Informe Social 2025: inclusão digital como chave para a equidade na educação pública.
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03.11.2026
Tempo de leitura: 11 minutos

IA na escola: como usar a tecnologia sem abrir mão do pensamento crítico

Especialistas defendem que a inteligência artificial deve estar a serviço da aprendizagem, ampliando o raciocínio dos estudantes em vez de substituir seu esforço intelectual

Imagem ilustra a matéria que exemplifica o termo ia na educação

Um episódio ocorrido nos Estados Unidos ilustra o desafio da educação na era da inteligência artificial. O professor Jason Gibson inseriu um comando oculto em um trabalho acadêmico e descobriu que a maioria dos alunos havia copiado o enunciado diretamente para uma ferramenta de IA sem sequer revisar a resposta gerada. O caso ganhou repercussão porque evidenciou um problema cada vez mais comum: usar inteligência artificial não significa necessariamente aprender.

A discussão não é apenas teórica. A nota técnica I.A, Futuro do Trabalho e a Educação Profissional e Tecnológica: uma análise com foco na EPT Tech cita um estudo muito revelador feito com quase mil estudantes. A pesquisa mostrou que o acesso irrestrito ao uso da IA generativa – aquelas ferramentas que criam conteúdos como textos e imagens a partir de comandos feitos pelos usuários –, embora melhore o desempenho imediato em tarefas práticas, levou a queda de 17% no desempenho quando a ferramenta foi removida.

O dado reforça que a fluência aparente dos estudantes em gerar respostas para tarefas escolares não se converte em aprendizagem durável sem mediação intencional. Em um cenário em que o uso da IA já se mostra consolidado entre os jovens, lidar com este dilema se mostra urgente.

O desafio não é proibir, mas orientar

Se o uso da inteligência artificial já faz parte da rotina dos estudantes, compreender seus impactos na aprendizagem passou a ser uma questão central para as escolas.

A pesquisa “O que pensam os estudantes sobre a educação?” registrou que 71% dos estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio usam com frequência a inteligência artificial nas suas rotinas de estudo. O levantamento foi feito pelo Datafolha a pedido de um conjunto de organizações, incluindo a Fundação Telefônica Vivo.

De acordo com o recente resultado do PISA 2025, o Brasil supera a média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) no uso de IA entre estudantes.

Dados da OCDE também mostram que os professores brasileiros usam IA principalmente para produzir — montar planos de aula, ajustar materiais, resumir conteúdo. O uso que poderia transformar a sala de aula, como avaliar e acompanhar o aluno, ainda é minoria. A tecnologia chegou; o método, não.

O desafio, portanto, não é decidir se a IA deve estar na escola — ela já está. A questão é orientar professores e estudantes para que a ferramenta amplie o raciocínio, em vez de substituí-lo.

Para Maria Helena Bravo, doutora em Educação e gerente de Pesquisas do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), a principal questão não é se a IA deve ou não ser utilizada, mas quem está realizando o esforço intelectual da atividade.

“O que diferencia esse uso é a gente pensar em quem efetivamente realiza o trabalho cognitivo de uma determinada tarefa que está sendo proposta”, explica. “Posso usar a inteligência artificial para responder diretamente uma pergunta, ou posso usá-la para formular hipóteses, comparar explicações, identificar erros.”

A solução, para ela, não é proibir a ferramenta, mas repensar a atividade. Em vez de pedir uma resposta pronta, o professor pode propor uma sequência: o aluno produz uma primeira versão sozinho ou em grupo; depois consulta a IA para comparar ou complementar; por fim, volta à própria produção para justificar o que manteve ou mudou.

“Podemos gerar cenários com a IA que exijam a reflexão dos estudantes, sem que eles partam dela do zero e cheguem a um resultado pronto”, resume Maria Helena.

IAs também comentem erros

Um risco conhecido da IA generativa é a alucinação — quando ela apresenta erros com a mesma confiança de uma resposta certa. Os modelos também podem reproduzir vieses raciais e sociais presentes nos dados usados em seu treinamento.

