Os resultados mais recentes das principais avaliações educacionais do país e do mundo ajudam a compreender um dos maiores desafios da educação brasileira: garantir que os avanços na aprendizagem em Matemática observados nos primeiros anos de escolarização se mantenham ao longo da trajetória dos estudantes.
Tanto o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) quanto o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) indicam que o Brasil tem avançado nos anos iniciais do Ensino Fundamental, mas encontra dificuldades para sustentar esse progresso no Fundamental II e no Ensino Médio.
Mais do que um retrato do presente, esses resultados oferecem pistas importantes sobre quais competências precisam ser fortalecidas e quais estratégias podem contribuir para uma aprendizagem mais consistente e equitativa. Eles também reforçam a necessidade de investir em ações que apoiem professores e estudantes ao longo de toda a Educação Básica.
Ernesto Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), explica que muitos estudantes chegam ao Ensino Médio com uma base construída de forma incompleta nos anos iniciais ou na transição para o 7º ano, quando surgem novos conceitos e, mais adiante, equações do segundo grau. A isso se somam a divisão do conhecimento por disciplinas, as questões próprias da adolescência e os desafios de permanência na escola.
A Matemática possui uma característica particular: a aprendizagem é cumulativa. Conceitos relacionados a números, operações, proporcionalidade e resolução de problemas constituem a base para habilidades mais complexas, como álgebra, funções, estatística e probabilidade. Quando essa base não é construída de forma sólida, as dificuldades tendem a se ampliar ao longo da trajetória escolar.
Nesse cenário, a recomposição das aprendizagens permanece como um desafio central para a educação pública brasileira. Como resume Faria, “não se trata apenas de avançar, mas de garantir uma base sólida para as etapas seguintes”.
De acordo com o especialista, o avanço depende de quatro eixos que se apoiam mutuamente: formação, currículo, materiais didáticos e avaliação. Em todos eles, a tecnologia pode ser aliada da inovação, sempre que dirigida por objetivos pedagógicos claros.
É nessa perspectiva que iniciativas como o Matemática ProFuturo ganham relevância. Desenvolvido pelo ProFuturo, programa global de educação da Fundação Telefônica Vivo e da Fundação “la Caixa”, o projeto utiliza recursos digitais para apoiar professores e fortalecer a aprendizagem matemática dos estudantes. A iniciativa busca desenvolver competências previstas pela BNCC e tornar o aprendizado mais significativo, partindo do princípio de que a tecnologia gera maior impacto quando está integrada ao currículo e alinhada a objetivos pedagógicos claros.
Só assim é possível garantir que os estudantes com maiores defasagens desenvolvam habilidades fundamentais, revertendo desigualdades que historicamente marcam o ensino-aprendizagem da Matemática no Brasil.
O retrato da aprendizagem em Matemática no Brasil
Os resultados do Pisa 2025 mostram que o desempenho em Matemática dos estudantes brasileiros de 15 anos permaneceu praticamente estável em relação à década anterior. A média do país foi de 377 pontos.
Realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Pisa permite uma comparação internacional dos desempenhos. Nesta edição, apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram ao menos o nível 2, patamar básico para continuar aprendendo e lidar com situações cotidianas, enquanto a média dos países da OCDE foi de 65%.
Na prática, 7 em cada 10 jovens brasileiros ficaram abaixo do nível esperado, o que pode dificultar tarefas como comparar preços, entender os juros em uma compra parcelada ou converter valores em outra moeda.
Já os resultados do Saeb 2025 mostram que a aprendizagem em Matemática nos anos iniciais do Ensino Fundamental mudou de patamar nos últimos anos. O desempenho médio dos alunos da rede pública brasileira passou do nível 4 para o nível 5, o mais alto na escala de aprendizagens da avaliação.
No Fundamental II e no Ensino Médio, a educação pública retomou os resultados observados antes da pandemia, recuperando parte das perdas provocadas pela Covid-19.
Apesar da recuperação observada após a pandemia, os resultados permanecem praticamente estagnados nas etapas finais da educação básica. Isso significa que muitos estudantes ainda não dominam habilidades essenciais para a vida cotidiana e para a continuidade dos estudos.
Onde estão as principais lacunas de aprendizagem?
Nos anos iniciais, os estudantes que alcançam o nível 5 conseguem localizar um ponto entre outros dois em uma figura geométrica, reconhecer a planificação de um cubo, converter valores em moedas para cédulas e estimar a altura de um objeto com uma régua.
A média de 227 pontos alcançada pelas crianças brasileiras está apenas um pouco acima do patamar considerado adequado para essa etapa, de 225 pontos. Isso indica que, apesar dos avanços, ainda é necessário ampliar o número de estudantes que desenvolvem essas competências.
Nos anos finais do Fundamental, o desempenho dos estudantes da rede pública permanece no nível 3. Isso significa que eles conseguem associar dados de uma tabela a um gráfico, e localizam números inteiros positivos em uma reta numérica.
Essas habilidades sustentam conteúdos posteriores, como proporcionalidade, álgebra, geometria, estatística e probabilidade. Mas outros conhecimentos básicos não fazem parte do repertório destes alunos, como resolver problemas de porcentagem com números inteiros ou calcular o perímetro de um retângulo.
No Ensino Médio, a maioria dos estudantes está no nível 2. Nesse patamar, eles localizam coordenadas em um plano cartesiano, identificam em que ponto o gráfico de uma função cruza o zero, calculam o valor de uma função a partir da fórmula e resolvem sequências simples de progressão aritmética. Também conseguem associar um gráfico de pizza pronto às informações que ele representa.
