Avanços tecnológicos cada vez mais acelerados, redes sociais onipresentes e o rápido desenvolvimento da inteligência artificial desafiam a escola todos os dias. Nesse cenário de grandes transformações, uma figura assume o papel central na construção de uma escola capaz de favorecer a aprendizagem, a convivência e o desenvolvimento de todos os estudantes, ao mesmo tempo em que supera dificuldades e aproveita as oportunidades trazidas pelas novas tecnologias: o diretor.
O papel fundamental da direção escolar para a concretização das políticas públicas de inclusão digital por meio da educação foi reforçado com a publicação do Referencial para Qualidade e Equidade da Gestão Escolar, lançado pelo Ministério da Educação (MEC) em 1º de julho deste ano.
Entre as seis dimensões de atuação incluídas no documento está a Gestão de Dados e Transformação Digital. Isso significa que lidar com a introdução das tecnologias da informação na escola, de maneira responsável, ética, centrada no humano e voltada para a melhoria da aprendizagem dos alunos, é uma das áreas estratégicas do trabalho do diretor na escola. (Conheça as seis dimensões no box ao final do texto.)
O Referencial é a primeira política do MEC a trazer uma base nacional para dimensões de atuação do diretor, e expectativas para suas competências e valores. Para Leonardo Pedreira, gerente de Articulação Política do Centro Lemann, é um passo importante para o Brasil lidar com o que ele define como “um paradoxo de liderança”. “Todas as pesquisas acadêmicas indicam que o diretor é o segundo elemento mais importante para garantir a qualidade para garantir qualidade e equidade na educação, ficando atrás apenas do professor em termos de impacto”, afirma Pedreira.
Ainda assim, de acordo com dados das duas últimas edições do Censo Escolar, apenas metade dos gestores escolares são escolhidos por critérios técnicos e só 24% possuem curso específico em gestão escolar com mais de 80 horas. “O Referencial acaba sendo uma ponte entre a necessidade de você ter a qualificação do papel dos diretores escolares e as políticas que vão fazer isso acontecer na ponta”, diz o gerente do Centro Lemann.
No contexto das políticas voltadas à educação digital, ao incluir a condução da transformação como responsabilidade dos diretores, o documento “amarra” diversos temas abordados por outras iniciativas e pela legislação vigente, como o direito à privacidade e a proteção de dados de docentes e estudantes, o uso da inteligência artificial na educação e a implementação da BNCC Computação.
O que é responsabilidade dos diretores na transformação digital
Para traduzir a Gestão de Dados e Transformação Digital em responsabilidades e entregas mais específicas, o Referencial para Qualidade e Equidade da Gestão Escolar definiu quatro subdimensões:
- Uso estratégico de dados e governança da informação;
- Integração de tecnologias digitais à gestão escolar;
- Transformação digital a serviço da aprendizagem;
- Governança e uso responsável da IA.
De maneira resumida, o documento destaca que, para assumirem estas responsabilidades, se espera dos diretores que saibam utilizar dados e evidências educacionais para subsidiar o planejamento, o monitoramento e a tomada de decisão. Para isso, é preciso que entendam como utilizar as dados e tecnologias para tomar decisões estratégicas, e observar questões relacionadas à privacidade e segurança digital.
São eles, também, que precisam conduzir a incorporação de tecnologias digitais e da inteligência artificial na escola para qualificar os processos de administração, a gestão pedagógica e as práticas docentes, melhorando a aprendizagem dos alunos.
Aqui, o Referencial faz uma ponte importante para o momento atual da educação brasileira, em que a conclusão dos processos de adequação curricular à BNCC Computação coloca como prioridade a implementação das diretrizes. Ao descrever a responsabilidade de lidar com a incorporação das tecnologias ao processo de aprendizagem, com docentes orientados e estudantes desenvolvendo letramento digital crítico, o documento ajuda a guiar diretores nesta tarefa.
O dia a dia dos gestores na transformação digital
Na prática, ser responsável pela Gestão de Dados e Transformação Digital significa:
● lidar com as rotinas de coleta e análise de dados, seja para a administração interna ou para abastecer secretarias e o ministério com informações;
● usar as tecnologias digitais para tornar a administração mais eficaz e eficiente;
● manter os sistemas de informação alimentados regularmente e a comunicação digital com a comunidade escolar organizada;
● organizar e realizar iniciativas e ações para que a equipe como um todo, sejam os professores ou os profissionais de funções administrativas, desenvolvam competências digitais;
● liderar a incorporação responsável e pedagogicamente significativa de novas tecnologias e da IA aos processos de ensino-aprendizagem, garantindo que os docentes tenham a formação, a orientação e os recursos necessários para isso;
● garantir que o uso da inteligência artificial na escola tenha supervisão humana e observe a proteção dos dados de professores e estudantes.
Mais que executores, lideranças
Leonardo Pedreira, gerente de Articulação Política do Centro Lemann, destaca que são muitas as expectativas em torno do trabalho dos diretores de escola nas diferentes dimensões incluídas no referencial, mas ressalta que o documento coloca estes profissionais da educação no papel de liderança.