Maria Helena defende ensinar os alunos a desconfiar da fluência do texto. “Pelo fato de a IA ser fluente, isso não significa que sempre dê uma resposta verdadeira. Ela vai dar uma resposta muito bem construída, mas nem sempre correta”, afirma.

Uma estratégia simples é criar, com a turma, um protocolo de verificação para identificar os principais pontos da resposta da IA e buscá-los em fontes confiáveis, como sites jornalísticos reconhecidos, comparando o que a máquina acertou e errou. Vale perguntar, quem aparece nessa resposta? O que ficou de fora? Que ponto de vista foi privilegiado?

Para o filósofo Cristian Arão, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e estudioso dos impactos sociais, políticos e éticos da inteligência artificial, o uso da IA para fugir do estudo não é novidade, mas um sintoma antigo que a tecnologia só tornou mais visível.

“O aluno sempre teve formas de fugir do estudo”, diz. “Antes da IA generativa, já existiam cola, cópia de trabalhos e decoreba na véspera da prova, só para tirar nota e esquecer tudo depois.”

Arão relaciona isso ao que Paulo Freire chamava de “educação bancária”. O professor deposita conteúdo, e a prova apenas verifica se o depósito continua lá, sem garantir aprendizado real. Se a tarefa pode ser resolvida por uma sequência previsível de passos, é natural que a IA a resolva com eficiência. Ou seja, o problema não é a ferramenta, e sim o tipo de tarefa proposta.

Arão também destaca a importância de cultivar o interesse do estudante. Quando o aluno está genuinamente interessado em uma atividade, sua relação com a tecnologia muda. Em vez de buscar respostas prontas, passa a usar a IA como apoio, para traduzir um texto, comparar perspectivas ou pedir que a ferramenta aponte falhas no próprio trabalho. Sem esse interesse, argumenta, dificilmente há aprendizado real, mesmo que o aluno seja aprovado nas provas.

Formação docente deve focar na prática

Os dois entrevistados concordam que a formação docente é central. Para Maria Helena, o que mais faz diferença não são palestras, mas o horário de trabalho pedagógico coletivo dentro da escola, quando professores trocam experiências reais. “A coordenadora, a rede, todos precisam elaborar uma formação que faça o professor pensar numa sequência didática com integração de inteligência artificial, de forma gradativa”, afirma.

Cristian Arão defende apoio prático, sobretudo para professores mais experientes. Ele sugere que escolas contem com profissionais dedicados a fazer a ponte entre docentes e as novas tecnologias, ajudando, como facilitadores, quem precisa trabalhar letramento digital, mas não sabe por onde começar.

Uso adequado muda com a idade

Recentemente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) publicou a primeira resolução brasileira sobre IA na educação. O documento ainda aguarda homologação pelo Ministério da Educação, mas já aponta diretrizes importantes para as escolas.

Uma delas estabelece que, até o 5º ano do Ensino Fundamental, o uso da IA deve ocorrer sempre com mediação do professor, sem acesso livre das crianças às ferramentas.

Isso não significa excluir o tema dos anos iniciais. Pelo contrário. Nessa etapa, a proposta é desenvolver uma compreensão básica sobre como a tecnologia funciona, discutir de que maneira as respostas são construídas e promover atividades que estimulem a curiosidade e o pensamento crítico.

Nos anos finais do Ensino Fundamental, podem ser explorados temas relacionados a dados, algoritmos, privacidade e uso responsável da tecnologia. Já no Ensino Médio, o debate pode avançar para questões mais complexas, como impactos sociais, éticos, ambientais e profissionais da inteligência artificial.

Trata-se de uma progressão semelhante à adotada para outros conteúdos curriculares: os temas ganham profundidade à medida que os estudantes desenvolvem maturidade cognitiva e repertório para analisá-los.

O ponto de convergência entre especialistas, redes de ensino e documentos orientadores é que a inteligência artificial deve estar subordinada aos objetivos de aprendizagem, e não o contrário.

Como sintetiza Maria Helena Bravo, “o problema não é a criança usar a IA para conseguir uma resposta, é que fazemos perguntas ruins há muito tempo, porque não sabíamos como fazer isso de outro jeito”. Mais do que decidir se a inteligência artificial terá espaço na educação, o desafio passa a ser definir qual papel ela ocupará. Afinal, ensinar e aprender continua sendo uma tarefa humana, mesmo quando a tecnologia participa do processo.

