Nota técnica "Educar na era da Inteligência Artificial: Caminhos para a BNCC Computação"

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01.12.2016
Tempo de leitura: 5 minutos

Ouvir estrelas, o poder ou as novas gerações?

Crédito: Shutterstock

No Brasil, os processos sociais comumente entendidos como “políticos”, “religiosos” ou de “orientação de comportamento”, revelam uma sentida ausência: as crianças, os adolescentes e os jovens. Ficam tolhidos da fala e da escritura aqueles e aquelas a quem a legislação garante o direito e exige a obrigação de receberem educação formal, especialmente entre 4 e 17 anos de idade. Chamados para gincanas, concursos, manifestações, competições e lições, habitualmente não são ouvidos, mas envolvidos. Algumas de suas posturas radicais confirmam a regra histórica.

Reconhecidos no mundo há não muito tempo como sujeitos sociais – pois antes eram miniaturas a serem moldadas pela sociedade adulta – em torno deles se formata a invisibilidade e o silêncio. Não lhes cabe ser cidadãos, cujo gesto e cuja palavra determinem, também, o destino do território social. Quando as câmeras e microfones os captam, gesto e palavra ecoam as significações adultas. São carregados pelo mundo adulto. Também é adulto o mundo das câmeras e microfones, que usam os registros de fala e de imagem dos seus donos e dirigentes. A mídia, via de regra, não sabe compartilhar. Quanto intui o que seja, descarta. O domínio reproduz hábitos…

Trata-se da invisibilidade e do silêncio reais, travestidos de generosidade, proteção e direitos supostos. A fronteira que demarca esses territórios é racionalizada por falas poderosas sobre “inexperiência, pouco aprendizado e despreparo”. Define-se, pois, o mundo da falta e dos vazios, apoiado por influentes filosofias da educação. Ou por mera ideologia de mando. Enfim, o mundo dos atos sociais que condicionam a educação, a saúde, a cultura, os esportes e o trabalho, não considera a antessala da vida social, que é o lugar dessa numerosa gente em formação/deformação.

Cabe o direito de argumentar como de rotina: e daí? Não poderia ser diferente, pois viraria uma bagunça, como ocorre com suas ações quando eles e elas são organizadores. Qual bagunça? Aquela espontânea (comparada com as “ordens” dos experientes!) ou a programada pelos movimentos de poder: cruel, longa e destruidora, quase cotidiana?

Qualquer citação ou exemplo é perigoso, pois estimula respostas pelos seus aparentes contrários, os famosos exemplos do senso comum. Ao fim e ao cabo, tudo se harmoniza na “racionalidade” dos que sabem, ensinam, orientam, ordenam, decidem.

No entanto, o mundo dos experientes mal percebe que sufoca gestos e palavras porque já não dispõe de repertórios para descodificar as linguagens inovadoras desses milhões de pretensos cidadãos, crianças, adolescentes e jovens. Seus novos códigos poderiam ser ponteiros do futuro, se necessariamente separados dos jargões das posições de mando social, dos xingamentos como modo de pensar e do senso comum da linguagem vulgar e irresponsável. Nesse quadro se inscreve uma triste realidade: o ato escolar de ensinar se torna precário e, em consequência, praticamente impossível o ato de educar socialmente. Não se educa no vazio ou sem a participação social. Nossos filhos e netos também o são da sociedade.

A beleza das narrativas, fictícias ou documentais, o mistério dos encontros e desencontros humanos, a descrição das naturezas e das culturas andam meio mortas na enxurrada verbal/imagética e na tagarelice interindividual e midiática. As comportas não param de se romper e inundam os lugares da cidadania. Desastres ecológico-culturais.

Não basta ler livros e fazer lições. Cabe ler a palavra e mundo a partir dos corpos, da experiência que se aprende e se apreende no diálogo entre gerações. Aí o mundo adulto se refaz e o novo se expande e autonomiza.

O novo não pode nascer da repetição massificadora! Tampouco de sua aceitação na inteligência individual! Ou da inculcação de palavras de ordem!

A despeito das contradições dos poderes, pequenos ou grandes, não cabe duvidar de que as novas gerações são amadas. Entendido o verbo amar como infinitivo, como sugeriu Mário de Andrade, ele terá de forjar novas linguagens conectivas. Conjugar-se fora dos jargões e da vulgaridade político-social. Para tanto, as tagarelices mandonas deverão refluir para que ouçamos novas vozes e novos sentidos. As vozes estão próximas. Seus sujeitos também. Quem tiver ouvidos de ouvir, escute.

 

*Luiz Roberto Alves é presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), professor aposentado da USP e titular de Pesquisa e Didática na Universidade Metodista de São Paulo. Ex-Secretário de Educação de São Bernardo do Campo e de Mauá (SP).


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