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23.07.2021
Tempo de leitura: 6 minutos

Comunidade escolar constrói laboratório de ciências com a venda de tampinhas plásticas

A ação comunitária uniu sustentabilidade e voluntariado para transformar a infraestrutura de uma escola pública na zona rural do Rio Grande do Sul

Imagem do laboratório escolar vazio

O sonho que deu certo no interior de São Lourenço do Sul (RS) mostrou que a integração com a comunidade escolar pode transformar não apenas as práticas pedagógicas, mas também a infraestrutura das escolas públicas. Com a venda de tampinhas plásticas para reciclagem, a Escola Municipal Francisco Frömming construiu um laboratório de ciências com o valor arrecadado por uma campanha que envolveu eventos, rifas, vaquinha virtual e a movimentação dos voluntários nas redes sociais.

A iniciativa surgiu a partir de uma conversa entre a equipe pedagógica durante as férias escolares, no início de 2019. Uma das coordenadoras chamou atenção para a vista panorâmica proporcionada pela localização do prédio, instalado no alto da zona rural do município. A escola, que já vinha desenvolvendo projetos de pesquisa com os alunos, poderia se beneficiar de um laboratório que ampliasse os estudos sobre a comunidade local.

A princípio, a ideia pareceu distante da realidade. Foi então que Sabrina Silva, moradora do distrito, enxergou a possibilidade sob uma perspectiva diferente. Embora não faça parte da equipe pedagógica, a empresária formada em História compartilha o mesmo amor pela educação e sempre contribui com os projetos desenvolvidos pela escola.

“Quando a ação ultrapassa os muros, a gente entende que lugar de aprender não se restringe à escola. Ter voluntários que não necessariamente fazem parte do corpo docente, ajuda a valorizar o trabalho dos profissionais da educação”, comenta a voluntária, que levou a proposta até empresas privadas locais em busca de parcerias.

A mobilização só foi possível pois contou com a participação ativa de estudantes, educadores, familiares e da comunidade escolar como um todo. A Associação de Pais e Mestres ficou responsável pela organização de dinâmicas de doações digitais e presenciais. Antes da pandemia, a escola promoveu um evento que arrecadou 30 mil reais e foi criada uma vaquinha virtual e uma ampla frente de divulgação nas redes sociais, além da venda das tampinhas. Ao todo, foram 100 mil reais arrecadados e utilizados para construir e equipar o laboratório, que ficou pronto no início de 2020.

Expectativa pelo aprendizado 

Embora ainda não tenha sido inaugurado oficialmente, em decorrência do fechamento das escolas por causa da pandemia, o espaço já ganhou uma atmosfera de expectativa que envolve os cerca de 300 estudantes atendidos pela Escola Municipal Francisco Frömming, bem como suas famílias.

“Desde a Educação Infantil até o nono ano do Ensino Fundamental, os estudantes tiveram a oportunidade de não somente recolher as tampinhas, mas trabalhar dentro do currículo conhecimentos relacionados à campanha, como coleta de lixo, preservação do meio ambiente, porcentagens e metas de arrecadação, entre outras temáticas interdisciplinares”, acrescenta a diretora Cátia Ribeiro.

Segundo a diretora Cátia Ribeiro, mesmo durante a pandemia, trabalhar por projetos foi o que permitiu a manutenção dos resultados de aprendizagem dos estudantes. Em uma avaliação diagnóstica municipal promovida pela Editora Moderna em junho de 2021, a escola ficou em 1º lugar no ensino de Matemática e em 3º no de Língua Portuguesa.

Para ajudá-los a desenvolver habilidades e competências como pensamento crítico e científico, o laboratório de ciências foi equipado com estufa, simuladores de órgãos e esqueletos em tamanho real, espaço amplo com vista panorâmica e um microscópio elétrico, que projeta a imagem do objeto estudado para a turma toda acompanhar os processos.

A pedagoga conta que as famílias, em grande parte descendentes de uma comunidade formada por alemães pomeranos, se preocupam com o desempenho e o resultado da instituição, contribuindo ativamente com os projetos. “A escola cresce muito com essa colaboração, porque permite que a comunidade faça parte das soluções e apoie a trajetória escolar das crianças”, comenta.

Ultrapassando os muros da escola 

O laboratório de ciências não foi o único espaço a ser construído pela comunidade escolar. Antes dele, em 2018, a biblioteca já tinha sido revitalizada com doações de voluntários e preenchida com títulos novos. Este ano será a vez da sala de educação física, que está sendo repaginada também a partir da venda das tampinhas plásticas.

“Esses espaços representam um ambiente de criatividade e autonomia que incentivam nossas crianças a crescerem conectadas com a sociedade. A própria forma que escolhemos para a ação reflete isso; o lixo deixa de ser descartado de forma incorreta e o dinheiro que entra retorna para a economia local”, aponta a voluntária Sabrina Silva.

Uma vez fora  dos muros da escola, a iniciativa da Escola Municipal Francisco Frömming tornou-se conhecida na região de São Lourenço do Sul, que conta com outros nove polos escolares. A gestora Cátia Ribeiro chama a atenção para o poder de conexão que se desenvolve a partir de uma simples campanha solidária.

“Fomos contatados por outras escolas que queriam saber como foi o processo de construção dos nossos espaços. Ações voluntárias como essa são importantes, inclusive, para estimular redes a construírem soluções coletivamente”, conclui.

O ambiente escolar da Escola Municipal Francisco Frömming é organizado para estimular a apropriação dos espaços com ferramentas próprias para o desenvolvimento de  projetos específicos. Cada sala de aula é adaptada para uma área do conhecimento, fazendo com que os estudantes e educadores se desloquem de acordo com as necessidades das atividades.


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