Como orientar os estudantes a usarem IA

Ensine a formular bons comandos: mostre aos alunos que um comando genérico gera uma resposta ruim. Peça que, antes de digitar, escrevam no caderno o que exatamente querem saber, com que finalidade e em que formato esperam a resposta. Proponha exercícios em que a turma reescreva um mesmo comando três vezes, cada vez mais detalhado, e compare os resultados. Isso mostra, na prática, que formular a pergunta já é parte do raciocínio.
 
Estimule a comparação de respostas: proponha atividades em que o aluno produza uma versão própria antes de consultar a IA, e só depois compare com o que a ferramenta gerou. Peça também que rode o mesmo comando mais de uma vez em ferramentas diferentes, e discuta com a turma as diferentes repostas. O objetivo é fazer o aluno justificar por que manteve, descartou ou ajustou cada trecho — a comparação é o que evita a cópia automática.
 
Cobre verificação das informações: construa com a turma um protocolo simples de checagem, repetível em qualquer disciplina. Peça que identifiquem os principais pontos da resposta da IA e busquem confirmação em, pelo menos, duas fontes confiáveis antes de aceitar a informação como válida. Reserve um momento da aula para socializar o que foi confirmado e o que não foi — isso transforma a verificação em hábito, não em exceção.
 
Trabalhe a identificação de erros e vieses: proponha perguntas que a turma deve fazer sobre qualquer resposta gerada por IA — quem aparece nessa resposta, quem foi deixado de fora, que ponto de vista foi privilegiado, que evidências sustentam a conclusão. Use exemplos concretos das disciplinas, como um resumo histórico ou uma explicação científica, para mostrar que um texto fluente e bem escrito não é garantia de estar correto ou isento de viés.
 
Exija a citação de fontes: estabeleça como regra que todo trabalho traga a origem das informações utilizadas, incluindo quando a IA foi consultada. Peça que o aluno registre não só o que perguntou, mas também o que fez com a resposta — o que manteve, o que descartou e por quê. Isso reforça a transparência e facilita, inclusive, a avaliação do processo pelo professor.
 
Avalie o processo, não só o produto final: peça rascunhos, hipóteses descartadas e registros das mudanças de ideia ao longo do trabalho, e não apenas o texto ou a tarefa pronta. Um relatório final bem escrito pode ser gerado em segundos; o percurso de construção, não. É observando esse caminho que o professor consegue identificar se o aluno pensou junto com a IA ou apenas repassou o que ela produziu.

FAQ

Qual a diferença entre IA e IA generativa?

Inteligência artificial ou IA são diversas tecnologias capazes de simular habilidades humanas, como aprender, resolver problemas e tomar decisões de forma autônoma. Já a IA generativa é uma tecnologia que cria conteúdos inéditos, como textos, imagens, áudios, vídeos e códigos, respondendo a comandos simples chamados prompts.

O que quer dizer educação bancária?

Educação bancária é um conceito desenvolvido pelo educador Paulo Freire para descrever um modelo de ensino em que o professor transmite conhecimentos prontos e o estudante, de forma passiva, apenas recebe e armazena informações. Freire defendia uma educação baseada no diálogo, na reflexão crítica e na participação ativa dos estudantes.

O que explica a "alucinação" das IAs?

Uma alucinação da IA ocorre quando a ferramenta gera informações incorretas, imprecisas ou inexistentes com aparência de resposta verdadeira. Isso acontece porque as ferramentas produzem respostas com base em padrões aprendidos nos dados, e não verificam automaticamente a veracidade de cada informação.

O Brasil conta com diretrizes para o uso da IA na educação?

Diretrizes para o uso da IA na Educação Básica e no Ensino Superior foram aprovadas em setembro de 2026 pelo Conselho Nacional de Educação. O documento define limites, salvaguardas e níveis de risco para o uso da inteligência artificial, e reforça a importância da supervisão humana em todas as etapas de ensino.


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