Nota técnica "Educar na era da Inteligência Artifical: Caminhos para a BNCC Computação"

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05.01.2026
Tempo de leitura: 7 minutos

Especialista Jo Boaler defende ensino de matemática criativo e sem “decoreba”

Pesquisadora de Stanford propõe abordagem visual e colaborativa para reduzir desigualdades e preparar alunos para a era da Inteligência Artificial

Imagem ilustra a matéria que exemplifica o termo ensino de matemática

Uma das maiores especialistas do mundo em educação matemática, Jo Boaler, professora da Universidade de Stanford (na Califórnia), esteve no Brasil em agosto de 2025 para um ciclo de palestras. Diante de um cenário em que avaliações internacionais como PISA e TIMSS apontam déficits preocupantes — no Brasil, 51% dos estudantes do 4º ano não possuem conhecimentos básicos na disciplina, e apenas 5% atingem os níveis mais altos de proficiência em matemática —, a pesquisadora inglesa trouxe uma mensagem inovadora: é preciso abandonar a memorização de fórmulas e tabuadas para adotar uma abordagem visual, criativa e colaborativa.

Boaler, diretora acadêmica da plataforma Youcubed e autora do best-sellerMentalidades Matemáticas”, dedicou sua palestra a desmistificar a ideia do “cérebro matemático”, a crença equivocada de que algumas pessoas nascem com o dom para os números e outras não. Apoiada em pesquisas de neurociência, ela defende que qualquer cérebro tem capacidade ilimitada de aprendizado e que as vias neuronais são fortalecidas justamente nos momentos de maior dificuldade.

Para a especialista, o modelo tradicional de ensino, focado na busca por uma única resposta correta e na rapidez, cria ansiedade e afasta os alunos. A virada de chave proposta por Boaler reside na valorização do erro. “Os melhores momentos para os nossos cérebros é quando estamos cometendo erros. É quando o cérebro está pegando fogo com alta conectividade de neurônios”, afirmou durante a apresentação.

A metodologia do Youcubed, iniciativa que ela lidera em Stanford, prioriza o pensamento visual e a multiplicidade de estratégias para resolver problemas. Em vez de decorar tabuadas e fórmulas, os alunos são incentivados a modelar problemas, desenhar soluções e debater em grupo. Em sua fala, Boaler apresentou evidências do sucesso dessa abordagem: em um estudo, 84 estudantes de contextos desfavorecidos, após um curso de verão de apenas seis semanas, melhoraram seu desempenho matemático em 50%.

Outro ponto alto da palestra foi a discussão sobre como lidar com a frustração. Para Boaler, a dificuldade deve ser celebrada, não temida. “Quando eu trabalho com estudantes e eles me olham e falam: ‘Ah, isso aqui é muito difícil’, eu respondo: ‘Fantástico! Esse sentimento é literalmente o sentimento do seu cérebro trabalhando’”, disse.

A abordagem também se mostra uma ferramenta poderosa para promover a equidade. Ao focar em visualização e criatividade, as desigualdades de gênero e raça tendem a desaparecer na sala de aula. “As meninas se saem tão bem quanto os meninos”, pontuou Boaler, reforçando que a mudança de mentalidade é o fator determinante para o sucesso acadêmico.

O futuro do currículo matemático também foi tema da apresentação. Boaler defende uma “limpeza” nos conteúdos, removendo métodos obsoletos (como decorar fórmulas ou fazer cálculos manuais exaustivos) para dar espaço à profundidade e ao raciocínio lógico. “Precisamos modernizar o currículo matemático. Vamos tirar métodos que realmente não são necessários. E com o tempo adicional podemos entrar na profundidade que o estudante precisa para pensar visualmente, ser mais criativo”, argumentou.

Nesse contexto, a Inteligência Artificial não é vista como ameaça, mas como aliada. Para Boaler, a tecnologia deve assumir o trabalho mecânico dos cálculos, liberando os estudantes para o que realmente importa. “A IA pode fazer o cálculo para nós. E nós ficamos com tudo o que a mentalidade humana pode fazer melhor, pensar criativamente e resolver os problemas de forma diferente “, concluiu.

