O futuro chegou — e ele exige mais do que acesso à tecnologia. Requer consciência, pensamento crítico e responsabilidade. Atenta a esse cenário, a rede estadual de ensino de Pernambuco definiu como tema do ano letivo de 2026 “Educação para a Cidadania Digital e Midiática: formando cidadãs e cidadãos críticos e responsáveis”, colocando no centro do currículo os desafios da vida conectada.
A proposta é simples na forma, mas ambiciosa no alcance: apoiar estudantes e professores na compreensão dos impactos da tecnologia em suas vidas e no uso ético, seguro e consciente das mídias digitais. Em um contexto marcado por algoritmos onipresentes, redes sociais aceleradas e grande circulação de informações (nem sempre confiáveis), o tema convida a escola a ir além do uso de ferramentas e a formar sujeitos capazes de analisar conteúdos, questionar fontes e agir com responsabilidade no mundo digital.
Questões como segurança online, exposição digital, saúde mental, inteligência artificial e verificação de informações estiveram no centro do seminário promovido pela Secretaria Estadual de Educação, que definiu os fundamentos da nova proposta pedagógica. O debate trouxe à tona uma questão central: como as escolas podem ajudar jovens a enxergarem as redes não apenas como espaços de consumo, mas também de aprendizado e de diálogo?
O secretário estadual de Educação, Gilson Monteiro, destacou o pioneirismo de Pernambuco ao colocar o tópico no centro da agenda educacional. “O estado está na vanguarda quando traz um tema que permeia o mundo para aprofundar dentro das nossas unidades escolares. O debate sobre a educação para a cidadania digital e midiática pede que os gestores, professores e estudantes olhem um pouco para dentro, para tudo que a gente pede cuidado com as telas, com o tempo limite e com o conteúdo”, afirmou.
A partir de fevereiro, todas as atividades da rede estadual de ensino — das olimpíadas estudantis aos torneios escolares e projetos pedagógicos — estarão alinhadas à reflexão sobre o uso responsável da tecnologia. Para Monteiro, esse movimento visa fortalecer o papel da escola como espaço de formação integral, estimulando um uso crítico e seguro da tecnologia no processo de ensino e aprendizagem.
BNCC Computação na agenda do ano letivo
A escolha da temática dialoga diretamente com uma mudança nacional importante: a implementação obrigatória da BNCC Computação, que entra em vigor esse ano. O documento estabelece diretrizes para o ensino da computação e para o desenvolvimento de competências digitais na Educação Básica, articulando três eixos: Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital.
Em Pernambuco, essa conexão se expressa no fortalecimento do eixo Cultura Digital, que amplia o olhar para além do uso técnico de ferramentas. Ele envolve a formação crítica diante das mídias, o combate à desinformação, a compreensão dos impactos sociais das tecnologias e o desenvolvimento de valores essenciais à vida em rede, como empatia, cooperação e pensamento crítico.
Em 2025, a Fundação colaborou tecnicamente com o Estado na construção do Currículo Complementar de Educação Digital e Midiática, assegurando que a Computação estivesse presente de maneira transversal em todas as fases da educação básica.
O secretário Gilson Monteiro destacou que a implementação será contínua e adaptada às particularidades regionais: “A tecnologia é imensa, mas precisamos entender o que cada região consegue desenvolver. Esse olhar regionalizado vai ser um diferencial para a rede.” A proposta é que cada escola incorpore o tema a partir de sua realidade, reconhecendo que a cidadania digital não é um conteúdo isolado, mas uma forma de vivenciar o aprendizado em tempos conectados.
Formação docente, o coração da transformação
Falar em cidadania digital na escola sem falar em formação docente seria como tentar acessar a internet sem conexão. Para que as mudanças curriculares ganhem vida, é preciso investir nos professores, e Pernambuco tem caminhado nesse sentido com apoio de instituições parceiras.
A diretora-presidente da Fundação Telefônica Vivo, Lia Glaz, destaca que ainda há desafios significativos. “Segundo resultados de autodiagnósticos que medem o nível dessas competências, pouco mais de 30% dos professores conseguem integrar de forma qualificada as tecnologias nas suas práticas pedagógicas.”
Para ela, a valorização docente e o desenvolvimento de competências digitais precisam caminhar juntos: “É necessário fortalecer políticas de valorização da carreira, assegurar condições adequadas de trabalho e garantir que os novos professores também possam desenvolver suas competências digitais antes de ingressar nas redes de ensino”, completou.
Lia Glaz também ressalta que a inteligência artificial pode ser uma aliada da educação, desde que com propósito e senso crítico: “A IA pode apoiar processos pedagógicos e personalizar a aprendizagem, mas o professor precisa ter repertório para aplicar essas ferramentas na prática.”
Nesse contexto, a Fundação também apoiou a oferta do Programa de Formação Docente em Competências Digitais, em parceria com a Secretaria de Educação (SEE), tanto na fase de elaboração do currículo quanto na atualização realizada no ano passado. Agora, o foco está em mobilizar escolas e inspirar professores e estudantes a colocarem em prática o que foi planejado.
Apoio à implementação do ensino de Computação
A Fundação Telefônica Vivo atua há mais de duas décadas na promoção da inovação educacional e da inclusão digital no Brasil. Desde 2024, oferece assessoria técnica a mais de 20 redes públicas de ensino — estaduais e municipais — para apoiar a implementação do ensino de Computação na Educação Básica, em conformidade com os atos normativos vigentes relacionados à BNCC Computação.
Para qualificar esse processo, a Fundação disponibiliza gratuitamente dois materiais técnicos produzidos por especialistas:
• E-book “Recomendações para Implementação da BNCC Computação”, com diretrizes para fortalecer a aderência e orientar a implementação dos currículos à luz do marco legal.
• Nota técnica “Educar na Era da Inteligência Artificial: Caminhos para a BNCC Computação”, que apoia a atualização curricular e o desenvolvimento de competências digitais essenciais para a cidadania digital.
Ambos os documentos foram elaborados por doutores em Educação, especialistas em Computação na Educação Básica, desenvolvedores curriculares e pedagogos, contribuindo para que gestores e educadores avancem de forma consistente na integração qualificada das competências digitais nas redes públicas de ensino.