No entanto, eles ainda não sabem construir esse gráfico nem resolver problemas de regra de três, habilidades que são dominadas apenas por alunos que alcançam o nível 3 de aprendizagem. Muito menos, conseguem resolver sistemas de três equações ou problemas que envolvem probabilidade, questões que apenas estudantes que estão no nível 5 conseguem responder.
Quando a Matemática faz sentido para o estudante
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) oferece um bom norte sobre as competências e habilidades matemáticas esperadas para cada etapa de ensino e destaca a progressividade entre elas. No entanto, é preciso acompanhar como ela se concretiza nas salas de aula.
Ernesto Faria, do IEDE, lembra que formação e currículo devem estar alinhados às avaliações e estabelecer expectativas de aprendizagem exigentes já nos anos iniciais. Não se trata de algo que começa apenas no 3º ano, depois da alfabetização. O engajamento com a matemática precisa começar cedo, apresentando a disciplina como algo positivo e identificando as estratégias que constroem a base da numeracia, que é a capacidade de lidar com números e informações matemáticas no dia a dia.
Uma das estratégias para enfrentar esse desafio é aproximar a disciplina da vida dos estudantes. Quando a matemática é apresentada apenas como um conjunto de operações a serem memorizadas, o aluno tem dificuldade para entender sua utilidade.
O diretor-geral do IEDE dá o exemplo de uma pergunta aparentemente simples: qual região do mundo tem a maior área florestal? A resposta depende do que se quer saber, se é a área total ou a proporção em relação ao território de cada país.
Discutir essas possibilidades ensina os alunos a compreender o problema, definir o objetivo e escolher a estratégia mais adequada. “Os estudantes precisam entender o uso da matemática”, destaca Faria. Compreender a aplicação não dispensa o domínio dos procedimentos, mas dá sentido a eles.
Tecnologia como aliada da aprendizagem Matemática
O uso intencional da tecnologia nas aulas de Matemática também pode contribuir para aumentar o engajamento e apoiar a aprendizagem dos estudantes. No entanto, os resultados dependem da forma como essas ferramentas são incorporadas às práticas pedagógicas.
Uma pesquisa da Fundação Telefônica Vivo com 361 educadores dos estados de Sergipe, Pernambuco e Mato Grosso do Sul que utilizam a plataforma Matemática ProFuturo identificou percepções positivas relacionadas ao uso da ferramenta em sala de aula. Entre os participantes, 201 observaram maior interesse dos estudantes, 182 perceberam melhora na aprendizagem e 61 destacaram a facilidade de acompanhar o desempenho individual dos alunos.
Os próprios resultados do Pisa reforçam que o acesso à tecnologia, isoladamente, não garante melhores resultados educacionais.
Pela primeira vez, a avaliação incluiu um domínio voltado à aprendizagem no mundo digital, que analisa a capacidade dos estudantes de utilizar ferramentas computacionais para investigar problemas, interpretar dados e construir conhecimento. As evidências mostram que recursos digitais geram mais impacto quando estão inseridos em propostas pedagógicas que estimulam o pensamento crítico, a argumentação e a resolução de problemas.
Nesse processo, o papel do professor permanece central. É ele quem define objetivos, seleciona estratégias, acompanha os avanços dos estudantes e identifica as lacunas que precisam ser trabalhadas.
Mais do que revelar desafios, os resultados do Saeb e do Pisa ajudam a identificar caminhos para fortalecer a aprendizagem matemática ao longo de toda a trajetória escolar. Com formação docente, uso pedagógico da tecnologia e estratégias voltadas à recomposição das aprendizagens, é possível transformar evidências em ações concretas e ampliar as oportunidades para que mais estudantes desenvolvam competências matemáticas essenciais para a vida, para os estudos e para o mundo do trabalho.
FAQ
O que é o SAEB?
O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) é uma avaliação realizada pelo Inep para diagnosticar a qualidade da educação básica no Brasil. Estudantes de diferentes etapas de ensino realizam uma prova a cada dois anos. Os resultados geram informações sobre aprendizagem e fatores relacionados ao contexto educacional, contribuindo para orientar políticas públicas.
Saeb e Ideb são a mesma coisa?
Não. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) são indicadores diferentes, mas relacionados. O Saeb é uma avaliação que mede o desempenho dos estudantes. Já o Ideb combina dados do Saeb com informações sobre aprovação escolar para acompanhar a qualidade da educação básica.
Como é feita a avaliação do PISA?
O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) busca verificar como os jovens aplicam o que aprenderam para enfrentar situações do cotidiano e desafios do mundo real. A avaliação é realizada pela OCDE a cada três anos, e testa conhecimentos e habilidades de estudantes de 15 anos em Leitura, Matemática e Ciências.
O que é numeracia?
Numeracia é a capacidade de compreender, interpretar e usar conhecimentos matemáticos em situações do cotidiano. É fundamental para a vida pessoal, acadêmica e profissional.
Quais são as principais competências matemáticas? As principais competências matemáticas incluem compreender números e operações, resolver problemas, reconhecer padrões, interpretar gráficos e dados, medir grandezas e compreender relações espaciais. Também envolvem raciocínio lógico, pensamento crítico e capacidade de aplicar conhecimentos matemáticos em situações do cotidiano.

