Nota técnica "Educar na era da Inteligência Artificial: Caminhos para a BNCC Computação"

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06.04.2026
Tempo de leitura: 7 minutos

IA na educação: como a inteligência artificial pode se tornar aliada da aprendizagem

Relatório da OCDE reforça que o uso pedagógico intencional da IA é essencial para fortalecer a aprendizagem e evitar que a tecnologia se torne apenas um atalho para respostas prontas

Imagem ilustra a matéria que exemplifica o termo IA generativa

A inteligência artificial generativa está na sala de aula, com ou sem a mediação do professor. Em escolas públicas de grandes centros urbanos ou de pequenas cidades do interior, estudantes acessam ferramentas como ChatGPT ou Gemini muitas vezes sem orientação pedagógica e sem integração ao processo de aprendizagem.

Esse cenário reforça um desafio central para a educação contemporânea: como garantir que o uso da tecnologia contribua, de fato, para o desenvolvimento de competências, a aprendizagem significativa e a redução das desigualdades educacionais e não apenas para respostas rápidas e superficiais.

É a partir dessa preocupação que o relatório OECD Digital Education Outlook 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), analisa o uso da inteligência artificial generativa na educação ao redor do mundo e destaca caminhos possíveis para sua adoção responsável e pedagógica.

O documento é extenso e técnico, mas sua mensagem central é clara: a inteligência artificial generativa pode ser uma aliada poderosa da aprendizagem quando utilizada com intencionalidade pedagógica, planejamento e formação docente. Sem isso, corre o risco de se tornar apenas um atalho para respostas prontas, que pouco contribuem para a construção do conhecimento.

O relatório se debruça sobre estudos e iniciativas de diversos países com foco específico na inteligência artificial generativa, uma subcategoria mais recente no campo das inteligências artificiais.

De maneira geral, as IAs são sistemas computacionais capazes de analisar grandes volumes de dados, identificar padrões e, a partir disso, apoiar decisões ou realizar previsões. As inteligências artificiais generativas, por sua vez, representam um avanço nesse campo: além de analisar informações, elas são capazes de produzir conteúdos originais, criando textos, imagens, códigos, músicas e outros materiais inéditos.

Ferramentas como ChatGPT, Gemini ou DeepSeek exemplificam esse potencial ao gerar diferentes tipos de conteúdo a partir de comandos simples do usuário, conhecidos como prompts. Essa capacidade de responder em linguagem natural, de forma fluida, coerente e convincente, é o que tem impulsionado a rápida adoção da IA generativa, especialmente entre estudantes e professores, nos últimos dois anos.

 

A armadilha da IA como ‘cola digital’ – e como fugir dela

Com essa distinção em mente, o relatório da OCDE mergulha fundo em uma questão que está no centro dos debates educacionais: usar IA generativa ajuda ou atrapalha o aprendizado? A resposta é: depende, sobretudo, de como a ferramenta é usada.

Um estudo citado no documento, conduzido na Turquia, ilustra bem o problema. Estudantes com acesso ao ChatGPT melhoraram seu desempenho em tarefas de forma significativa — 48% de melhora com a interface padrão, e até 127% quando usavam uma versão especialmente projetada para apoiar o aprendizado. Os números parecem animadores. Mas quando o acesso à IA foi removido, esses mesmos estudantes apresentaram desempenho 17% pior do que antes. A conclusão é que a IA havia resolvido as tarefas por eles, não com eles.

Este uso da IA como uma máquina de respostas prontas é equivalente à popular “cola”: o resultado até pode ser alcançado, mas o conhecimento não é construído. No relatório, o risco gerado por esta prática, quando a tecnologia assume o esforço do aluno, ganha nome específico: “preguiça metacognitiva”.

Por outro lado, os dados também mostram que quando a IA é integrada a práticas pedagógicas estruturadas, os resultados são diferentes. Em atividades colaborativas e com mediação docente, ferramentas de IA generativa contribuíram para o desenvolvimento da argumentação, da escrita e do pensamento crítico. Tutores digitais bem projetados elevaram em até nove pontos percentuais as taxas de aprovação dos estudantes.

