Os resultados da primeira edição da Prova Nacional Docente (PND), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) em maio de 2026, trouxeram à tona um desafio que impacta diretamente a qualidade da educação brasileira: a formação de professores de matemática. Dos mais de 760 mil participantes da avaliação, 35% não alcançaram o nível básico de proficiência para a atuação em sala de aula. Entre os docentes de matemática, o cenário é ainda mais preocupante: 54,1% ficaram abaixo do desempenho mínimo esperado, o pior resultado entre as 17 áreas avaliadas.
Os números reforçam um alerta já conhecido por gestores, pesquisadores e educadores: a matemática continua sendo um dos maiores desafios da Educação Básica brasileira. Quando os professores não recebem formação adequada para ensinar conteúdos matemáticos, os impactos chegam diretamente à sala de aula e se refletem na aprendizagem dos estudantes.
Mas os resultados da PND também levantam outra questão: como garantir que milhares de educadores tenham acesso a processos formativos contínuos, de qualidade e alinhados aos desafios reais da prática docente? Para especialistas, a resposta passa pelo fortalecimento da formação inicial e continuada, com apoio estratégico das tecnologias digitais.
Mais do que disponibilizar ferramentas, trata-se de utilizar a tecnologia de forma intencional para apoiar a aprendizagem dos próprios professores, ampliar oportunidades de desenvolvimento profissional e contribuir para a melhoria do ensino e da aprendizagem matemática.
Formação inicial ainda enfrenta desafios
A Prova Nacional Docente integra o programa Mais Professores para o Brasil, lançado pelo governo federal em 2025. Inspirada no modelo do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), a avaliação pode ser utilizada por estados e municípios como critério em processos seletivos para contratação de professores.
Entre os resultados divulgados, um dado chama atenção: os estudantes que ainda estavam concluindo a graduação apresentaram desempenho inferior ao dos profissionais já formados. Enquanto 42% dos concluintes não atingiram o nível básico de proficiência, esse percentual foi de 32,5% entre os docentes com mais tempo de atuação.
Para Katia Smole, fundadora do Mathema, ex-secretária de Educação Básica do MEC e atual diretora-executiva do Instituto Reúna, o dado evidencia fragilidades importantes na formação inicial. “Ao terminar a faculdade, esses professores precisariam ingressar imediatamente em um curso de formação continuada, não como atualização, mas para aprender o básico que não aprenderam na universidade. É, na prática, como se fosse uma recuperação”, afirma.
Entre os fatores que ajudam a explicar esse cenário está a expansão dos cursos de licenciatura na modalidade de educação a distância (EAD). Embora tenham ampliado o acesso ao ensino superior e contribuído para descentralizar a formação docente, os resultados da própria PND e do Enade indicam que cursos integralmente a distância apresentam desempenho inferior quando comparados às formações presenciais.
“Um dos problemas da EAD é que quem prepara as aulas são os professores, mas quem faz a mediação nem sempre é um professor de matemática da licenciatura. Muitas vezes é um tutor, cuja formação não se conhece”, observa Katia Smole.
Em resposta a esses desafios, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou, em junho de 2025, novas diretrizes para a formação de professores. A atualização prevê a proibição de novos cursos de licenciatura totalmente a distância e estabelece carga horária presencial mínima de 50% para cursos semipresenciais.
Por que a matemática continua sendo um desafio?
Para Katia Smole, os resultados na área da matemática não chegam a surpreender, já que diferentes avaliações mostram que a aprendizagem de matemática está longe do ideal. “Na edição do Saeb de 2023, até o final do 5º ano, as crianças tinham uma aprendizagem de aproximadamente pouco menos de 50% do esperado. Quando chegamos ao Ensino Médio, esse número cai drasticamente: cerca de 95% dos alunos não atingem o nível de aprendizagem considerado adequado em matemátic”, lembra.
Os desafios não se concentram apenas na formação inicial. Uma sondagem realizada pelo MEC em março de 2025, com mais de 57 mil professores de matemática em 4.118 municípios, revelou que cerca de um terço dos docentes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental não se sente preparado para avaliar os alunos em matemática, e que apenas 35% dos professores dos Anos Finais e do Ensino Médio receberam formação aprofundada em recomposição das aprendizagens. Ao mesmo tempo, 80% demonstraram interesse em formação continuada.
