Informe Social 2025: inclusão digital como chave para a equidade na educação pública.
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27.03.2026
Tempo de leitura: 7 minutos

Lia Glaz: inclusão digital vai além do acesso e é chave para a equidade na educação

No Dia Nacional da Inclusão Digital, a diretora-presidente da Fundação Telefônica Vivo reforça que a equidade na aprendizagem depende da integração entre currículo, formação docente e infraestrutura

Imagem ilustra a matéria que exemplifica o termo inclusão digital na educação

Celebrado em 27 de março, o Dia Nacional da Inclusão Digital lembra que o acesso à tecnologia e à internet é um direito essencial – inclusive para garantir o direito à educação. Para professores e gestores da rede pública, a data convida a reflexão: a tecnologia está cada vez mais presente na escola, mas ainda há dúvidas sobre o aproveitamento de todo o seu potencial pedagógico e sobre como garantir equidade para crianças e jovens em um mundo cada vez mais digitalizado.

Os números ajudam a dimensionar o cenário. O Censo Escolar 2025 mostra que o Brasil está em uma trajetória positiva em conectividade escolar, com o percentual de escolas públicas com internet passando de 82,8% em 2024 para 94,5% em 2025. Ao mesmo tempo, boa parte dos docentes ainda não se sente preparada para o uso pedagógico da tecnologia. A pesquisa TIC Educação 2024 revelou que apenas 54% dos professores haviam recebido formação sobre tecnologias digitais, e menos da metade (43%) já havia utilizado a inteligência artificial na preparação de atividades.

À frente da Fundação Telefônica Vivo, Lia Glaz acompanha de perto os desafios e avanços da agenda digital nas redes públicas de ensino. Em entrevista exclusiva —disponível na íntegra abaixo —, ela discute formação docente, BNCC Computação, inteligência artificial e caminhos para uma transformação digital mais efetiva nas escolas.

Para Lia, o país não pode esperar “resolver o básico” para só então avançar no digital. As duas agendas precisam caminhar juntas. “O professor é o agente mais central para mudar o jogo na educação”, afirma. É nele que a Fundação aposta para promover uma inclusão significativa, que vá além do acesso e se traduza em oportunidades reais de aprendizagem.

A seguir, confira a entrevista completa – ou, se preferir, assista ao vídeo com a íntegra da fala de Lia Glaz no final da página:

 

A inclusão digital se tornou um tema central nas políticas educacionais. Como você enxerga sua importância no contexto da educação pública?

A inclusão digital já é um imperativo em qualquer área da vida, e na educação não poderia ser diferente. Na Fundação, entendemos que inclusão digital também é inclusão social, e isso exige políticas que conectem infraestrutura, formação dos professores e gestores escolares, e currículo.
O Brasil avançou muito em infraestrutura, embora o desafio ainda não esteja superado. Aqui na Fundação, temos nos dedicado especialmente ao papel do professor nesse processo, porque entendemos que a integração entre tecnologia e boa gestão pedagógica é o que garante ao estudante uma inclusão digital com propósito, para além do entretenimento.

 

A formação de professores é um dos pilares da atuação da Fundação. Por que ela é tão central para avançarmos na inclusão digital?

Nosso entendimento é que a inclusão digital dá aos professores não apenas uma atualização diante de um mundo marcado pela inteligência artificial, mas também fortalece seu papel — não numa lógica de substituição, e sim de transformação da prática pedagógica.

Acreditamos que isso só será possível se os docentes tiverem competências digitais adequadas e formação para falar sobre tecnologia e para utilizá-la em suas atividades de gestão de sala de aula, avaliação, entre outras tarefas rotineiras.

O professor é o agente mais central para mudar o jogo na educação, e a qualidade do seu trabalho é determinante. No entanto, não é possível exercer a docência com uma lógica do passado diante de um presente tão diferente. Por isso, investimos fortemente na formação docente, como parte desse processo de atualização para o mundo digital.

