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11.09.2019
Tempo de leitura: 6 minutos

Por que levar o debate sobre masculinidade tóxica para as escolas

Especialistas contam por que é importante que a escola possa discutir temas relacionados à masculinidade, machismo e sentimento entre alunos

Imagem mostra grupo de alunos posando para foto, sentados em uma escada dentro da escola.

O conceito de masculinidade tóxica tem sido discutido em diferentes frentes de atuação, seja em rodas de conversa entre homens, seja pela mídia ou pela educação. Alguns projetos que se propõem a trazer para crianças e jovens reflexões sobre masculinidade, machismo, estereótipos e sentimentos explicam por que acreditam na importância se abordar o assunto também na escola.

“Como precisamos construir um ambiente escolar colaborativo e responsável, é importante evitar rótulos, desconstruir preconceitos e discutir o papel de homens e mulheres entre os estudantes”, afirma a professora Eliane Malteze, diretora da Escola Técnica Estadual (Etec) Profª Drª Doroti Quiomi Kanashiro Toyohara, localizada em Pirituba, São Paulo.

A educadora acredita que abordar o assunto com estudantes contribui para prevenir a violência de gênero, por exemplo. “Não podemos esquecer que o agressor, nos casos de violência contra mulher, é o homem. Portanto, ele precisa fazer parte da discussão. Só vamos reduzir os índices de violência de gênero se o homem entender qual o seu papel”, explica.

Para falar sobre o assunto, a Etec de Pirituba incluiu grupos de alunos no projeto Plano de Menino, uma versão da iniciativa Plano de Menina criada pela jornalista e empreendedora Viviane Duarte. Os estudantes se reúnem para falar sobre masculinidade, violência contra mulher, relacionamentos e o papel do homem na construção de uma sociedade com mais equidade. Eles inclusive participaram do documentário “O silêncio dos homens”, que se debruça sobre masculinidades e suas consequências.

“Para os alunos e os docentes foi extremamente importante rever conceitos impostos pela sociedade de que o homem é forte, não chora, é o provedor… Isso muda a forma como se relacionam”, explica a diretora da Etec. “Os alunos passam a perceber que a fragilidade não é fraqueza, que eles podem chorar, compartilhar suas dores e discutir questões que normalmente não discutiriam”, complementa.

Daniel Melo, de 16 anos, que frequenta o curso técnico de administração da Etec Pirituba, conta que sua visão sobre o que é “ser homem”, antes de participar do projeto, reproduzia alguns estereótipos. “Entendia que masculinidade era ser um homem forte, que você não poderia chorar, ter sentimentos e se alguém te confrontasse, você teria que confrontar também, em vez de conversar”, afirma.

Uma vez por semana, durante uma hora e meia, grupos de estudantes como Daniel participam de rodas de conversa para falar sobre diversos assuntos. Falar sobre temas que não são necessariamente abordados entre amigos ou família é o mais gratificante para o estudante. “Gosto de ter a chance de sentar em roda, ver a opinião do outro, debater e falar sobre coisas que a gente não falaria com outras pessoas. O Plano de Menino dá liberdade para discutir vários temas e ver opiniões diferentes”.

Masculinidade X Toxicidade

O educador físico Leonardo Oshiro ressalta que masculinidade é uma coisa, toxicidade é outra. “Falamos de uma masculinidade não bem integrada, não apenas de masculinidade. A parte tóxica é uma consequência dessa masculinidade não harmonizada. Sinto que quanto mais tomarmos consciência da semântica da palavra, mais homens se sentirão à vontade de participar do diálogo”, afirma.

Ele é fundador do projeto Okara, termo indígena que se refere ao espaço no qual grupos realizam festas e atividades sagradas e de trabalho. Após a experiência pessoal de participar de rodas de conversa sobre masculinidade com outros homens, Oshiro percebeu que isso também deveria chegar na sala de aula. “Como educador físico, já atendo jovens e sei como é potente ter esse acesso. Sabendo dessa proximidade, vi que era legal fazer rodas de conversa com os meninos adolescentes também”, afirma.

Desde 2017, a iniciativa traz jogos, brincadeiras, atividades corporais e outras práticas para criar vínculos nos quais os participantes tenham a chance de começar a falar sobre masculinidade. “Gosto de pensar que a escola é uma extensão da nossa sociedade, que está dentro do tecido social que compõe a nossa vida. A importância de levar o tema para a escola hoje é que esse assunto promove reflexões”, diz Oshiro.

Daniel, da Etec Pirituba, traz a sua visão para uma masculinidade não integrada: “é aquele homem ou menino que não evoluiu, que não abre a cabeça, e por causa disso ele se corrompe, pois não expressa o que sente. Definições de que homem não chora ou não demonstra sentimento são tóxicas, e afetam o psicológico de qualquer um”, reflete.

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Diferentes masculinidades

“A fase escolar, na infância e adolescência, é muito importante, pois há uma intensificação do contato social e de como eles se moldam na sociedade. Os alunos, geralmente, são uma ‘super esponja’ e filtram toda informação que chega até eles”, acredita o professor Caio César, autor do livro Diálogos Contemporâneos Sobre Homens Negros e Masculinidades. “A falta de uma discussão saudável e aprofundada sobre masculinidade resulta numa visão distorcida do que é o exercício de ser homem em todas as esferas de relacionamento possíveis”, complementa.

Para ele, a escola precisa falar das diferentes masculinidades, já que a construção se dá de maneira diferente. “Racismo e homofobia, por exemplo, são aspectos moldadores da sociedade, de reprodução ou reflexão de violência. São muitos recortes que não podem ser ignorados”, afirma.

Daniel tem a consciência de que existem muitas definições para o termo masculinidade. “Entendo que é uma palavra que, quando falamos para alguém, o que vem a mente é força, mas não precisa ser assim. Não precisamos ser másculos para ter masculinidade. Ela vem de uma questão pessoal e cada menino e homem tem a sua”, conclui.

Para ajudar a vivência de educadores e estudantes no tema, o especialista Leonardo Oshiro indica alguns conteúdos. Confira!

Livros:

Rei, Guerreiro, Mago, Amante: a redescoberta dos arquétipos do masculino, de Douglas Gillette;

História dos homens no Brasil, de Mary Del Priore;

História da Virilidade, trilogia de vários autores;

Filmes

A Máscara em que Você Vive;

My Own Man;

O silêncio dos Homens;

Precisamos Falar com os Homens?.


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