Recomendações para Formação Docente em Inteligência Artificial (IA) na Educação Básica

Notícias

13.03.2023
Tempo de leitura: 5 minutos

Professora usa programação para valorizar personalidades negras e indígenas de Porto Alegre

Articulando educação antirracista e tecnologia, Nelza Jaqueline Franco está engajando estudantes na recuperação da memória histórica de personalidades negras e indígenas da cidade

A imagem mostra a professora Nelza Jaqueline Franco com dois de seus alunos do 4º ano da EMEF Afonso Guerreiro Lima, em Porto Alegre. Ela está sentada na ponta da esquerda, o aluno que está no meio está mexendo no teclado e o aluno da ponta direita está perto do mouse. Os três olham atentamente para a tela do computador com o jogo Scratch.

A falta de materiais didáticos com as temáticas sobre negras e indígenas foi ponto de partida para a professora de informática Nelza Jaqueline Franco, de 43 anos, criar um plano de aula que articula educação antirracista e programação. Com seus alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Afonso Guerreiro Lima, em Porto Alegre (RS), ela desenvolveu a atividade “Memórias e personalidades negras nos jogos digitais”.

Os estudantes utilizaram pesquisa e programação para criar um jogo de labirinto em Scratch. A proposta era resgatar o legado de personalidades negras e indígenas que deixaram sua marca na cultura local e na história do nosso país.

A primeira versão do plano de aula foi realizada em 2016, com três turmas do 4º ano do fundamental. Em duas de suas turmas, Nelza orientou os estudantes a pesquisarem a biografia de personalidades negras de Porto Alegre.

Entre as personalidades negras e indígenas levantadas estavam o poeta Oliveira Silveira, um dos líderes da campanha pelo reconhecimento do Dia da Consciência Negra, Lupicínio Rodrigues, um dos principais compositores brasileiros de marchinhas de carnaval, e Deise Nunes, a primeira mulher negra eleita Miss Brasil, em 1986.

Um dos grupos de alunos já tinha aulas de programação em Scratch com a professora há algum tempo. Sendo assim, ficou responsável por desenvolver um jogo digital para valorizar a memória e o legado das personalidades pesquisadas.

“Eles trabalharam com lógica e pensamento computacional para criar um jogo de labirinto. O jogador tem acesso às biografias escritas pelos alunos conforme anda com o cursor pela tela e esbarra em obstáculos. Foi um estudo compartilhado que gerou não só um jogo divertido, mas também um banco de dados sobre lideranças e acontecimentos das populações negras locais”, destaca Nelza.

Memória de personalidades negras e indígenas da comunidade

Neste ano, a professora vai ampliar a atividade, incluindo a memória e a história de povos marginalizados que dão as características multiculturais do bairro onde a escola está localizada, Lomba do Pinheiro. A região integra a periferia de Porto Alegre e é ocupada majoritariamente por pessoas negras, além de indígenas das etnias Guarani, Charrua e Kaingang.

Em suas aulas, a professora Nelza Jaqueline Franco alia educação antirracista, pesquisa e programação

 “A ideia é continuar usando a tecnologia para desenvolver objetos digitais de aprendizagem com a temática negra e indígena. Vamos fazer entrevistas com lideranças comunitárias, visita a museus do bairro, conversas com professores de História de outras escolas do entorno. O material produzido será trabalhado em animações e jogos digitais de programação Scratch, além de podcasts e uma espécie de ‘YouTubeteca’ para alguns dos vídeos gravados pelos próprios alunos durante a investigação”, explica a professora.

Outra novidade é que o projeto será realizado no contraturno das aulas, destinado a alunos do 4º ao 9º ano interessados em aprofundar os estudos sobre história e cultura negras e indígenas locais, além das personalidades. Dessa forma, a atividade deve complementar os conteúdos curriculares trabalhados nas disciplinas regulares. O projeto acontecerá ao longo de todo o ano e será conduzido pelo coletivo É Tempo de Aquilombar, criado por Nelza em 2019.

