Informe Social 2025: inclusão digital como chave para a equidade na educação pública.
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06.03.2026
Tempo de leitura: 6 minutos

Débora Garofalo: da inovação na educação pública ao título de professora mais influente do mundo

No Dia Internacional da Mulher, conheça a trajetória da educadora que transformou práticas pedagógicas com criatividade, inovação e compromisso com a educação pública.

Imagem ilustra a matéria que exemplifica o termo Débora Garofalo ensino tecnologia

No dia 8 de março, quando celebramos o Dia Internacional da Mulher, reconhecemos histórias que ultrapassam homenagens e revelam trajetórias de coragem, reinvenção e impacto social profundo. A da professora paulistana Débora Garofalo é uma delas. Começa com uma lousa de brinquedo, passa por ruas tomadas de lixo na periferia de São Paulo e chega, em janeiro de 2026, a um jantar de gala em Dubai, onde ela foi reconhecida como a educadora mais influente do mundo.

Débora, professora de tecnologia da rede pública, tornou-se recentemente a primeira pessoa a receber o Global Teacher Influencer, prêmio criado pela Varkey Foundation para destacar educadores que usam sua influência e as redes sociais para expandir o aprendizado para além da sala de aula. E a notícia veio como um susto.

“Recebi uma ligação da Varkey Foundation de madrugada. No primeiro momento achei que era engano, mas a pessoa continuou insistindo e acabei atendendo”, relembra. Do outro lado da linha, alguém do escritório argentino dizia apenas que ela precisava ir a Dubai porque havia “boas notícias”. “Eles disseram que precisavam muito da minha presença e que só podiam adiantar que era algo bom para mim.” Ela embarcou sem saber o que a aguardava. Descobriu no meio de um jantar com mais de mil convidados, quando os holofotes se voltaram para sua mesa.

 

Do lixo ao laboratório

Não era a primeira vez que o mundo reconhecia seu trabalho. Em 2019, Débora foi a primeira mulher brasileira e a primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, conhecido como “Nobel da Educação”. Na época, ela transformou um problema urbano grave, o lixo acumulado nas ruas ao redor da Escola Municipal Almirante Ary Parreiras, em combustível para a aprendizagem.

Em 2015, Débora dava aulas de tecnologia nessa escola, que atende crianças de quatro comunidades vulneráveis. Ao notar que muitos alunos faltavam às aulas em dias de chuva devido aos alagamentos causados pelo descarte irregular de resíduos, ela decidiu colocar o problema no centro do processo educativo.

Com materiais descartados, criou o projeto “Robótica com Sucata, promovendo a Sustentabilidade”, ensinando crianças de 6 a 14 a programar, montar protótipos e desenvolver soluções reais para problemas reais.

Os resultados ganharam escala. Uma turma criou um modelo de casa com energia sustentável após um incêndio na comunidade. Outra desenvolveu um sensor de autonomia para alunos com deficiência. Em quatro anos, o impacto foi expressivo: mais de uma tonelada de materiais recicláveis retirados das ruas, a evasão escolar foi reduzida em cerca de 93% e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) saltou de 4,2 para 5,2.

A metodologia tornou-se política pública e atualmente está presente em 5.400 escolas, alcançando 3,7 milhões de estudantes no estado de São Paulo. Agora como consultora educacional, Débora apoia secretarias de educação em todo o país.

“Esse prêmio coloca o Brasil no centro do debate global sobre inovação educacional, mostrando que soluções transformadoras podem nascer em contextos de alta vulnerabilidade social, e comprovando que é possível uma aprendizagem criativa e significativa, mesmo em realidades com poucos recursos”, afirma Débora.

 

Inovação é coisa de mulher

 Um elemento essencial em sua trajetória é que ela não veio das Ciências Exatas. Formada em Letras e Pedagogia, mestre em Linguística Aplicada pela PUC-SP, seu contato com a tecnologia nasceu na prática e ganhou propósito ao chegar à escola pública. A resistência foi grande. Muitos colegas classificavam seu trabalho como artesanato. Na sala de aula, os meninos a testavam continuamente. “Essa relação começou a mudar quando mostrei para eles que não sabia tudo, mas estava disposta a aprender junto”, conta. Foi assim que ela construiu um ambiente de aprendizagem genuinamente colaborativa.
A história de Débora dialoga diretamente com o desafio de equidade de gênero nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharias e Matemática). Hoje, meninas já são a maioria matrículas da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), com 57,9%, de acordo com o Censo Escolar 2025, mas, no Ensino Superior, elas representam apenas 26% dos ingressantes. A desigualdade se reflete no mercado de trabalho. Dados da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais), mostram que mulheres ocupam apenas 39% dos empregos no setor de tecnologia.

“Durante muito tempo, a sociedade deixou claro que esses espaços não eram para nós. Hoje sabemos que isso não é verdade”, afirma. E deixa um recado para as meninas: “Não tenham medo de experimentar, de errar, de tentar de novo. A curiosidade é uma força poderosa, e nós, mulheres, podemos ser cientistas, engenheiras, programadoras, inventoras, pesquisadoras, professoras.”

 

Por que falar de tecnologia na escola importa

Para Débora, a implementação da BNCC Computação, que torna obrigatório o ensino de tecnologia nas escolas brasileiras a partir deste ano, é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. “Historicamente, a menina não foi constituída para mexer em uma ferramenta, num ferro de solda ou falar de programação. O currículo pode mudar isso, mostrando que a programação é uma linguagem, não um cenário exclusivamente masculino”, afirma.

O argumento não é apenas pedagógico, mas social. “Hoje, há predominância masculina entre programadores, o que acaba trazendo uma visão masculina para vieses e algoritmos. Precisamos nos permitir acreditar no nosso potencial para mudar isso e construir uma tecnologia mais justa e que traga uma visão feminina.”

Ela ressalta que atualização curricular não basta: é essencial investir em formação docente. “Fui uma professora que não foi preparada para trabalhar com tecnologia. Tudo que aprendi foi de forma autodidata”, lembra. Segundo Débora, países que avançaram em inovação educacional não apenas modernizaram suas escolas, mas investiram nas pessoas que fazem a educação acontecer.

“Estamos quebrando paradigmas, mas ainda estamos longe do que poderíamos estar”, avalia. “Ainda falta a escola aproveitar toda a discussão sobre tecnologia e uso de telas para trazer esse conceito ao currículo de forma consistente, mostrando que as meninas também podem participar desse mundo e, mais do que consumidoras, podem ser produtoras de tecnologia.”


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