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13.08.2021
Tempo de leitura: 5 minutos

Projeto alfabetiza mulheres na primeira ‘Favela 3D’ do Brasil

Com foco em situações cotidianas, a iniciativa reúne mães e avós da Favela Vila Itália, no interior de São Paulo, para aprenderem a ler e escrever de acordo com suas necessidades e experiências individuais

imagem de duas mulheres lado a lado, uma senhora e uma jovem, com destaque para as mãoes da jovem escrevendo em um caderno.

Nove anos atrás, Maria José de Sousa saiu do interior do estado do Pará, onde nasceu, e mudou-se para São Paulo com o filho. Hoje, com 48 anos, inicia um novo capítulo de sua vida: está aprendendo a ler e a escrever. Ela é uma das dez mulheres selecionadas para participar de um projeto de alfabetização na favela da Vila Itália, localizada na cidade de São José do Rio Preto (SP).

“Estou amando estudar com minhas amigas aqui da ocupação. Antes eu só sabia escrever o meu nome e juntar algumas palavras, e agora eu vou poder ler histórias para os meus netos e ajudar com a lição de casa”, conta a estudante, que também trabalha como manicure.

Acesso negado à alfabetização

Segundo dados da Pnad Contínua da Educação 2018, realizada pelo IBGE, cerca de 11 milhões de brasileiros, a partir dos 15 anos de idade, são analfabetos. Os dados também apontam uma taxa de analfabetismo funcional maior entre as mulheres mais velhas, de 60 anos ou mais, em comparação aos homens nessa faixa etária. Os números correspondem a 19% e 18%, respectivamente.

A iniciativa organizada pelo Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), teve início em maio de 2021 e tem como objetivo alfabetizar mães e avós com foco em situações cotidianas, que envolvem desde identificar placas e nomes de ônibus, até ajudar os filhos e netos com os estudos durante o período de ensino remoto.

É o caso de Maria José, que tem sete netos, dois deles passando pela fase de alfabetização. A manicure reconhece que reuniu habilidades e competências valiosas ao longo da vida, mas acessar, pela primeira vez, o direito à educação representa um sonho realizado para ela e ainda mais possibilidades para as futuras gerações de sua família.

“Deus me deu muitos dons: eu sei costurar, consertar roupas, bordar, fazer unha, bolo de aniversário, e agora ler e escrever. Eu não pretendo parar de estudar, conhecimento nunca é demais. Daqui para frente, quero aproveitar todas as oportunidades de continuar aprendendo”, compartilha.

Aprendendo com o dia a dia 

No barracão central da comunidade, as aulas acontecem quatro vezes por semana. As dez mulheres que fazem parte da primeira turma do projeto se reúnem, desde maio,  respeitando todos os protocolos de segurança. Para evitar o contágio de Covid-19, o Senar disponibiliza máscaras, álcool em gel, testagem e acompanhamento médico para as estudantes e para a educadora Adriana Dalafini.

Depois de vinte e cinco anos alfabetizando crianças na rede estadual de ensino de São José do Rio Preto, a educadora afirma que a experiência de ensinar adultos a ler e a escrever é ainda mais enriquecedora. O senso de urgência fez com que ela deixasse de lado as inseguranças em relação à pandemia, e aceitasse o convite do Senar para conduzir as aulas presenciais na Favela da Vila Itália.

“Entendi que esse é o momento em que essas mulheres mais precisam aprender. Minhas estudantes vieram pelos mais diversos motivos: queriam fazer a lista do mercado, preencher uma ficha médica, ler a bíblia, auxiliar os filhos e netos nas tarefas escolares. Direcionar o aprendizado das crianças é importante, mas muitas vezes esse direito é negado às gerações anteriores, e isso também representa um problema para a nossa sociedade”, reforça Adriana.

O curso, que tem duração de seis meses, é baseado no método de alfabetização criado por Paulo Freire, utilizando palavras-chave ligadas ao cotidiano e às experiências individuais das estudantes. Não raro as aulas também encontram espaço para ampliar as trocas de vivências, que por vezes acabam gerando debates sobre temas ligados à cidadania, atualidades e ciência.

“Cada uma das estudantes traz sabedorias que foram passadas de geração em geração ou adquiridas ao longo das trajetórias diversas que elas trazem para a sala de aula. Todas encontraram métodos para sobreviver no mundo letrado, ao qual elas não tiveram acesso. Por isso sempre digo que aprendo muito mais com elas, do que as ensino”, conclui a educadora.

 

A primeira ‘Favela 3D’ do Brasil 

A alfabetização não é a única iniciativa transformadora acontecendo na Favela da Vila Itália. O território foi escolhido pela ONG Gerando Falcões e pelo Instituto Tellus para ser o projeto piloto de um conjunto de ações estratégicas com objetivo de interromper o ciclo de pobreza social. A ideia é que a região possa se tornar a primeira ‘Favela 3D’ (digital, digna e desenvolvida) do Brasil.

Em parceria com organizações da sociedade civil e com a própria  prefeitura de São José do Rio Preto, o plano é entregar para as cerca de 200 famílias da ocupação serviço imobiliário comunitário, saneamento básico, água potável, energia elétrica, instalação de wi-fi, além de projetos de educação e geração de renda para movimentar a comunidade local.

Para Maria José, esse investimento significa expandir ainda mais as possibilidades de aprender. Já para Adriana Dalafini, que foi acolhida pelos moradores como parte da comunidade, o projeto significa dar continuidade a transformação que já acontece todos os dias. “Cada documento assinado pelas minhas alunas, representa mais uma transformação que elas farão aqui”, conclui a educadora.


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