Educação antirracista como política municipal

Na EMEF Afonso Guerreiro Lima, Nelza Franco é uma das professoras responsáveis por auxiliar os demais professores a incluir inovação e educação antirracista em seus planejamentos pedagógicos. Embora já atuasse dessa forma desde que chegou na escola, ela agora tem respaldo municipal.

Em 2023, a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED-POA) começou a cumprir resolução do Conselho Municipal de Educação que determinou a construção de espaços voltados para a aplicação das Leis 10.639 e 11.645, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nos currículos escolares.

“Faz parte da resolução a implantação dos espaços educativos afro-brasileiros e indígenas (EABIs) em todas as escolas do município. Mas essa construção vem de muita luta do movimento negro. Nós, professores antirracistas, ficamos muito felizes de conquistar esse espaço”, diz Nelza, enfatizando que  a escola é um micro espaço de nossa sociedade, que é marcada pelo racismo estrutural. “Por isso, a escola tem a obrigação de atuar pela promoção da equidade racial e combate ao racismo.”

Leia também: Infográfico do Porvir, parceiro da Fundação Telefônica Vivo, mostra os avanços e os desafios da Lei 10.639 nas últimas duas décadas

Antirracismo e tecnologia

O plano de aula Memórias e personalidades negras nos jogos digitais, criado por Nelza, integra o repositório de práticas pedagógicas e tecnologias no combate ao racismo e discriminação recém-lançado pelo projeto Tecla, iniciativa da organização social Ação Educativa para articulação de políticas das tecnologias digitais de informação e comunicação.

O repositório apresenta planos de aulas de combate ao racismo criados por diferentes educadores, nos mais diversos territórios e contextos do Brasil. Vale conferir o material para inspirar novas ações pedagógicas.

A Fundação Telefônica Vivo disponibiliza gratuitamente o livro digital Escola para Todos: promovendo uma educação antirracista. A publicação traz planos de aulas comentados que auxiliam professores a trabalhar a temática na sala de aula. O material é derivado do curso homônimo, disponível desde 2014 na plataforma de formação continuada de professores, Escolas Conectadas.


Outras Notícias

Tecnologias assistivas na educação: o que gestores e professores precisam saber

14/04/2026

Tecnologias assistivas na educação: o que gestores e professores precisam saber

Confira 10 ferramentas gratuitas e acessíveis que podem transformar a rotina escolar de milhões de estudantes com deficiência matriculados na rede pública

IA na educação: como a inteligência artificial pode se tornar aliada da aprendizagem

06/04/2026

IA na educação: como a inteligência artificial pode se tornar aliada da aprendizagem

Relatório da OCDE reforça que o uso pedagógico intencional da IA é essencial para fortalecer a aprendizagem e evitar que a tecnologia se torne apenas um atalho para respostas prontas

Tecnologias educacionais: 10 aplicativos gratuitos para usar em sala de aula

30/03/2026

Tecnologias educacionais: 10 aplicativos gratuitos para usar em sala de aula

Com intencionalidade pedagógica, ferramentas digitais gratuitas podem fortalecer o aprendizado, promover o protagonismo estudantil e desenvolver competências digitais essenciais

Lia Glaz: inclusão digital vai além do acesso e é chave para a equidade na educação

27/03/2026

Lia Glaz: inclusão digital vai além do acesso e é chave para a equidade na educação

No Dia Nacional da Inclusão Digital, a diretora-presidente da Fundação Telefônica Vivo reforça que a equidade na aprendizagem depende da integração entre currículo, formação docente e infraestrutura

Como a tecnologia fortalece a solidariedade e a cidadania nas escolas

19/03/2026

Como a tecnologia fortalece a solidariedade e a cidadania nas escolas

Projetos solidários potencializados pela cultura digital desenvolvem competências socioemocionais, promovem inclusão, estreitam vínculos comunitários e incentivam uma cultura de cidadania ativa

Jogos de tabuleiro podem melhorar em até 76% o desempenho em matemática

13/03/2026

Jogos de tabuleiro podem melhorar em até 76% o desempenho em matemática

Pesquisa internacional mostra que apenas 10 minutos de brincadeira com números já fortalecem habilidades matemáticas nos anos iniciais — abordagem que também dialoga com soluções de tecnologia educacional