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04.02.2019
Tempo de leitura: 4 minutos

Game brasileiro apresenta lendas de povo indígena da Amazônia

Idealizado por um antropólogo, o jogo foi desenvolvido com a participação do povo Kaxinawá e está disponível gratuitamente para PC

“Para ser uma pessoa verdadeira você tem que aprender os conhecimentos do Yuxibu [os espíritos encantados]. Eu posso te guiar para histórias nas quais esses conhecimentos estão guardados”. Assim o Pajé dá início ao Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia, um game brasileiro que coloca o jogador em contato com as lendas e memórias do povo indígena Kaxinawá, maior população nativa do Estado do Acre.

Os Kaxinawás ou Huni Kuin residem majoritariamente no Brasil, em 12 terras indígenas e em território urbano. São a maior população indígena no Estado do Acre, com cerca de 12 mil habitantes. Outra parte menor, de 2.500 habitantes, vive no Peru.

Criado para PC, o jogo 2D está disponível gratuitamente para download, é narrado no idioma hatxã kuĩ e legendado em português, inglês, espanhol e, claro, na língua nativa do povo. São retratadas cinco histórias antigas, nas quais o jogador encarna um jovem indígena que deve desbravar a floresta e enfrentar desafios para atingir objetivos.

O game foi idealizado pelo antropólogo e game designer Guilherme Pinho Meneses, a partir de alguns encontros com os Kaxinawá que ocorreram na Universidade de São Paulo (USP), onde Guilherme estuda. “Os jogos eletrônicos são ferramentas poderosas para disseminação de conteúdo. A indústria de game é superforte, mas dominada por empresas americanas, europeias e japonesas. Por que não desenvolver um jogo que promovesse o intercâmbio com a cultura indígena brasileira?”.

Trabalho em equipe

Mais do que um jogo inspirado em indígenas, Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia foi criado junto com os Kaxinawá (ou Huni Kuin, como eles se denominam). Assim, Guilherme e uma pequena equipe viajou para o Acre, nas terras indígenas Kaxinawá no Alto Rio Jordão, Baixo Rio Jordão e Seringal Independência. Em parceria com a comunidade, o grupo realizou diversas oficinas.

“Durante as oficinas, houve participação direta dos Huni Kuin na elaboração do roteiro, na escolha e na narração das histórias, na gravação de músicas e captação de efeitos sonoros, na tradução para a língua indígena e na autoria dos desenhos, todos inseridos no jogo”, explica Guilherme.

A partir de uma demanda dos próprios jovens das comunidades indígenas, a equipe de Guilherme, de São Paulo, também ministrou oficinas de audiovisual, que colocou os participantes em contanto com etapas de filmagem, elaboração de roteiro e edição. No site do jogo é possível ver o material produzido pela aldeia a partir disso. São pequenos vídeos que exibem o cotidiano e elementos da cultura desse povo, como as pinturas com jenipapo e urucum, as técnicas medicinais e a pescaria com timbó.

Quando a tecnologia adentra a floresta

Na maioria das aldeias Kaxinawá não há energia solar e objetos como computadores, câmeras fotográficas e celulares são raros. Guilherme relata que, apesar disso, há muito interesse das comunidades na inclusão digital. Em 2015, a FUNAI e o Ministério da Cultura instalaram ponto de internet via satélite em três das 32 aldeias da região.

“Durante a experiência de campo, notamos rapidamente um fascínio dos Huni Kuin por tecnologia. Em muitos casos, ouvimos a seguinte expressão: ‘Nós somos donos da ciência. Vocês, nawá (brancos), são donos da tecnologia”, descreve Guilherme, em artigo que detalha a vivência. Ele enfatiza que as alianças que se constroem entre os povos abre caminho para trocas de conhecimento entre a ciência da floresta e as tecnologias dos brancos.

Como os Huni Kuin foram coautores do jogo, foi reservada uma parte do dinheiro disponível para a criação do game para atender a uma necessidade da aldeia: ter acesso à energia. Assim, foram feitas a manutenção e instalação de sistemas de energia solar em nove aldeias, iluminando cerca de 100 casas, criando pequenos pontos de cultura e restaurando alguns já existentes na região.

“Os Huni Kuin são contra uma visão de que eles estão isolados”, ressalta Guilherme. “Eles são povos que fazem parte do nosso país e que querem disseminar o conhecimento deles, isso passa pela tecnologia, que ajuda esse saber a estar vivo. Para eles, esse ‘estar vivo’ depende também de nós, que estamos fora das aldeias”.


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