O Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, promovido pela Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), completou uma década de debates sobre os rumos da educação e do jornalismo educacional no Brasil. Realizado nos dias 22 e 23 de setembro, em São Paulo, o evento reuniu jornalistas, professores, gestores públicos, pesquisadores e estudantes de diferentes regiões do país, além de convidados internacionais.
A Fundação Telefônica Vivo apoiou mais uma edição da iniciativa, mantendo a parceria construída ao longo dos dez anos de realização do congresso, período em que acompanhou de perto as transformações da educação pública brasileira.
A programação reuniu debates sobre alguns dos principais desafios atuais da educação, incluindo inteligência artificial, alfabetização, os desafios da implementação do ECA Digital, saúde mental e o uso de plataformas educacionais nas redes de ensino. Também houve espaço para discussões sobre políticas públicas e financiamento da educação.
Alfabetização, leitura e IA
Um dos pontos altos do congresso foi a mesa que reuniu as professoras Paola Uccelli e Catherine Snow, da Harvard School of Education, para discutir a relação entre leitura, escrita e a transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental.
Catherine Snow contou que sua trajetória de pesquisa começou com o estudo da linguagem na primeira infância e depois passou para adolescentes com dificuldades graves de compreensão leitora. Para ela, o problema desses jovens tinha uma raiz clara. “O que esses adolescentes estavam precisando é exatamente o que eles poderiam ter recebido na pré-escola: muita linguagem e muito conhecimento de mundo”, comentou.
Paola Uccelli destacou que diferenças de desempenho em leitura também estão associadas à desigualdade econômica e social. “Em contextos de elite, as crianças têm voz e discutem coisas interessantes para suas vidas. Em outros contextos, estamos silenciando as crianças e trabalhando apenas em letras e sons”, afirmou.
Ela reforçou essa relação ao explicar a diferença entre decodificar um texto e de fato compreendê-lo: “A decodificação — letras, sons, reconhecimento de palavras — pode se tornar automática. Mas a compreensão não pode se tornar automática. Para compreender, você precisa de um conhecimento muito mais amplo do mundo e da linguagem.”
Paola alertou para os efeitos da inteligência artificial sobre a aprendizagem, defendendo que a tecnologia não reduz a importância da linguagem, mas a torna ainda mais necessária. “Quem se beneficia mais da IA hoje? São as crianças que conseguem usar melhor a linguagem, que sabem ler, entender e questionar o texto que a IA entrega”, enfatizou a especialista.
ECA Digital: proteção e participação de crianças e adolescentes
Outro eixo importante da programação foi o debate sobre os direitos de crianças e adolescentes no ambiente digital. A recente Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, foi tema de uma mesa dedicada aos desafios de implementação da legislação e ao papel do jornalismo na cobertura do assunto.
Considerada um marco para a proteção da infância e da adolescência na internet, a nova legislação busca enfrentar situações de violência, exposição indevida e riscos presentes nas plataformas digitais. Ao mesmo tempo, especialistas defenderam que as medidas de proteção não podem resultar em novas formas de exclusão digital.
O debate reuniu profissionais de diferentes áreas de atuação, incluindo representantes da defesa dos direitos da infância e especialistas que acompanham casos relacionados à violência digital no sistema de Justiça.
Entre os principais pontos discutidos estiveram os desafios para transformar as diretrizes previstas na lei em ações concretas no ambiente escolar, bem como a necessidade de acompanhar seus impactos sobre a participação de estudantes em redes sociais, aplicativos e outras plataformas digitais.
Os debatedores também ressaltaram a importância de construir políticas que conciliem segurança, educação digital e protagonismo juvenil, reconhecendo que a presença de crianças e adolescentes nos ambientes online faz parte da realidade contemporânea.
Plataformização da educação
Outra mesa que colocou a tecnologia no centro da discussão tratou da presença cada vez maior de plataformas digitais nas redes públicas de ensino. O debate reuniu Camila Wasserman, consultora em tecnologia educacional; Éverton de Almeida, professor da rede pública catarinense e doutor em educação; e Juliane Vais, estudante secundarista do Paraná, que trouxeram perspectivas complementares sobre o tema.
A estudante relatou que o uso obrigatório de plataformas em sua rede de ensino transformou parte da rotina escolar em uma sucessão de tarefas cumpridas apenas para obter pontuação, sem espaço para reflexão ou autonomia. Ela também chamou atenção para a desigualdade entre escolas. Como nem todas as unidades contam com computadores ou internet adequados, muitos estudantes acabam realizando as atividades em seus próprios celulares, em casa, fora do horário escolar.
O professor da rede pública destacou que a adoção dessas ferramentas costuma vir acompanhada de discursos que questionam a preparação dos professores, além de ampliar o controle sobre o trabalho docente, com materiais e planos de aula já prontos, elaborados fora da escola. Para ele, é fundamental que as redes de ensino garantam infraestrutura adequada, além de formação contínua, antes de tornar obrigatório o uso desse tipo de ferramenta.
Já a especialista em tecnologia educacional defendeu que a tecnologia pode apoiar a aprendizagem, desde que sua adoção parta de um diagnóstico real das necessidades de cada escola, com escuta de professores e estudantes, testes de infraestrutura e formação pedagógica alinhada à BNCC Computação. Para ela, a tecnologia deve funcionar como apoio ao trabalho do professor, nunca como substituta dele, e sua adoção precisa envolver decisões coletivas, e não apenas escolhas administrativas.
A discussão reforçou um dos consensos presentes em diferentes mesas do congresso: para que a tecnologia contribua efetivamente para a aprendizagem, é necessário investir em infraestrutura adequada, formação docente e desenvolvimento profissional contínuo dos educadores.
Um debate sobre educação, tecnologia e direitos
Ao longo dos dois dias de programação, o congresso evidenciou que a construção de uma educação mais equitativa passa pela articulação entre inovação, inclusão, formação docente e garantia de direitos.
Dos debates sobre alfabetização e inteligência artificial às discussões sobre proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital e uso de plataformas educacionais, especialistas reforçaram que a tecnologia deve estar a serviço da aprendizagem e do desenvolvimento integral dos estudantes.
Também ficou evidente que o potencial da tecnologia na educação depende de condições concretas para sua implementação, incluindo infraestrutura adequada, formação de educadores e políticas públicas capazes de reduzir desigualdades e ampliar oportunidades de aprendizagem para todos.
Em sua 10ª edição, o Congresso Internacional de Jornalismo de Educação reafirmou a importância de promover reflexões qualificadas sobre os desafios da educação contemporânea e os caminhos para preparar crianças e jovens para um mundo em constante transformação.
Perguntas Frequentes
Educação e inclusão digital estão diretamente ligadas, já que a escola é espaço fundamental para que o uso das tecnologias ganhe significado, passando a ser de fato ferramenta de cidadania, autonomia e participação social.
A alfabetização é o processo de aprender a reconhecer, compreender e usar as letras e os sons da escrita, ou seja, dominar a técnica de ler e escrever. Já o letramento vai além: é a capacidade de usar a leitura e a escrita em situações reais do dia a dia.
Sim, a Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, entrou em vigor no dia 17 de março de 2026. Ela cria parâmetros de proteção das crianças em ambientes virtuais, incluindo redes sociais, jogos eletrônicos, aplicativos, lojas de apps e plataformas de vídeo. A fiscalização é feita pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
As plataformas digitais de aprendizagem são ambientes virtuais que reúnem conteúdos pedagógicos, ferramentas de comunicação e avaliação, facilitando a interação entre alunos e professores, e apoiando o processo educativo.

