Aprender matemática pode começar com algo simples: um jogo. E, cada vez mais, essa lógica lúdica também está presente nas tecnologias educacionais que transformam a aprendizagem nas escolas.
Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista científica Review of Educational Research mostra que apenas dez minutos de atividades com jogos com números podem melhorar significativamente o desenvolvimento de habilidades matemáticas nos anos iniciais da educação básica.
A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Hedco de Práticas Educacionais Baseadas em Evidências, da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, e analisou 18 estudos com mais de 1.700 crianças da Pré-escola ao 2º ano do Ensino Fundamental.
O resultado é claro: jogos de tabuleiro com números podem melhorar em até 76% o desenvolvimento do numeramento, conjunto de habilidades fundamentais para compreender e utilizar números.
“Escolhemos esse tema para a pesquisa porque as habilidades matemáticas iniciais são um forte indicador do sucesso escolar futuro das crianças, e os jogos de tabuleiro com números são fáceis de usar e acessíveis”, afirma Gena Nelson, professora no Centro de Ensino e Aprendizagem da Universidade de Oregon e uma das autoras do estudo.
Jogos adaptáveis e acessíveis
Um dos achados mais relevantes do estudo é que os jogos precisam ser adaptáveis, já que crianças chegam à sala de aula com histórias e experiências muito diferentes. Enquanto umas já reconhecem números com facilidade, outras ainda estão aprendendo a contar, e um jogo que trata todas da mesma forma pode deixar algumas para trás ou não desafiar o suficiente outras.
É possível transformar os jogos em atividades em duplas, onde as crianças trabalham juntas e combinam seus conhecimentos, sugere Gena Nelson. “Os jogos devem ser uma forma divertida de as crianças praticarem matemática. Trata-se menos de seguir as regras de como o jogo foi planejado e mais sobre a prática em si.”
Outro ponto a favor da prática estudada é o custo. Os materiais para montar um jogo de tabuleiro numérico são baratos e há muitos recursos de qualidade disponíveis gratuitamente na internet. “Mesmo professores em ambientes com restrições de recursos podem proporcionar aos seus alunos oportunidades de aprendizagem envolventes para aprimorar o aprendizado da matemática”, garante a pesquisadora.
Plataformas digitais como aliadas do ensino de matemática
A pesquisadora destaca dois sites de acesso aberto com ideias práticas para educadores: o DREME, plataforma da Universidade de Stanford com materiais gratuitos em inglês e espanhol, e o STEMIE, iniciativa educacional da Universidade da Carolina do Norte. Ambos reúnem atividades pedagógicas baseadas em evidências para apoiar o desenvolvimento das habilidades matemáticas nos primeiros anos escolares – incluindo jogos de tabuleiro testados durante a pesquisa.
Além dos jogos físicos, a tecnologia também tem ampliado as possibilidades de tornar o ensino da matemática mais envolvente e personalizado. A Fundação Telefônica Vivo aposta nessa abordagem por meio da plataforma digital educativa Matemática ProFuturo, iniciativa do programa global ProFuturo, desenvolvido pela Fundação Telefônica Vivo em parceria com a Fundação Bancária “la Caixa”.
Um dos principais diferenciais da plataforma é o uso da gamificação para apoiar o aprendizado. São mais de 4 mil exercícios organizados em desafios interativos, que utilizam elementos típicos dos jogos como pontuação, progressão de níveis e recompensas. Essa dinâmica coloca o estudante no centro do processo de aprendizagem e dialoga com o universo digital já presente no cotidiano das crianças.
A tecnologia também amplia as possibilidades de acompanhamento pedagógico. Professores podem monitorar o progresso dos estudantes em tempo real, identificar dificuldades específicas e adaptar as atividades de acordo com o ritmo e as necessidades de cada aluno.
Voltado a estudantes de 6 a 12 anos de escolas públicas e implementado em parceria com secretarias estaduais e municipais de Educação, o Matemática ProFuturo demonstra como a combinação entre tecnologia educacional, metodologias lúdicas e acompanhamento pedagógico pode tornar o ensino da matemática mais envolvente, personalizado e significativo.
Quando o jogo entra na sala de aula
Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Duarte, na Zona Leste de São Paulo, a professora Priscila de Oliveira vem transformando suas aulas de matemática em parceria com a professora do laboratório digital da escola, Regina Nara. Entre as criações estão o jogo dos números positivos e negativos, o dominó das operações e um material lúdico para resolução de equações de segundo grau.
Uma das atividades que mais engajou os alunos foi a reta numérica dos números decimais. Estudantes do sexto ano precisavam pendurar números em uma corda, posicionando-os no lugar certo antes ou depois da vírgula — uma versão física, interativa e divertida de um conceito abstrato que costuma gerar confusão. Durante essas experiências, os estudantes exploram regras, testam hipóteses, enfrentam desafios e colaboram entre si, fortalecendo tanto o desenvolvimento cognitivo quanto o socioemocional.
Os resultados são visíveis, explica Priscila. Há mais interesse, mais segurança e menos ansiedade em relação à matemática.
Aprendizagem envolvente para o futuro da educação
A pesquisa científica e as experiências em sala de aula apontam na mesma direção: quando o aprendizado incorpora desafios, interação e ludicidade, os estudantes se envolvem mais com o processo educativo.
Ao combinar metodologias lúdicas, recursos digitais e acompanhamento pedagógico, iniciativas como o Matemática ProFuturo mostram como a tecnologia pode ampliar o acesso a práticas inovadoras de ensino.
Mais do que tornar a matemática divertida, o objetivo é garantir que cada estudante desenvolva as competências necessárias para compreender o mundo ao seu redor e participar de uma sociedade cada vez mais orientada por dados, lógica e pensamento crítico.

