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23.07.2021
Tempo de leitura: 6 minutos

Futuro pós-pandemia: relatórios da OCDE apontam necessidade de priorizar equidade e qualidade

Apesar dos avanços nas últimas três décadas, o Brasil corre o risco de retroceder caso não defina prioridades mais conectadas com as necessidades do século XXI. Confira os destaques da publicação

Imagem de uma mulher em frente ao computador olhando para câmera

A educação, no Brasil e no mundo, enfrentou desafios sem precedentes com a chegada da Covid-19. Na tentativa de mensurar os impactos dessas mudanças e entender como o sistema educacional brasileiro está em relação ao de outros países, a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) lançou relatórios que estabelecem comparativos visando soluções para o futuro da educação pós-pandemia.

Um deles, intitulado “A Educação no Brasil: uma Perspectiva Internacional”, foi realizado com apoio técnico do Todos Pela Educação e se dedicou a analisar detalhadamente o desempenho das estratégias brasileiras durante a pandemia, comparando-as com os demais países membros da OCDE, em especial os da América Latina. Ao final, sistematizou caminhos para construir processos educativos com qualidade e equidade.

“A principal mensagem é: a rede pública brasileira responde a políticas educacionais bem construídas. Investir na formação de profissionais da educação e estratégias de implementação gera resultados para a sociedade como um todo. Precisamos construir essa visão comum sobre a importância de priorizar a educação no Brasil”, comentou Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, durante o webinar de lançamento dos relatórios.

A publicação se baseou em dados e entrevistas com especialistas nacionais consultados pela OCDE. Desde a Educação Infantil até o Ensino Superior, temas como acesso e atendimento escolar, bem-estar dos estudantes e educadores, resultados de aprendizagem e mercado de trabalho, foram analisados em profundidade.

O evento de lançamento dos relatórios, que aconteceu no dia 30 de junho, também contou com a participação de Angela Dannemann, CEO do Itaú Social, Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE Pisa, e Maria Helena Guimarães de Castro, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE). Confira os principais destaques:

 

Menos desigualdade, mais qualidade 

Em paralelo ao relatório sobre o sistema educacional brasileiro, a OCDE apresentou os resultados da segunda parte do estudo Education Policy Outlook, realizado pela primeira vez no Brasil em 2015. O objetivo da publicação, lançada em parceria com o Itaú Social, é aprofundar o olhar sobre as políticas públicas educacionais e reformas implementadas no Brasil dentro do contexto da Covid-19, também com a intenção de compará-las internacionalmente.

O principal desafio para a educação brasileira é diminuir as desigualdades de acesso e garantir qualidade no processo de ensino-aprendizagem. Ainda assim, o relatório começa reforçando os avanços do sistema educacional conquistados ao longo das três últimas décadas. Entre eles estão: universalização das matrículas nos anos iniciais do Ensino Fundamental, 50% de aumento no avanço desses estudantes para o Ensino Médio, expansão da Educação Infantil e ampliação do Ensino Superior para as classes socioeconômicas mais baixas.

“A lacuna entre o Brasil e outros membros da OCDE diminuiu muito, indo além do ritmo de crescimento dos demais países da América Latina. Ao mesmo tempo, os resultados de aprendizagem ainda estão abaixo do esperado para atingir níveis de desenvolvimento econômico que reduzam desigualdades estruturais”, apontou Andreas Schleicher.

Segundo o relatório, sistemas de educação com baixos índices de aprendizagem em 2018, estiveram mais suscetíveis a sofrer perdas em 2020. O fato de o Brasil ser o país mais lento na retomada das aulas presenciais — seguido de perto por México, Colômbia e Costa Rica — também intensificou as lacunas existentes entre estudantes de escolas públicas e privadas.

“O melhor esforço que uma sociedade pode fazer para diminuir a desigualdade é investir na educação. Para que o Brasil se beneficie do desenvolvimento econômico, precisa garantir que os frutos desse crescimento sejam compartilhados”, concluiu o diretor de Educação da OCDE.

Definindo prioridades 

Os problemas complexos não são exclusividade do Brasil. O relatório reforça que muitos outros países estão enfrentando desafios semelhantes para lidar com as consequências da pandemia. Ainda assim, o ponto em comum entre eles é a necessidade de redefinir as prioridades e o tipo de educação que querem construir a médio e longo prazo.

“Passamos muito tempo tentando implementar ideias dentro das escolas, mas dedicamos poucos momentos para analisar as escolas e encontrar lá as boas ideias. Temos a oportunidade de olhar para as boas práticas dentro e fora do Brasil e adaptar soluções para os múltiplos cenários possíveis”, aconselhou Andreas Schleicher.

Para Maria Helena Guimarães de Castro, investir na capacitação dos profissionais da educação e das lideranças que representam a área nos três níveis de governo é fundamental não apenas para norteá-los em um período de incerteza, mas também para construir um currículo mais conectado com as competências e habilidades do século XXI.

“O relatório nos mostra que precisamos priorizar reformas estruturais e não somente ações emergenciais. Não podemos simplesmente adicionar tecnologias ao sistema educativo sem antes preparar os educadores para usá-las como ferramentas potencializadoras do aprendizado”, complementa a presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE).

A CEO do Itaú Social, Angela Dannemann, concorda com essa perspectiva e acrescenta que um Sistema Nacional de Educação pode ajudar a determinar um acordo entre estados, municípios e a federação em relação a implementação de reformas educacionais como a Base Nacional Comum Curricular, a Reforma do Ensino Médio e o Novo Fundeb.

“Nós temos um currículo nacional e algumas ferramentas para caminhar em direção a uma estratégia compartilhada e alinhada entre as políticas públicas e as comunidades. Ambos os relatórios apresentam desafios, mas também mostram que o Brasil tem potencial para realizar as mudanças necessárias”, finaliza Dannemann.


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