O avanço da inteligência artificial está transformando o mundo do trabalho e, com ele, o perfil dos profissionais que as empresas procuram. Diante desse cenário, a formação profissional precisa ir além do domínio técnico e desenvolver competências como colaboração, comunicação, resiliência, pensamento crítico e capacidade de aprender continuamente.
As mudanças nos critérios de empregabilidade provocadas pela IA e seus impactos sobre a Educação Profissional e Tecnológica (EPT), especialmente no setor de tecnologia, são o tema central da Nota Técnica IA, Futuro do Trabalho e a Educação Profissional e Tecnológica: uma análise com foco na EPT Tech, elaborada pela Fundação Telefônica em parceria com o ProFuturo, a Cátedra Unesco UNITWIN Desplugada na Educação e Instituto IA.Edu.
Um dos principais diagnósticos do documento é que a IA generativa não está simplesmente eliminando postos de trabalho, mas transformando as atividades e elevando as competências exigidas dos profissionais de tecnologia. Tarefas operacionais e repetitivas, como codificação simples e elaboração de relatórios, passam a ser automatizadas. Em contrapartida, ganham importância capacidades como abstração, raciocínio crítico, verificação de resultados e uso estratégico de sistemas de IA.
Essa transformação ocorre em meio a um paradoxo brasileiro. Entre 2019 e 2024, houve um déficit de 30,2% entre a oferta e a demanda de profissionais qualificados em TIC, aponta a Brasscom. O perfil de entrada que as empresas buscam ainda não é entregue pela formação técnica atual, e a isso se somam desigualdades de infraestrutura, acesso e representatividade de gênero e raça no sistema educacional.
Outra pesquisa que corrobora esse impasse foi feita pelo Fórum Econômico Mundial. O relatório Futuro do Trabalho 2025 projeta 170 milhões de novos postos até 2030, com destaque para inteligência artificial, dados, cibersegurança e experiência do usuário. Porém, as vagas de entrada estão sendo reduzidas, justamente porque suas tarefas são as mais facilmente executadas por IA.
Ou seja: mesmo diante de um crescimento constantes nos últimos cinco anos no número de matrículas na Educação Profissional e Tecnológica, que chegou a 84% na rede pública como apontado pelo Censo da Educação 2025, e de um potencial crescimento do setor de tecnologia, a entrada no mundo do trabalho segue sendo um desafio para os jovens. Daí a importância de a EPT adaptar-se às novas demandas da era da IA.
O que ensinar
A Nota Técnica propõe trocar a ênfase na operação pelos fundamentos: pensamento computacional, algoritmos e lógica dos sistemas. O estudante também precisa aprender a ler, testar e auditar o código gerado por IA. A inteligência artificial deve ser tratada como tema transversal, com seu uso crítico e produtivo, mas também com seus limites, vieses e implicações éticas.
Para o professor Seiji Isotani, cofundador do IA.Edu, co-chair da Cátedra Unesco UNITWIN de Inteligência Artificial Desplugada na Educação, o ponto central está em manter a capacidade de pensar. “O conhecimento nunca será estático, e sempre será necessário aprender algo novo”, ressalta.
Com a IA, a informação já aparece pronta quando perguntamos, e o desafio passa a ser construir conceitos e estabelecer relações entre eles. Por isso, para Isotani, “o pensamento crítico se torna ainda mais importante”, ao lado do raciocínio lógico e da resolução de problemas.
Do ponto de vista curricular, a Nota Técnica considera que a EPT brasileira já dispõe de uma base normativa e de um contexto favorável para avançar nessa direção
Entre as recomendações está a revisão dos perfis de conclusão de cursos existentes, como Desenvolvimento de Sistemas, incorporando competências relacionadas à IA sem que isso implique, necessariamente, a criação de novas formações. O documento também sugere currículos que combinem um núcleo de fundamentos duradouros com componentes eletivos que possam ser atualizados com maior agilidade.
Como ensinar
A incorporação da inteligência artificial à sala de aula também exige intencionalidade pedagógica. Segundo a Nota Técnica, seu uso irrestrito por estudantes iniciantes pode estimular a chamada “preguiça cognitiva”, reduzindo o esforço de raciocínio e criando uma falsa sensação de competência.
Para evitar esse risco, o documento recomenda metodologias ativas, como aprendizagem baseada em projetos, problemas e situações de trabalho, além de atividades desplugadas, realizadas sem computador, que permitam desenvolver a lógica antes da introdução das ferramentas digitais. Essas estratégias também podem contribuir para contextos marcados por limitações de infraestrutura.
Isotani avalia que os modelos educacionais precisam acompanhar melhor a velocidade das transformações tecnológicas. Na EPT, essa necessidade ganha ainda mais importância: além de dominar conhecimentos específicos, o estudante precisa desenvolver autonomia para compreender mudanças e continuar aprendendo ao longo da trajetória profissional.
Mais do que ensinar uma ferramenta que pode rapidamente se tornar obsoleta, portanto, o desafio é formar estudantes capazes de aprender de maneira contínua.
