em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Ensino Médio, apenas 80,6% dos jovens entre 15 e 17 anos cursavam a etapa escolar esperada, índice abaixo da meta prevista pelo Plano Nacional de Educação.

Diante desse cenário, a recomposição da aprendizagem passou a ocupar lugar central nas políticas educacionais e nas estratégias adotadas por escolas e redes de ensino. Mais do que recuperar conteúdos não aprendidos, o desafio envolve identificar lacunas, compreender diferentes ritmos de aprendizagem e criar condições para que todos os estudantes avancem de forma consistente ao longo da trajetória escolar.

Nesse processo, tecnologia, dados e inteligência artificial vêm ampliando as possibilidades de atuação de professores, gestores e redes de ensino.

 

Personalização para atender diferentes necessidades

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos professores é lidar com turmas compostas por estudantes que apresentam níveis muito diferentes de aprendizagem. Enquanto alguns dominam determinados conteúdos, outros ainda precisam desenvolver habilidades consideradas essenciais.

Segundo Bernardo Baião, coordenador de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, a tecnologia pode ajudar a enfrentar esse desafio ao tornar possível uma aprendizagem mais personalizada. “A personalização é, sem dúvida, um aliado. Talvez seja o grande objetivo da educação neste momento”, afirma.

As plataformas de aprendizagem adaptativa funcionam justamente com esse propósito. A partir do desempenho de cada estudante, elas oferecem atividades adequadas às suas necessidades e permitem que cada aluno avance em seu próprio ritmo. Enquanto aqueles que já dominam um conteúdo podem seguir para desafios mais complexos, estudantes que apresentam dificuldades recebem apoio direcionado às habilidades que precisam fortalecer.

Além de favorecer experiências mais personalizadas, essas plataformas oferecem aos professores uma visão mais ampla do desenvolvimento da turma, permitindo identificar rapidamente quais conteúdos demandam maior atenção.

No entanto, especialistas destacam que os resultados dependem da capacidade dos educadores de interpretar essas informações e transformá-las em estratégias pedagógicas efetivas, reforçando a importância da formação continuada para o uso das tecnologias educacionais.

 

Dados que ajudam a agir no momento certo

Antes de definir estratégias para recompor aprendizagens, é preciso entender onde estão as dificuldades dos estudantes. Por isso, a avaliação e o monitoramento contínuo dos resultados são etapas fundamentais desse processo.

Nesse aspecto, ferramentas digitais têm contribuído para tornar o acompanhamento mais ágil e preciso. Relatórios automatizados e painéis de monitoramento permitem que professores acompanhem o desempenho da turma em tempo real, identificando tendências e possíveis dificuldades antes que elas se tornem obstáculos maiores.

“Quando o resultado de uma prova demora meses para chegar, a chance de intervir enquanto o conteúdo ainda faz sentido para a turma diminui bastante. Casar avaliação e devolutiva rápida permite que o professor ajuste sua prática pedagógica sem esperar o próximo semestre ou ano letivo”, explica Bernardo Baião.

Imagine, por exemplo, uma escola que identifica, por meio de avaliações digitais, que boa parte dos estudantes do 6º ano apresenta dificuldades em conteúdos relacionados a frações. Com acesso imediato aos resultados, os professores podem reorganizar atividades, propor estratégias específicas e reforçar habilidades essenciais antes que as lacunas se ampliem.

Para gestores e redes de ensino, os dados também apoiam a tomada de decisões em escala maior, ajudando a definir prioridades pedagógicas, direcionar recursos e planejar programas de formação alinhados aos desafios observados nas escolas.

 

Inteligência artificial amplia as possibilidades de análise

À medida que aumenta a disponibilidade de dados educacionais, cresce também o potencial de uso da inteligência artificial para apoiar gestores e professores.

Ferramentas baseadas em IA podem contribuir para identificar padrões de desempenho, organizar grandes volumes de informações e destacar habilidades que demandam maior atenção das equipes pedagógicas.

Embora essas tecnologias ampliem a capacidade de análise das redes de ensino, especialistas destacam que elas não substituem o papel dos educadores. A interpretação dos dados e as decisões pedagógicas continuam dependendo do conhecimento e da experiência dos professores, que compreendem as particularidades de seus estudantes e contextos escolares.

Por isso, a tecnologia gera mais impacto quando é utilizada como apoio à prática docente e não como solução isolada para os desafios da educação.

 

Formação docente transforma tecnologia em aprendizagem

Se os recursos tecnológicos oferecem novas possibilidades para a educação, são os professores que transformam essas possibilidades em aprendizagem. Por isso, a formação docente é considerada um dos elementos centrais para o sucesso das estratégias de recomposição da aprendizagem.

Utilizar plataformas adaptativas, interpretar dados educacionais e incorporar ferramentas de inteligência artificial ao planejamento pedagógico exige conhecimentos que vão além do domínio técnico. É necessário compreender como essas tecnologias podem contribuir para os objetivos de aprendizagem previstos no currículo e para o desenvolvimento integral dos estudantes.

Nesse contexto, a implementação da BNCC Computação representa um avanço importante para consolidar uma cultura digital mais estruturada nas escolas brasileiras.

Ao promover competências relacionadas à cultura digital, ao pensamento computacional e ao mundo digital, a política ajuda estudantes a compreenderem o funcionamento das tecnologias que utilizam diariamente. Ao mesmo tempo, estimula escolas e redes de ensino a fortalecerem a formação dos educadores para integrar esses recursos de forma crítica, criativa e responsável.

Mais do que ensinar sobre tecnologia, a proposta contribui para criar ambientes educacionais preparados para utilizar ferramentas digitais de maneira intencional, alinhada aos desafios contemporâneos da aprendizagem.

 

Um compromisso de toda a rede

Embora os professores desempenhem papel central nesse processo, a recomposição da aprendizagem não depende apenas do trabalho realizado em sala de aula.

O desafio exige a atuação coordenada de gestores escolares, secretarias de educação, famílias e políticas públicas capazes de garantir apoio contínuo às escolas.

Com esse objetivo, o Ministério da Educação lançou, em 2024, o Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens, iniciativa que orienta estados e municípios em temas como currículo, avaliação, formação docente e produção de materiais pedagógicos.

Para Bernardo Baião, o desafio deve ser encarado como uma agenda permanente da educação brasileira e não apenas como uma resposta aos impactos da pandemia.

Mais do que uma resposta às perdas de aprendizagem, a recomposição representa uma oportunidade de transformar a educação. Ao combinar inovação, uso estratégico de dados e fortalecimento das competências docentes, escolas e redes de ensino podem criar experiências de aprendizagem mais inclusivas, personalizadas e capazes de garantir que cada estudante desenvolva plenamente seu potencial. Afinal, a tecnologia gera mais impacto quando está a serviço de quem faz a educação acontecer todos os dias: os professores.

Recomposição, reforço, recuperação: entenda a diferença

• Recomposição da aprendizagem: é um processo contínuo, realizado ao longo do ano, com práticas pedagógicas voltadas a recolocar o estudante no nível de aprendizagem esperado para sua série, podendo envolver um grupo pequeno de alunos ou a turma inteira.

• Reforço escolar: tem caráter pontual, é uma intervenção de curto prazo, como as recuperações parciais ou finais aplicadas ao fim de um semestre.

• Recuperação: pressupõe que o estudante perdeu um conteúdo específico por causa de um evento pontual e precisa retomá-lo.


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