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04.02.2020
Tempo de leitura: 8 minutos

Lúcia Hiratsuka: “Escrevo para a criança que já fui um dia”

Vencedora de dois prêmios Jabuti em 2019, uma das principais autoras brasileiras da atualidade fala da importância de revisitar suas memórias de infância para criar histórias que valorizam a poesia da simplicidade

A escritora Lúcia Hiratsuka posa para foto em frente à vitrine de uma livraria

Em 2019, na 61° edição da maior premiação da literatura brasileira a autora Lúcia Hiratsuka levou dois Prêmios Jabuti para casa, consagrando-a como uma das mais importantes escritoras da atualidade.

Foram dois livros. Em Histórias Guardadas pelo Rio (Editora SM), vencedor na categoria Livro Juvenil, Lúcia traz a busca de Pedro para desvendar os mistérios de um rio onde é possível pescar histórias de todo tipo. Já Chão de Peixes (Pequena Zahar), premiado pela Ilustração, é inspirado na poesia japonesa haicai e traz um convite ao leitor para dar sentido à natureza que o cerca.

Aos 59 anos, a autora está acostumada a despertar atenção da crítica. Boa parte de seus 25 livros já publicados receberam reconhecimento de peso, como o Selo Literário da Biblioteca Nacional e o Selo Cátedra da Unesco de Leitura.

De volta ao passado

Qual o segredo de uma boa história? A pergunta que move o personagem Pedro em Histórias Guardadas pelo Rio é a mesma que inquietava sua criadora há anos e simbolizava sua busca por uma identidade. Ela acabou por descobrir em suas memórias de infância a chave para o que faltava.

Neta de imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil na década de 20, Lúcia Hiratsuka relembra com frequência os nove anos que viveu na zona rural da pequena cidade de Duartina, no interior de São Paulo. No sítio de seus avós Asahi, palavra japonesa para “Sol da Manhã”, a numerosa família levava uma vida simples, calma e feliz.

Lúcia, quando menina, se embrenhava nas matas para desvendar seus mistérios. Sem luz elétrica, uma das brincadeiras mais comuns era a competição de quem encontrava a primeira estrela no céu ou caçava o primeiro vaga-lume.

E assim a menina imaginativa foi crescendo. Formou-se em Artes Plásticas no Brasil e passou um tempo no Japão estudando técnicas de desenho e pintura oriental. No dia a dia, busca inspiração nas coisas mais simples, como um vaso com plantas.

Em entrevista à Fundação Telefônica Vivo, Lúcia Hiratsuka fala um pouco mais sobre sua história de vida, a relação com a memória e a natureza e revela, afinal, o segredo para contar boas histórias. Confira a seguir:

As suas vivências de infância permeiam todos os seus trabalhos. Como foi crescer em um sítio e como isso foi determinante para sua carreira?

Lúcia Hiratsuka: Chega um momento em nossa trajetória de vida que nós buscamos o que é mais verdadeiro e essencial. Eu encontrei isso nas minhas memórias de infância, que fui aos poucos redescobrindo, revalorizando o período que nasci e cresci no sítio. Ali aprendi a valorizar o simples, também por influência da minha família. Minha avó me ensinava cantigas japonesas, meu avô criava objetos e brinquedos em madeira e também nos ensinava caligrafia. Nós brincamos muito com ele e também com ele aprendi a ler, primeiro em japonês.

Meu pai assinava revistas que vinham do Japão com contos, biografias, mangás, clássicos adaptados, um pouco de tudo. E minha mãe lia muito para a gente. Eu cresci no meio desse ambiente rico para a imaginação. Aos sete anos, entrei para a escola e só então fui aprender o português. Mas essa vivência na escola foi importante também pela diversidade de crianças e mundos que me apresentou. Do sítio onde eu morava eram 4 km a pé para chegar até a escola, mas o caminho era sempre divertido porque as crianças que moravam perto de mim iam todas juntas.

Você envolve sua família nesse processo?

