A inteligência artificial na educação deixou de ser uma tendência futura para se consolidar como uma realidade presente nas salas de aula, no planejamento pedagógico e nas discussões sobre políticas públicas.
No Brasil, esse debate tem avançado a partir de marcos pedagógicos e legais cada vez mais consistentes, e conta com a atuação de organizações como a Fundação Telefônica Vivo, que contribui para a produção de conhecimento e para a formação de educadores voltada ao uso ético e pedagógico da tecnologia.
A boa notícia para gestores e professores que buscam entender como adotar a IA na educação básica, é que boa parte do caminho já foi aberto pela BNCC Computação. As diretrizes para o ensino da computação organizam os conteúdos em três eixos estruturantes: Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital. É exatamente sobre esses pilares que o ensino sobre e com IA se apoia: algoritmos exigem lógica e abstração; o uso de dados demanda compreensão do ambiente digital; e a reflexão crítica sobre impactos sociais e éticos faz parte da cultura digital. Assim, redes de ensino que já incorporaram a BNCC Computação avançam também na integração da inteligência artificial na educação básica.
“A IA chega num momento muito oportuno, bem no meio da implementação das competências e habilidades da Computação nas redes de ensino”, afirma Christian Brackmann, professor do Instituto Federal Farroupilha e um dos revisores e validadores da BNCC Computação.
Para orientar esse processo, em março de 2026, o Ministério da Educação (MEC) lançou dois documentos fundamentais para apoiar a adoção responsável e ética da tecnologia: o “Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação” e o guia prático “Inteligência Artificial na Educação Básica”, voltados a gestores e professores. Ambos guardam relação profunda com as diretrizes estabelecidas pela BNCC Computação.
O que diz o MEC sobre IA na educação?
A premissa central do Referencial é que IA deve ser usada como instrumento de inclusão e equidade, não como fator de aprofundamento das desigualdades. Entre os pilares estabelecidos estão a exigência de supervisão humana efetiva, e o cumprimento rigoroso de legislações relacionadas, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o ECA Digital.
Na Educação Infantil, o uso de IA não é recomendado, exceto em situações voltadas à inclusão de crianças com deficiência. No Ensino Fundamental, a prioridade é o desenvolvimento progressivo do letramento digital, com destaque para abordagens como a “IA desplugada” — atividades que trabalham lógica, ética e pensamento computacional sem depender de conectividade. Esse modelo se mostra especialmente relevante em contextos onde o acesso à internet ainda é limitado.
Brackmann, que trabalha com a abordagem desde 2022, reforça sua importância. “Acreditamos que os conceitos básicos da IA podem e devem ser trabalhados com segurança e longe dos dispositivos”, afirma. Para quem quiser começar, ele indica o site IA na Escola, com planos de aula prontos para uso, desenvolvidos dentro da Cátedra UNESCO de Tecnologia da Comunicação e Informação na Educação.
Já no Ensino Médio, o aprofundamento envolve discussões sobre impactos sociais e éticos, exploração prática e projetos de pesquisa. É nessa etapa que o MEC, com a Unesco, lançou o curso “IA na prática docente: uso ético, criativo e pedagógico”, disponível na Plataforma Mais Professores.
Por que a IA não substitui o professor?
As orientações do MEC são claras: a inteligência artificial não substitui o professor. Pelo contrário, seu uso deve fortalecer o papel docente e apoiar processos pedagógicos.
Antes de adotar qualquer solução, o Referencial adverte: o problema pode ser resolvido com metodologias já existentes, ou realmente demanda ajuda da IA?
Se a resposta for sim, a inteligência artificial pode ajudar a melhorar a gestão escolar ou ser um suporte para a realização de atividades pedagógicas, o guia do MEC aponta quatro responsabilidades fundamentais: proteção de dados, transparência, participação docente e formação continuada.
Ao automatizar tarefas operacionais, a tecnologia pode liberar mais tempo para que o professor se concentre no que mais importa: o acompanhamento individual dos estudantes e o desenvolvimento socioemocional.
Formação docente: o principal desafio da IA na educação
Se a tecnologia avança rapidamente, a formação de professores ainda é o principal desafio para o uso da inteligência artificial na educação básica.
Dados da pesquisa Talis 2024, da OCDE, mostram que 64% dos professores brasileiros afirmaram não ter as habilidades necessárias para ensinar com IA. Em contrapartida, de acordo com pesquisa TIC Educação 2024, 70% dos estudantes do Ensino Médio já usam IA generativa em pesquisas escolares, enquanto apenas 32% relataram ter recebido orientação de professores sobre o tema.
Esse descompasso evidencia um dos principais desafios para a consolidação da IA na educação: enquanto o uso entre estudantes cresce de forma espontânea, a integração pedagógica ainda depende de condições estruturais e apoio institucional. Para o professor Christian Brackmann, essa assimetria tem raízes profundas. “Para o aluno, a adoção costuma ser espontânea e de baixo custo pessoal. Para o docente, ela esbarra em responsabilidade pedagógica, prestação de contas e ausência de incentivo estrutural”, explica.
Nesse contexto, a formação docente ganha centralidade. A nota técnica “Recomendações para Formação Docente em IA na Educação Básica”, da Fundação Telefônica Vivo, alerta que esse processo deve ser contínuo, colaborativo e baseado em comunidades de prática, indo além do domínio técnico e incorporando dimensões éticas e pedagógicas.
Brackmann reforça essa visão ao destacar que o desenvolvimento técnico e a reflexão crítica devem caminhar juntos. “Os dois precisam andar de mãos dadas, mas a ética é o centro. Não se trata de escolher entre o técnico e o ético como se fossem caminhos separados. Quando ensinamos a usar um modelo, a pergunta sobre o viés dos dados, a privacidade e a responsabilidade pela decisão final não vêm depois, mas tem que estar presente desde o primeiro comando.”
IA na educação: oportunidade com responsabilidade
A inteligência artificial na educação tem potencial para ampliar oportunidades e contribuir para a redução de desigualdades no acesso à aprendizagem de qualidade. Para que isso se concretize, porém, sua adoção precisa estar orientada por princípios éticos, pedagógicos e de inclusão.
Mais do que incorporar novas tecnologias, o desafio das escolas é formar cidadãos críticos, capazes de compreender, questionar e atuar de forma responsável no mundo digital.
Nesse cenário, iniciativas que promovem o uso consciente da tecnologia e fortalecem a formação de educadores em larga escala são fundamentais para que o avanço da inteligência artificial na educação aconteça de forma equitativa e gere impacto real na aprendizagem de todos os estudantes.
Aprender “sobre” IA e aprender “com” IA
Aprender sobre IA significa compreender como a tecnologia funciona, reconhecer seus limites, identificar vieses e refletir sobre seus impactos sociais e éticos — formando cidadãos digitais críticos.
Já aprender com IA envolve o uso da tecnologia como ferramenta pedagógica, com recursos que apoiam o ensino, personalizam a aprendizagem e ampliam a inclusão
Essa distinção é o ponto de partida da Nota Técnica “Educar na Era da Inteligência Artificial: Caminhos para a BNCC Computação”, da Fundação Telefônica Vivo em parceria com o Instituto IA.Edu[AN1] e a Cátedra UNESCO de IA Desplugada. O documento reforça que a IA deve ser integrada de forma transversal ao currículo, sempre em diálogo com os três eixos da BNCC Computação: Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital.