Para os professores, o impacto também é real. Docentes no Reino Unido que usaram IA para planejar aulas e produzir materiais reduziram em 31% o tempo dedicado a essas tarefas. O tempo extra pode ser redirecionado para o que nenhuma máquina substitui: a relação humana com o aluno.

O relatório, porém, alerta que o uso irrestrito de IA para tarefas como correção de atividades, elaboração de planos de aula e feedback pode, com o tempo, enfraquecer as competências profissionais do professor. A formação docente e o letramento em IA são, portanto, condições fundamentais para que a tecnologia seja incorporada com responsabilidade.

 

Quando a IA funciona na educação

A OCDE destaca a diferença entre ferramentas de uso geral e aquelas desenvolvidas com intencionalidade pedagógica, em parceria com educadores e fundamentadas em pesquisas sobre aprendizagem. Mais do que entregar respostas, essas soluções provocam perguntas, estimulam a reflexão e tornam visível o processo de aprendizagem.

Ronald Beghetto, professor da Universidade Estadual do Arizona e um dos especialistas entrevistados no relatório, chama isso de “IA lenta” – em contraposição à “IA rápida”, aquela usada de forma pontual para obter respostas imediatas. “Trata-se de usar a IA como uma parceira para levantar possibilidades, como se fosse apenas uma nova perspectiva, um colega a quem se pode recorrer”, diz.

Para ele, nessa abordagem lenta, o ser humano permanece no controle. De outra forma, estudantes e professores terceirizam o pensamento para a máquina, se transformando em “marionetes digitais”.

O importante, segundo o especialista, não é proibir a IA, mas ensinar a usá-la de forma criativa e crítica. A proposta de Beghetto é que professores e alunos aprendam a construir ferramentas com a IA, não apenas a consumi-la. Ao definir objetivos claros e usar o conhecimento que já possuem para direcionar as respostas da máquina, eles desenvolvem uma relação mais ativa e crítica com a tecnologia.

 

O Brasil no mapa da inovação possível

Uma preocupação constante é a questão da desigualdade no acesso a novas tecnologias, muitas vezes provocada pela falta de conectividade ou de investimentos. Neste sentido, o relatório da OCDE cita o Brasil como exemplo de inovação em contexto de baixa infraestrutura, destacando o trabalho coordenado pelo professor Seiji Isotani, da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolveu um sistema de avaliação automática de redações para uso em larga escala nas escolas públicas.

O desafio que Isotani enfrentou é o mesmo que gestores e professores conhecem bem: alunos sem computador em casa, internet precária na escola e, muitas vezes, conexão limitada nos domicílios. A resposta estava no bolso de todos, o celular.

O sistema permite que professores fotografem redações e, quando há acesso à internet, façam o upload numa plataforma que processa os textos, avalia coesão, gramática e estrutura, e devolve um painel com análises individuais e coletivas. Sem laboratório, sem conexão permanente, sem custo proibitivo. O projeto já alcançou cerca de 500 mil estudantes em mais de 1.500 municípios, demonstrando que tecnologias educacionais, quando pensadas a partir da realidade da escola pública, podem ampliar oportunidades de aprendizagem e apoiar o trabalho docente.

IA e BNCC Computação: implementação é oportunidade para avanços

Com a implementação da BNCC Computação — a Base Nacional Comum Curricular de Computação — o Brasil passa a ter uma oportunidade estratégica para avançar no uso da inteligência artificial na educação. O documento estabelece diretrizes para o ensino de computação e tecnologias em toda a Educação Básica, organizando os conteúdos e habilidades em três pilares: pensamento computacional, mundo digital e cultura digital.
 
Para apoiar este processo nas redes públicas de ensino, a Fundação Telefônica Vivo disponibiliza, em parceria com o Instituto IA.Edu e a Cátedra UNESCO de IA Desplugada na Educação, a nota técnica “Educar na Era da Inteligência Artificial: Caminhos para a BNCC Computação”. A publicação oferece orientações práticas para que gestores e professores possam tomar decisões informadas sobre o uso dessas tecnologias no ambiente escolar, abordando desde princípios éticos até estratégias concretas de implementação.
 


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