Lúcia Hiratsuka: Memória é uma coisa que a gente pratica: conforme vamos tentando lembrar das coisas, mais momentos vão aparecendo. E a memória da família tem muito a ver com a nossa identidade, com quem somos, por que pensamos o que pensamos. Então, eu divido bastante esse momento com meus pais e eles me contam coisas novas. Por exemplo, meu pai um dia me contou que ganhou uma bola em um sorteio e, como era só ele que tinha bola na região, virou o guardião do brinquedo. Minha avó me contou que ia para escola com um chinelo feito de palha para proteger os pés. Eu vou ouvindo coisas daqui e dali, combino com as minhas vivências, e tudo vira inspiração para as histórias.

 Além de revisitar suas memórias, você tem algum segredo para alimentar sua criatividade e sua sensibilidade no dia a dia? O que te inspira?
Lúcia Hiratsuka
: Vejo filmes, leio livros, faço pinturas e desenho constantemente. Dou workshops de desenho, mas o que eu mais gosto é de observar os detalhes das coisas. Plantas, flores, folhas que já secaram, uma semente com um desenho diferente. Uma janela de uma casa antiga, por exemplo.

Faço muito esse exercício de observar o simples. Carrego um caderninho comigo para desenhar tudo o que encanta meus olhos. Quando estou sem ele, tiro fotos com o celular mesmo e depois tento transpor para o desenho e para a pintura. É incrível como consigo me emocionar a cada pincelada!

 Por que decidiu escrever para o público juvenil?

Lúcia Hiratsuka: Porque literatura para mim tem a ver com afeto. Eu me lembro da emoção que sentia toda vez que meu pai voltava da cidade com o pacote de livros que vinham do Japão. Eu ficava esperando por ele olhando para a porteira e quando o livro finalmente chegava era uma felicidade inexplicável. Eu guardo muito isso comigo e acho que, no fundo, escrevo para essa criança que eu fui um dia.

Você acha que a internet e as novas tecnologias competem um pouco com o seu trabalho, no sentido de disputar a atenção de seus leitores?

Lúcia Hiratsuka: Até eu me disperso usando a tecnologia, então acho que pode ter certa concorrência, mas acredito que o livro é um objeto muito atraente. Tem a capa, as ilustrações, formatos diversos. Penso que é preciso certo estímulo, por exemplo, quando os pais têm o hábito de ler ou quando a escola tem um bom projeto de leitura.
De novo, o afeto é fundamental. Quando a criança relaciona aquele momento com afeto, não tem erro. O ser humano naturalmente gosta de histórias, de narrativas, mesmo que mude a plataforma. O grande atrativo do livro ilustrado é que você pode folhear várias vezes e isso me parece bastante importante nos dias de hoje. Diminuir um pouco o ritmo, desacelerar, ter um momento de silêncio para se concentrar ali na magia da história.

Baseada na sua experiência, que dicas você dá para quem quer criar boas narrativas?

Lúcia Hiratsuka: Busque aquilo que é mais verdadeiro dentro de você. É a melhor forma de criar uma conexão com aquilo que está escrevendo ou desenhando. Eu, por exemplo, parto das minhas memórias, mas as histórias vão ganhando alma própria. Tento não fechar uma consequência, uma moral, uma mensagem, não forçar o final. A história vai guiando seu próprio curso. Minhas histórias sempre envolvem personagens curiosos e que passam por uma transformação interna, uma espécie de amadurecimento. Vejo a literatura como um encontro entre quem cria e quem lê. Por isso, é importante se atentar ao sentimento que você pretende despertar com aquela história. Mas, claro, sempre consciente de que uma vez que ela vai para o mundo você não tem o controle. Ela não vai agradar todo mundo.

Quais são seus planos para o futuro? O que gostaria de fazer que ainda não fez?
Lúcia Hiratsuka: Meus trabalhos trazem bastante da cultura japonesa com aquela coisa do “caipira brasileiro”. Ultimamente tenho me inspirado bastante nas histórias narradas pelos meus pais, então quero continuar explorando isso e trazendo um pouco desse olhar de imigrantes e filhos e imigrantes. . Não posso dar mais detalhes agora, mas meu próximo livro, que deve ser lançado em maio, é baseado em uma das histórias de infância do meu pai. Aguardem!


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