Nota técnica "Educar na era da Inteligência Artifical: Caminhos para a BNCC Computação"

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06.02.2019
Tempo de leitura: 5 minutos

Aplicativo prevê dificuldades de aprendizagem em crianças

Pesquisadora e doutora americana coordena desenvolvimento de plataforma que identifica crianças em risco de apresentar dificuldades para aprender a ler

O pássaro Pip, um dos personagens do aplicativo que identifica crianças em risco de desenvolver dificuldades de aprendizagem, é um tucano que tem bico de três cores: amarelo, laranja e vermelho.

Vergonha, inadequação, desamparo e até mesmo depressão estão entre as barreiras e os sentimentos enfrentados por crianças com dificuldade de aprendizagem durante a alfabetização. Segundo especialistas, mais que lidar com a autopercepção do fracasso, essas crianças acabam correndo maior risco de evasão escolar no Ensino Médio e, por consequência, ficam de fora do Ensino Superior. E se a tecnologia ajudasse a identificar quem está suscetível a tais dificuldades antes que elas se manifestem?

É exatamente esse conceito que pesquisadores do Innovation & Digital Health Accelerator (IDHA), uma aceleradora de inovação dentro do Hospital Infantil de Boston, nos Estados Unidos, estão seguindo para desenvolver um aplicativo que ajude educadores, professores e profissionais da saúde a identificar crianças predispostas a apresentar dificuldades de aprendizagem, como a dislexia e outras deficiências significativas de leitura.

“Estamos desenvolvendo um rastreador de risco de dislexia via tablet. A plataforma de rastreamento dá respostas baseadas em evidências armazenadas nela”, resume a doutora e pesquisadora Nadine Gaab, que atua junto ao IDHA e integra o corpo docente da Escola de Medicina e da Escola de Educação da Universidade de Harvard.

Apesar do aplicativo não focar apenas na dislexia, é importante ter em conta que esta é uma dificuldade comum de aprendizagem, afetando entre 10% e 12% das crianças americanas. Um dos objetivos é enfrentar o chamado “paradoxo da dislexia”.

O QUE É DISLEXIA?

A dislexia é uma deficiência específica de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldades no reconhecimento preciso ou fluente de palavras, baixa capacidade de ortografia e decodificação. O problema central está na identificação das unidades de som na linguagem e na combinação dos sons com letras. Também se caracteriza pela dificuldade em recuperar rapidamente o nome de um símbolo (por exemplo, uma letra) ou objeto.

Geralmente, o diagnóstico só é confirmado depois de repetidas falhas em aprender a ler durante o 2º ou o 3º ano do Ensino Fundamental, mas o tratamento torna-se muito mais eficiente se feito em fases anteriores, na Educação Infantil ou no 1º ano do Ensino Fundamental. Por esse motivo, a identificação precoce das dificuldades de aprendizagem durante a alfabetização torna-se fundamental, ainda mais se feito de forma facilitada, por meio de um dispositivo acessível.  Há também a intenção de se mudar um panorama: segundo o grupo de pesquisadores, 63% dos alunos do 4º ano nos EUA estão lendo abaixo do nível esperado da série, sendo que 80% deles são de baixo nível socioeconômico. A baixa autoestima provocada por essa dificuldade na alfabetização contribui parar a formação de adultos e jovens menos interessados pelo meio acadêmico.  A aprovação de uma lei, no final de 2018, pela Assembleia do estado americano de Massachussetts mostra que o poder público já se preocupa com isso. Agora o Estado é obrigado a formular protocolos de avaliação para o risco de se desenvolver dislexia.

Como funciona o aplicativo

A doutora e pesquisadora Nadine Gaab costuma usar uma analogia médica para explicar a principal motivação do aplicativo. “Quando atestamos que alguém possui colesterol alto, consideramos que a pessoa tem um risco aumentado de ter doenças cardíacas, mas ela não é diagnosticada com a doença. Assim são prescritos exercícios, dieta e talvez medicação. O objetivo é prevenir e não diagnosticar doenças cardíacas mais cedo. É o mesmo com as deficiências de leitura. Queremos identificar quem está em risco na pré-escola e não fazer o diagnóstico nessa fase”.

Imagem mostra caminho colorido com diversos animais, uma das etapas do aplicativo que ajuda a identificar crianças em risco de desenvolverem dificuldades de aprendizagem

O aplicativo consiste em uma plataforma gameficada e lúdica que leva crianças de 4 a 6 anos a uma viagem com a temática do mundo animal. O pássaro Pip vai encontrando outros personagens, como um jacaré motorista de ônibus e, ao longo do caminho, as crianças são avaliadas em seis etapas iniciais de alfabetização que os pesquisadores consideram críticas para o sucesso inicial da leitura./

Seis etapas essenciais para a alfabetização

1. Capacidade de manipular os sons da linguagem
2. Memória fonológica
3. Nomeação rápida e automatizada
4. Conhecimento de nomes de letras e seus sons
5. Vocabulário
6. Compreensão auditiva e oral

Após uma navegação de 20 minutos, é gerada uma pontuação e produzido um relatório sobre cada um dos marcos de alfabetização da criança. Futuramente, o aplicativo deve ganhar recursos que apontam soluções e intervenções, como vídeos, planos de aula e currículos de profissionais que possam auxiliar no desenvolvimento da leitura e na diminuição das dificuldades de aprendizagem. Também vai sugerir atividades para os pais fazerem com os filhos, levando à melhora de habilidades essenciais de pré-leitura.

“No momento, os professores estão frustrados, porque não sabem como identificar crianças em risco de maneira fácil, econômica e que exija pouco treinamento. O rastreamento via tablet é autoadministrável e permite que os professores rastreiem um número maior de crianças sem custo alto ou etapas de pontuação e interpretação que gastem muito tempo”, afirma a Nadine Gaab. 

Oradora frequente em palestras e oficinas para pais, professores e outros profissionais, a especialista está trabalhando para disponibilizar o aplicativo em breve. A equipe do Hospital Infantil de Boston está validando a plataforma em vários distritos escolares dos Estados Unidos e um piloto deve entrar em ação já em 2019.


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