 

Como você avalia o papel da BNCC Computação no avanço da inclusão digital nas escolas?

A BNCC Computação apresenta diretrizes sobre o que o estudante deve aprender em um mundo cada vez mais digitalizado, inclusive com a presença da inteligência artificial. Ela incorpora uma dimensão de cidadania digital, abordando temas como algoritmos, softwares, hardwares e pensamento computacional, articulados à matemática e às linguagens.

O desafio está na implementação. O Brasil já possui currículos que orientam essas aprendizagens, de forma transversal ou como componente curricular. No entanto, isso ainda está distante da sala de aula. A Fundação trabalha com uma perspectiva de médio prazo para garantir que esses conteúdos cheguem a todos os estudantes.

 

A inteligência artificial tem ganhado protagonismo no debate educacional. Qual a contribuição da IA para a inclusão digital nas escolas?

Essa resposta pode mudar em pouco tempo, já que a inteligência artificial generativa vem trazendo inovações numa velocidade difícil de ser acompanhada pelo ritmo tradicional da educação. Há dois debates acontecendo simultaneamente.

Um deles diz respeito às transformações no ecossistema social e à forma como devemos educar crianças e jovens para um mundo que passará por mudanças tão profundas quanto as grandes revoluções do passado — uma questão filosófica e prática.

O outro debate trata da IA como ferramenta. Aqui, vemos um grande potencial para apoiar o professor em processos como avaliação, gestão de dados em sala de aula e desenvolvimento de planos e metodologias de aula cada vez mais personalizados. Para isso, é necessário garantir infraestrutura, equipamentos, presença no currículo e formação docente que reconheça a IA como parte central do processo. O desafio é assegurar que seu uso esteja efetivamente a favor da aprendizagem, sem se limitar à euforia do momento.

 

Quais são as prioridades para avançarmos na transformação digital da educação pública nos próximos anos?

A primeira prioridade é garantir coerência entre os diferentes elementos da agenda digital: infraestrutura, equipamentos, formação docente e implementação curricular precisam avançar de forma integrada e sistêmica.

A segunda é olhar para o jovem que em breve ingressará no mundo do trabalho — especialmente o estudante do Ensino Médio. Ele pode se beneficiar do acesso ao Ensino Técnico Profissionalizante para uma inserção mais rápida no mercado, mas também precisa compreender seu papel em um contexto de transformação acelerada. Isso exige a habilidade de continuar aprendendo, ter fundamentos sólidos de Língua Portuguesa e Matemática — com a IA, o básico nunca foi tão importante —, além de pensamento crítico e criatividade.

A terceira prioridade é refletir com responsabilidade sobre o papel da inteligência artificial no processo educativo. Diferente de outros setores, a educação não experimentar sem critérios. Ao mesmo tempo, as inovações estão em curso e será necessário evoluir com mais rapidez. Esse é um debate constante dentro da Fundação.

 

Qual é o futuro que você deseja para a educação pública do Brasil?

Primeiro, é importante reconhecer os avanços já alcançados. Garantir o acesso de quase todas as crianças à escola não é uma tarefa fácil. No entanto, assegurar uma educação com qualidade ainda é um desafio, o que implica colocar a aprendizagem no centro, em um contexto que mudou profundamente.

Não haverá tempo para resolver primeiro as questões básicas — como alfabetização na idade certa, ampliação de tempo integral na escola e melhoria na aprendizagem em matemática — para só depois avançar na educação digital.

O futuro que enxergo é aquele em que conseguimos dar um salto – o chamado leapfrog –, avançando de forma que o desenvolvimento das aprendizagens essenciais aconteça simultaneamente ao fortalecimento das competências digitais e socioemocionais, cada vez mais relevantes em mundo em constante transformação. Uma educação que fortaleça o papel da escola e do professor, reconhecendo os docentes como profissionais essenciais para que tudo isso se concretize em aprendizagem significativa. Esse é o futuro que almejo para a educação pública.



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