Com essa visão que combina ciência, equidade e inovação, Jo Boaler reforça a urgência de uma nova cultura matemática nas escolas. A seguir, na entrevista exclusiva para a Fundação Telefônica Vivo, ela compara o desempenho brasileiro com o de outros países latino-americanos e explica por que a matemática continua sendo uma linguagem essencial na era da programação da Inteligência Artificial.

O que motivou sua vinda ao Brasil?

Estou aqui trabalhando com o Instituto Sidarta no projeto Mentalidades Matemáticas. Nosso trabalho inicial focou em introduzir esses conceitos no Brasil, e agora estamos vendo uma adoção muito maior.

Como você avalia o progresso da implementação do projeto no Brasil?

Estou muito feliz. Recentemente tivemos um evento com acadêmicos que estão estudando mentalidades matemáticas e que são apaixonados por sua necessidade no Brasil. Eles apresentaram muitos trabalhos que vêm sendo realizados, incluindo dissertações em universidades e instituições educacionais. Também percebemos que muitos professores que participam dos nossos workshops já vêm utilizando essas ideias.

Os resultados do PISA mostram um desempenho muito baixo em matemática no Brasil, mesmo em comparação com países de nível semelhante. Qual é a sua análise sobre esse cenário?

Eu não acho que a situação do Brasil seja única. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas um terço dos alunos é proficiente em matemática, o que não é tão diferente do Brasil. No entanto, alguns países da região, como o México, vêm utilizando métodos de ensino diferentes e mais esclarecidos há muito tempo, em vez dos tradicionais. Países como Chile, México e Argentina têm um desempenho melhor, eles vêm aplicando os princípios que estamos discutindo há algum tempo.

Considerando o tamanho do país e os desafios sociais, o que pode ser feito para melhorar a aprendizagem de matemática nas escolas públicas brasileiras?

Assim que mostramos essa abordagem aos professores, eles adoram, especialmente os do ensino fundamental, já que muitos deles tiveram experiências negativas com a matemática. Nossa série de livros fornece atividades que os professores gostam de usar com os alunos. Trata-se realmente de divulgar esse trabalho. Nossos materiais estão disponíveis online para professores no Brasil. Todo o nosso site está em português. O Instituto Sidarta também tem um site mostrando o trabalho que eles estão fazendo nas escolas. Nosso objetivo é continuar ampliando nosso alcance.

O que é o Youcubed e qual é o público principal da iniciativa?

O Youcubed é, principalmente, para educadores, embora muitos pais e alunos também o utilizem. Nós compartilhamos a ideia central de uma mentalidade de crescimento — a de que todos podem aprender — e fornecemos recursos práticos como aulas, vídeos que mostram aos alunos como seus cérebros funcionam, pôsteres e cursos.

Todo o conteúdo oferecido pelo Youcubed é gratuito?

Sim, tudo é gratuito. Todas as aulas, atividades e vídeos são gratuitos.

Na era da Inteligência Artificial, qual é a importância da matemática para a formação dos alunos e para o futuro profissional?

Na era da IA, é mais importante do que nunca que os alunos tenham habilidades matemáticas. Algumas pessoas sugerem que, com a IA, os alunos não precisarão tanto da matemática, mas a verdade é justamente o oposto. Aqueles que conseguirem pensar matematicamente terão sucesso na sociedade e em suas carreiras. A IA não impede os alunos de serem bons em matemática, ela os ajuda. Pode lidar com os cálculos, que são apenas uma pequena parte da matemática, liberando os estudantes para se concentrarem no pensamento, no raciocínio e na resolução de problemas.

A defesa de uma matemática mais visual, criativa e conectada à vida real, feita por Jo Boaler, encontra ressonância em iniciativas brasileiras que buscam modernizar o ensino da disciplina. Entre elas está o projeto Matemática ProFuturo, que faz parte do ProFuturo, um programa da Fundação Telefônica Vivo e Fundação “la Caixa”, que utiliza tecnologia e metodologias ativas para fortalecer o raciocínio lógico de estudantes da rede pública. Assim como propõe a pesquisadora, o programa aposta em uma aprendizagem investigativa, na valorização do erro e no protagonismo do professor, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade.

Para saber mais sobre a iniciativa, acesse a página do Matemática ProFuturo.
 


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