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09.01.2018
Tempo de leitura: 4 minutos

Fundo aposta em negócios sociais na Zona Leste de SP

Fundo Zona Leste Sustentável financia pequenos negócios na região, apostando também em formação para empreendedores sociais.

Expositores da feira afro meninas mahin, apoiados pelo Fundo Zona Leste Sustentável. Na foto, há várias mesas de plástico perfiladas, com produtos como camisetas e bonecas na temática afrobrasileira

Fundo Zona Leste Sustentável aposta em microempreendedores da região, financiando a estrutura de seus negócios.

Com uma população de mais de três milhões de habitantes, a Zona Leste de São Paulo é tão grande que foi dividida em três regiões: a um, nascida de conquistas de movimentos de luta por moradias, como Cidade Tiradentes ou São Mateus; a dois, onde estão Itaquera e Mooca, com os tradicionais times de futebol Corinthians e Juventus; e por fim, a três, ou sudeste, que abriga a Vila Prudente.

A primeira região, em especial, sofre com estereótipos de vulnerabilidade, como se na região só houvesse espaço para índices de pobreza. Mas territórios em desenvolvimento tem muito a ensinar. Projetos de resiliência desabrocham nas adversidades, impulsionados pela utilização de poucos recursos da melhor maneira possível. Foi justamente o que o Fundo Zona Leste Sustentável (FZLS) fez. A aceleradora, criada em 2010 pela Fundação Tide Setúbal, financia projetos de microempreendedores, principalmente na região um, oferecendo empréstimos condizentes com a realidade financeira do território.

“Temos na Zona Leste um alto índice de desemprego, muito por conta de seus moradores saírem para trabalhar no centro expandido e concentrarem recursos ali. Entretanto, também temos incríveis mobilizações acontecendo, como hortas comunitárias, cooperativas de feira e projetos de meio-ambiente”, relata Greta Salvi, coordenadora do Fundo. Ela complementa que a ideia sempre foi fortalecer o comércio local da região, com um olhar dedicado para o pequeno empresário, do vendedor de tapioca às mulheres que mantêm um negócio de buffet em casa.

Greta explica como funciona o aporte financeiro: “Definimos um valor de acordo com a necessidade de cada projeto. Esse dinheiro não pode ser usado para pagar salários e sim possibilitar melhoras estruturais”. Os empreendedores têm seis meses de carência e pagam o valor em 36 vezes, com flexibilidade maior do que em empréstimos convencionais.

Depois de cinco anos apoiando projetos pequenos e de ganho pessoal, o fundo está se transformando. O último edital, realizado em 2016, escolheu cinco mulheres empreendedoras para investir, apostando em negócios com impacto social no território. Além do investimento, as escolhidas receberam capacitação oferecida pelo Senac. “Estamos nos debruçando sobre negócios de impacto periférico, de temas que vão desde gastronomia até religiões afro-brasileiras. Queremos fomentar o ecossistema de negócio de impacto social, aumentar sua visibilidade e mapear as particularidades do nosso território”, explica a coordenadora.
Oportunidades
E foi identificando uma carência local que a empreendedora Géssica Cardoso teve a ideia de criação de seu negócio. “Itaquera é um lugar que não tem ocupação cultural específica para o público negro”, explica a jovem idealizadora da Feira Afro Meninas Mahin. Com mais de 30 edições desde 2016, a feira é focada na produção de empreendedoras afro-brasileiras. Uma das vantagens do edital, para a empreendedora, foi a possibilidade de passar por uma formação centrada no fortalecimento do negócio e, na sequência, levar seus conhecimentos para as outras afro-empreendedoras que coordenam a feira.

Em tempos de intolerância religiosa, o negócio Axô Roupas Religiosa aposta na divulgação da cultura de cultos afro-brasileiros. Inaihe Naiana Aparecida começou a produzir vestimentas sagradas para o Candomblé e para o Umbanda quando percebeu a dificuldade dos que vão “fazer a cabeça” – expressão usada para consagração de um santo nas religiões de matriz africana – em encontrar vestimentas que possam pagar.

Inaihe produz em um valor abaixo do mercado tradicional, além de personalizá-las de acordo com os desejos de cada comprador. “Com o apoio do fundo, percebi que meu negócio, que antes só se baseava no boca-a-boca, pode vencer preconceitos e se estabelecer como um espaço importante na minha região. Ninguém faz roupas como eu faço”, diz.

Para 2018, o Fundo Zona Leste Sustentável tem como intenção voltar ainda mais suas iniciativas para os negócios periféricos, apostando na capacitação dos profissionais, em especial o público jovem. “O adolescente que mora dentro de periferias muitas vezes não conhece o seu próprio potencial e como suas ideias podem virar um modelo de negócio. Queremos ir até eles e ajudá-los a construir essa autoestima, fomentando o comércio local na região da Zona Leste”, finaliza Greta.


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