Para esse público, o MEC lançou, em outubro de 2025, o Compromisso Nacional Toda Matemática — uma política pública com horizonte de dez anos, organizada em cinco eixos: gestão e governança, currículo, boas práticas, formação e mobilização social. Dentro do eixo formativo, há desde uma especialização de longa duração da Universidade Federal do Ceará em parceria com o MEC — voltada aos professores dos 4ºs, 5ºs e 6ºs anos, as etapas mais críticas de perda de aprendizagem em matemática — até cursos de curta duração em plataforma digital.
Como a tecnologia pode apoiar a formação continuada de professores
Se o desafio é formar milhares de educadores distribuídos por redes de ensino de todo o país, a tecnologia surge como uma aliada importante para ampliar o alcance e a efetividade das ações formativas.
Para especialistas, as ferramentas digitais permitem superar barreiras geográficas, oferecer percursos mais flexíveis e criar experiências de aprendizagem alinhadas às necessidades de cada professor.
Assim como os estudantes aprendem em ritmos diferentes, os professores também possuem conhecimentos prévios, desafios e necessidades diversas. Nesse contexto, plataformas digitais podem ajudar a identificar lacunas específicas de aprendizagem e oferecer formações mais personalizadas.
“A tecnologia precisa ocupar um lugar onde ela não seja nem um apêndice nem uma distração em relação a agendas complexas como a da aprendizagem de matemática”, afirma Katia Smole.
A especialista destaca que recursos digitais podem apoiar gestores e redes de ensino na análise de dados educacionais, permitindo identificar quais habilidades precisam ser fortalecidas e quais grupos de professores necessitam de apoio mais direcionado. “Só consigo imaginar esse processo acontecendo em escala com o uso da tecnologia.”
Além de ampliar o acesso à formação continuada, ambientes digitais permitem que educadores tenham contato constante com conteúdos atualizados, materiais de referência, comunidades de prática e exemplos de metodologias que podem ser incorporadas ao cotidiano escolar.
Inteligência artificial abre novas possibilidades
O avanço da inteligência artificial também abre novas possibilidades para a formação de professores e para o ensino de matemática. Quando utilizada com intencionalidade pedagógica, a tecnologia pode apoiar o planejamento de aulas, a análise de dados educacionais, a criação de estratégias de aprendizagem personalizadas e a identificação de dificuldades específicas dos estudantes.
Para Katia Smole, o uso qualificado dessas ferramentas pode beneficiar tanto professores quanto alunos: “Do ponto de vista do professor, a tecnologia é uma aliada importante para construir aulas mais interativas e promover a diferenciação da aprendizagem. Do ponto de vista dos estudantes, ela amplia o acesso à formação digital, ao desenvolvimento de competências e a um suporte mais personalizado àquilo que cada um precisa aprender.”
Para que esse potencial se concretize, no entanto, é fundamental que os professores desenvolvam competências digitais e tenham acesso a formações que os ajudem a integrar as tecnologias às práticas pedagógicas de maneira crítica, planejada e alinhada aos objetivos de aprendizagem.
Os resultados da Prova Nacional Docente reforçam que o fortalecimento da formação de professores continua sendo um dos principais desafios da educação brasileira. Nesse contexto, a combinação entre políticas públicas, aprendizagem continuada e uso estratégico da tecnologia pode contribuir para ampliar oportunidades de desenvolvimento profissional docente e melhorar a aprendizagem matemática de milhões de estudantes.
Matemática ProFuturo: tecnologia e formação para enfrentar os desafios da aprendizagem matemática
Diante dos desafios revelados pela Prova Nacional Docente, iniciativas de formação continuada ganham ainda mais relevância. É o caso do Matemática ProFuturo, projeto do programa ProFuturo — iniciativa global da Fundação Telefônica Vivo e da Fundação “la Caixa” — voltado ao fortalecimento da aprendizagem matemática nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Implementado em parceria com secretarias estaduais e municipais de educação, o programa combina formação de professores, recursos digitais e acompanhamento pedagógico para apoiar redes públicas de ensino.
A iniciativa oferece uma plataforma gamificada com mais de 4 mil atividades alinhadas à BNCC, permitindo que estudantes avancem em seu próprio ritmo e que professores acompanhem a evolução da aprendizagem com base em dados.
Além dos recursos digitais, o programa investe na formação continuada dos educadores por meio de cursos presenciais e online voltados ao uso pedagógico da tecnologia no ensino da matemática. Somente em 2025, mais de 1.100 professores participaram das ações formativas da iniciativa.
Mais do que ampliar o acesso à tecnologia, o Matemática ProFuturo busca apoiar redes de ensino na construção de estratégias que fortaleçam a aprendizagem matemática e contribuam para reduzir desigualdades educacionais.