“Não é esperado que o diretor faça tudo o que está descrito no Referencial, mas ele é responsável por garantir que tudo o que está lá esteja sendo feito”, afirma. “Vamos imaginar que um diretor tem um coordenador pedagógico que é super conectado nas tecnologias para aprendizagem. Então, ele pode delegar a liderança dessa frente para este coordenador e seguir acompanhando.”
A importância da formação dos diretores
Ao reforçar a perspectiva da responsabilização das lideranças escolares, o Referencial evidencia também a necessidade de se reforçar a formação dos gestores.
Por exemplo: para dar suporte aos professores na implementação da BNCC Computação, o diretor precisa compreender as diretrizes dos referenciais curriculares, e ter as competências digitais necessárias para poder, junto com os docentes, avaliar o uso de ferramentas digitais. Tudo isso são conhecimentos e habilidades que podem ser desenvolvidos por uma política de formação voltada à dimensão da Gestão da Transformação Digital.
Neste sentido, o MEC deu um primeiro passo ao criar um repositório de Gestão Escolar em seu site. Nele, é possível encontrar a íntegra do Referencial, um sumário executivo que guia a compreensão do documento, as legislações e regulações referentes a cada uma das dimensões abordadas, além de cursos online, disponíveis na Plataforma Avamec.
Dentro da dimensão de Gestão de Dados e Transformação Digital, é possível encontrar os cursos “IA: uso criativo para transformar a aprendizagem”, “Ciência de Dados e Visualização da Informação na Educação para Gestores” e “Competências Digitais para Potencializar a Gestão Escolar e Promover Inovação“, todos desenvolvidos pelo projeto Escolas Conectadas, que faz parte do ProFuturo, programa global de educação da Fundação Telefônica Vivo e da Fundação Bancária “la Caixa”.
Todo este esforço de formação reforça, novamente, o papel central dos diretores de escola na adoção ética e centrada no humano das tecnologias no ambiente escolar. E, mais que isso, os define como maestros da transformação da educação para que todos os estudantes tenham o direito de desenvolver competências digitais e serem protagonistas em uma sociedade cada vez mais marcada pelo uso intensivo das tecnologias da informação.
Referencial é guia inédito para diretores e para as Secretarias de Educação
O Referencial para Qualidade e Equidade da Gestão Escolar, lançado pelo Ministério da Educação (MEC), cria um marco comum sobre a gestão escolar, estabelecendo valores, princípios, papéis e responsabilidades, e competências dos diretores escolares.
Uma das principais novidades do documento é estabelecer seis dimensões da atuação da direção escolar:
● Governança e Planejamento Escolar
● Gestão Pedagógica
● Liderança e Desenvolvimento de Pessoas
● Gestão Democrática
● Gestão Administrativo-Financeira
● Gestão de Dados e Transformação Digital
Neste sentido, o Referencial funciona, para os profissionais que já estão na direção, como um guia de autoavaliação, permitindo que enxerguem o que já fazem e onde precisam melhorar ou buscar apoio.
O documento cumpre outro papel importante ao direcionar o trabalho das Secretarias de Educação na formulação de políticas locais voltadas às lideranças escolares em cinco grandes áreas: seleção, formação, marco de gestão, acompanhamento e avaliação.
“O Referencial convida o secretário a refletir sobre essas cinco políticas de gestão, implementando aquelas que não existem e revisando aquelas que existem frente a esse conjunto de expectativas, competências e valores que ele coloca”, afirma Leonardo Pedreira, gerente de Articulação Política do Centro Lemann.
Perguntas Frequentes
Para o MEC, gestão escolar é “a organização e o funcionamento da escola pública quanto aos aspectos políticos, administrativos, financeiros, tecnológicos, culturais, artísticos e pedagógicos”.
O Referencial para a Qualidade e Equidade na Gestão Escolar propõe uma visão compartilhada sobre o papel dos diretores de escola.
Inteligência artificial ou IA são diversas tecnologias capazes de simular habilidades humanas, como aprender, raciocinar, resolver problemas e tomar decisões de forma autônoma.
Intencionalidade pedagógica é o planejamento consciente do professor ao integrar tecnologias digitais no processo de ensino. Significa usar recursos tecnológicos com objetivos claros de aprendizagem.
O diretor escolar tem o papel de liderar e apoiar a implementação da BNCC Computação na escola, garantindo que as diretrizes sejam incorporadas aos processos de ensino e aprendizagem. Também cabe à direção criar condições para que os professores tenham formação, orientação e recursos necessários.
É o responsável por liderar a transformação digital de forma ética, responsável e centrada na aprendizagem. Isso inclui usar dados e evidências para apoiar o planejamento e a tomada de decisões, integrar tecnologias digitais à gestão escolar, promover seu uso pedagógico e garantir a adoção responsável da inteligência artificial.