Como avaliar
A avaliação deve migrar do resultado final de uma prova ou trabalho para o processo de construção e a fundamentação das decisões que levaram às respostas. Podem ser usados portfólios para documentar a evolução do aluno; relatórios analíticos que avaliam raciocínio e ética; e avaliações orais, em que o estudante defende suas escolhas técnicas. Microcredenciais, certificações de curta duração que comprovam o domínio de uma habilidade, validam competências específicas de forma modular e ágil.
Isotani concorda que novas avaliações são necessárias, mas lembra que o primeiro passo é entender se a avaliação exigida hoje é suficiente, insuficiente ou excessiva para o que se espera dos alunos. Ele também considera que a lição de casa, do jeito que é hoje, não faz mais sentido, já que os alunos podem usar a IA para fazerem suas tarefas. O ideal, para o especialista, é se concentrar em trabalhos em grupo focados na resolução de problemas – atividades que desenvolvem habilidades técnicas e sociais dos alunos (as chamadas soft skills).
Professores no centro da transformação
As mudanças propostas reforçam, em vez de diminuir, a importância do professor. Para que a inteligência artificial seja incorporada à educação de maneira crítica e responsável, o docente precisa atuar como mediador da aprendizagem, preparado para ensinar com e sobre IA.
Esse desafio esbarra, porém, em obstáculos já existentes na EPT, como remuneração defasada e, em parte dos casos, ausência de formação específica para as disciplinas lecionadas.
Segundo a pesquisa TIC Educação 2024, 77% dos educadores afirmam que a falta de formação específica dificulta o uso de tecnologias nos processos de ensino e aprendizagem.
O cenário reforça a necessidade de políticas e iniciativas de formação continuada capazes de preparar os professores da Educação Profissional e Tecnológica para as transformações trazidas pela inteligência artificial.
Soft skills se aprendem na prática
Na EPT, desenvolver habilidades socioemocionais depende menos de acrescentar novos conteúdos ao currículo e mais de criar experiências em que essas competências sejam efetivamente mobilizadas.
Projetos de programação, robótica e resolução de problemas reais, por exemplo, exigem que os estudantes trabalhem em equipe, escutem diferentes perspectivas, tomem decisões, lidem com erros e construam novas soluções.
Para Isotani, “hard skills e soft skills se complementam e são essenciais para o desenvolvimento humano”. Ele observa, porém, que as escolas se concentram no conteúdo e pouco no aspecto humanista, e que alunos da EPT passam muito tempo na teoria e pouco tempo na prática e no trabalho com colaboração, comunicação e criatividade.
Karen Kanaan, da Escola 42 São Paulo, afirma que soft skills dizem respeito, antes de tudo, ao ser humano, e que o educador deve atuar como um guia que faz perguntas, em vez de entregar o caminho pronto.
O professor José Moran, doutor pela USP e especialista em metodologias ativas, lembra que cada docente que incentiva mais projetos e colaboração em sua disciplina já inicia uma mudança importante. Para ele, trabalhar com tecnologia vai além das ferramentas, pois envolve entender sua lógica, fazer escolhas e refletir sobre ética.
Na era da IA, essas competências tornam-se ainda mais importantes para a Educação Profissional e Tecnológica. Já não basta preparar jovens para conquistar o primeiro emprego. É preciso formar pessoas capazes de aprender continuamente, colaborar, resolver problemas e atuar de maneira crítica diante das transformações do mundo do trabalho.
A inteligência artificial acelera essa mudança e desafia a EPT a repensar a formação profissional. Para responder a esse novo cenário, currículo, metodologias, avaliação, formação docente e infraestrutura precisam avançar de forma articulada, garantindo que a tecnologia amplie, e não substitua, a capacidade humana de pensar, aprender e transformar.
FAQ
Qual o impacto da IA no mercado de trabalho?
A IA muda o mercado de trabalho ao transformar atividades, funções e competências exigidas dos profissionais. Tarefas repetitivas podem ser automatizadas, enquanto competências como pensamento crítico, a capacidade de resolver problemas, a adaptação e a aprendizagem contínua ganham importância.
O que é empregabilidade?
Empregabilidade é a capacidade de uma pessoa de conquistar, manter e se adaptar às oportunidades de trabalho, mobilizando conhecimentos, habilidades e competências de acordo com as demandas do mercado. Envolve a capacidade de aprender continuamente diante das transformações profissionais.
A EPT aumenta a empregabilidade?
Sim. A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) contribui para a empregabilidade ao desenvolver competências técnicas e práticas alinhadas às demandas do mundo do trabalho, facilitando a inserção e o desenvolvimento profissional.
O que são soft skills?
Soft skills são competências comportamentais e socioemocionais que influenciam a forma como uma pessoa se relaciona, trabalha e resolve problemas. Comunicação, colaboração, criatividade e liderança são alguns exemplos.
O que são hard skills?
Hard skills são competências técnicas e conhecimentos específicos, como programação, idiomas ou análise de dados, adquiridos por estudo e prática.

