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02.06.2026
Tempo de leitura: 7 minutos

Além da técnica: como a EPT prepara jovens para as competências mais demandadas pelo mercado

Das 10 habilidades mais exigidas pelos empregadores, 5 são soft skills como criatividade e resiliência, aponta pesquisa realizada pelo Fórum Econômico Mundial; EPT se destaca ao combinar aprendizado técnico e interpessoal

Imagem ilustra a nota técnica que exemplifica o termo soft skills na EPT

O mundo do trabalho está mudando, e as habilidades que ele exige também. O relatório “O Futuro do Trabalho 2025”, do Fórum Econômico Mundial, traz dados muito relevantes para se pensar sobre a relação entre a escola e a formação profissional. Das dez competências com maior crescimento de demanda até 2030, cinco são socioemocionais, as chamadas soft skills. Nesse cenário, a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) se destaca como um dos espaços mais propícios para a formação de jovens que apresentam estas características. Ao unir uma aprendizagem mais aplicada e voltada a desafios práticos, a EPT estimula o desenvolvimento paralelo de habilidades técnicas e socioemocionais.

O Fórum Econômico Mundial entrevistou mais de mil grandes empregadores de 22 setores industriais em todo o mundo para chegar ao relatório. Nele, criatividade, resiliência, curiosidade, liderança e pensamento analítico aparecem na lista das competências mais desejadas no mundo do trabalho ao lado de habilidades técnicas como inteligência artificial e cibersegurança. “Uma combinação de habilidades tecnológicas e humanas será cada vez mais exigida em muitos empregos”, resume o relatório.

Outra pesquisa, feita exclusivamente no Brasil, corrobora os achados do Fórum.

O estudo Prospecção de Vagas de Entrada no Macrossetor de TIC, realizado pela Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais) com a Fundação Telefônica Vivo e o Instituto Locomotiva, mostra que vontade de aprender, resolução de problemas e trabalho em equipe estão entre as competências mais valorizadas pelas empresas de tecnologia ao contratar profissionais juniores.

Ou seja, o mercado não pede apenas técnica, mas também postura, colaboração e autonomia. Soft skills que a EPT, quando bem estruturada, tem grande potencial de desenvolver.

 

A EPT como espaço privilegiado para essas competências

Mas como, na prática, a EPT pode contribuir para desenvolver essas competências socioemocionais? A resposta está menos no conteúdo e mais no método. Projetos de programação, robótica, cultura maker e resolução de problemas reais têm em comum algo essencial: exigem que o aluno trabalhe em equipe, ouça os outros, colabore, tome decisões, erre, ajuste e tente de novo.

Karen Kanaan, fundadora e diretora da Escola 42 São Paulo — considerada uma das instituições de educação em tecnologia mais inovadoras do mundo—, destaca que soft skills dizem respeito, antes de tudo, ao ser humano. Neste sentido, a metodologia usada no ensino técnico faz diferença. “Como o aluno se vê no processo de aprendizado, como estabelece vínculo com o aprender e com o outro? Estamos falando de empatia, autonomia, protagonismo. E tudo isso só é possível se o método dá espaço para isso”, comenta.

Um ponto central nessa proposta é o papel do professor. Tanto Karen quanto o professor José Moran, doutor pela USP e um dos maiores especialistas em metodologias ativas do Brasil, convergem para a mesma visão: o educador como orientador, não como detentor de respostas prontas.

Para Moran, o caminho mais eficiente começa com o que já é possível dentro de cada sala de aula. “Cada professor que trabalha em sua disciplina com mais projetos, experimentação e colaboração já está iniciando uma mudança. Há sempre uma dimensão do conhecimento e outra do aprender junto, de enfrentar dificuldades e resolver desafios. Isso é trabalhar com as soft skills, fundamentais para o mundo de hoje”, explica

Karen Kanaan descreve bem como isso funciona na prática: “É quase como um guia de ecoturismo que não entrega o caminho, mas pergunta: ‘onde será que vamos sair se formos por aqui?’.”

 

Desafios reais como laboratório de competências

A área de tecnologia já tem, por tradição, uma cultura de resolver problemas em grupo — hackathons, desafios de dados, sprints colaborativos. Essa cultura, quando trazida para dentro da EPT, funciona como laboratório natural de soft skills.

Somando esforços e competências, um aluno aprende com o outro, sempre supervisionados por um professor orientador. Com um direcionamento adequado, é possível motivar os alunos a se movimentarem, irem atrás de respostas, de diferentes soluções para um mesmo problema. “Eles não são mais receptores de conteúdo, são atores da própria trajetória de aprendizado”, resume Karen Kanaan, da Escola 42 São Paulo.

Moran acrescenta uma dimensão importante a esse processo. Para ele, trabalhar com tecnologia na escola vai além do uso de ferramentas. “Aprender a lidar com esse mundo é também entender a lógica por trás delas e saber fazer escolhas. Há uma camada filosófica e reflexiva por trás de tudo isso — ética, sentido da vida, o que significa ser uma pessoa neste mundo.”

Nesse sentido, a EPT contribui não apenas para a formação profissional, mas também para o desenvolvimento de uma relação mais crítica e consciente com a tecnologia e o mundo digital.

 

Educação pública e oportunidades ampliadas

Nas redes públicas de ensino, a Educação Profissional e Tecnológica tem um papel ainda mais relevante: ampliar horizontes e reduzir desigualdades de acesso às oportunidades.

Ao conectar o aprendizado a contextos reais e ao universo do trabalho, essa modalidade favorece o desenvolvimento de trajetórias mais autônomas e significativas, especialmente para jovens que estão ingressando no mercado.

Investir na qualificação e expansão da EPT é, portanto, investir em uma formação que integra conhecimento técnico, desenvolvimento humano e participação social.

Mais do que preparar para o primeiro emprego, trata-se de formar jovens capazes de navegar em um mundo em constante transformação — e de atuar sobre ele de forma crítica, colaborativa e transformadora.

Aprendizagem na prática e conexão com o mundo do trabalho fazem diferença

Para além da sala de aula, a integração entre técnica e competências socioemocionais também se fortalece por meio de iniciativas que aproximam os estudantes do setor produtivo e ampliam as possibilidades de aprendizagem na prática. Este é o foco das ações do programa Pense Grande Tech, da Fundação Telefônica Vivo.
 
Entre elas, o Desafio dos Dados propõe uma maratona acadêmica voltada a estudantes do Ensino Médio Profissional dos cursos técnicos em tecnologia da rede pública. A iniciativa estimula a resolução de desafios reais, promovendo o desenvolvimento de competências técnicas, inovação e protagonismo na construção dos projetos de vida.
 
Já a Mentoria para jovens mulheres conecta lideranças do setor a estudantes do eixo de Informação e Comunicação, em encontros que abordam temas como autoconhecimento, trajetória profissional e futuro. A proposta contribui para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e para a ampliação de referências na área de tecnologia, fortalecendo a inserção e permanência das jovens nesse campo.
 
Complementando essas experiências, a Jornada Tech promove palestras e rodas de conversa com profissionais da área, aproximando estudantes do universo do trabalho. A iniciativa fortalece a formação técnica ao conectar o conteúdo trabalhado em sala de aula com o cotidiano das empresas e garantir a continuidade dos temas no ambiente escolar.
 
Mais do que preparar para uma profissão, essas iniciativas ajudam a formar jovens capazes de aprender continuamente, colaborar, lidar com desafios e construir seu próprio caminho — competências essenciais para atuar e se adaptar a um mundo do trabalho em constante mudança.


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