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04.05.2021
Tempo de leitura: 6 minutos

Projeto aposta em mensagens de SMS para combater a evasão escolar

A iniciativa alcançou 15 mil alunos com mensagens de incentivo para frequentar as aulas durante no ensino remoto

Imagem de um jovem negro, de camisa púrpura, encostado na parede, olhando para a tela de um celular que está nas mãos dele

A pandemia de Covid-19 impactou significativamente na vida escolar dos brasileiros.  No ano passado, uma pesquisa do Datafolha mostrou que 8,4% dos estudantes com idade entre 6 e 34 anos matriculados antes da pandemia tinham abandonado a escola, percentual equivalente a 4 milhões de pessoas.

Buscando minimizar esse a evasão escolar no estado de Goiás, o  Instituto Sonho Grande, em parceria com a Secretaria de Educação do estado e a Movva – empresa brasileira especializada em nudgebots -, realizou  um projeto-piloto de busca ativa dos estudantes do Ensino Médio por meio do envio de SMS.

Nudges são reforços positivos que sugerem comportamentos e incentivam escolhas promovendo a mudança de atitude. Já os bots são programas de computador criados para realizar tarefas repetitivas e automatizadas.

Nudgebots são inspirados na teoria desenvolvida pelo economista Richard Thaler, que tem por base a economia comportamental, segundo a qual nosso comportamento pode ser efetivamente mudado com lembretes e nudges. Quando enviados de forma persistente ,  ajudam a formar novos hábitos.

Fonte: Movva

“Nos primeiros meses da quarentena em 2020, identificamos jovens com muita dificuldade de acompanhar os estudos em casa e desmotivados”, conta Ana Paula Pereira, diretora-executiva do Instituto Sonho Grande. A proposta principal do projeto de combate à evasão escolar via envio de SMS foi incentivar os alunos da rede a manterem as atividades e o contato com as escolas durante o período de aulas a distância.

O engajamento, com intuito de combater a evasão escolar, foi feito a partir do envio de SMS ou nudgebots, com dicas de estudo, de organização e mensagens de incentivo. “As mensagens buscavam transmitir a ideia de acolhimento e ajuda no planejamento das rotinas de estudos”, conta Ana Paula. Ao longo do mês de junho foram enviados lembretes para 9.135 alunos e responsáveis de 57 escolas de ensino médio integral. Eles receberam no celular, sem necessidade de internet, dois SMS por semana.

Exemplos de mensagens enviadas: - “Nunca esqueça: seu futuro depende dos seus estudos. Foco nas atividades para não perder seu diploma do Ensino Médio e tudo que conquistou até agora!”. - “Se liga: 80% dos seus colegas acreditam no Ensino Médio para se dar bem no futuro. Para chegar lá, use as férias para fazer as pazes com a rotina”.

Fácil de replicar 

A ação, que durou um mês, foi iniciada em junho de 2020, Por se tratar de um projeto piloto focou nos alunos de Centros de Ensino em Período Integral (Cepis) de Ensino Médio. Para fins de comparação e análise de resultados, no primeiro momento, nem todos os estudantes receberam as mensagens.

Ana Paula chama atenção para o baixo custo da intervenção, que facilita replicar o projeto, em outras redes de ensino mesmo após a retomada total das aulas presenciais.  “O valor cobrado pelas operadoras para o envio do SMS é baixo e a tecnologia é adaptável a qualquer tipo de celular, mesmo os que não são smartphones“, conta.

Para formatar os SMS, o Instituto Sonho Grande se apoiou na teoria de economia comportamental, segundo a qual o envio de mensagens, de forma persistente, pode influenciar o comportamento e as decisões das pessoas. “Por isso, a decisão dos envios semanais”, conta Ana Paula.

 

Impactos e resultados 

Para mensurar o impacto da intervenção, o projeto-piloto analisou dois indicadores: abandono das aulas não presenciais e evasão esperada. A instituição também acompanhou dois grupos de estudantes: um recebeu as mensagens de SMS e outro, não. Assim, caso a intervenção fosse bem-sucedida, o grupo que recebeu as mensagens teria menores taxas de abandono escolar e menor evasão esperada.

DEFINIÇÃO DOS INDICADORES

  • Abandono nas aulas não presenciais: o indicador considera que o estudante abandonou a escola quando não apresenta frequência escolar por duas semanas consecutivas. A frequência durante o período da pandemia é acompanhada de forma diária pelos professores, por meio da participação em aulas não presenciais transmitidas por meio de plataformas e pelas entregas semanais de tarefas em meio físico, nos casos dos estudantes sem acesso à internet.
  • Evasão esperada: medida a partir de dados autorrelatados pelos estudantes ou pais e responsáveis sobre a intenção de voltar às escolas quando as aulas presenciais retornarem.

Fonte: Pesquisa “Abandono, evasão escolar e Covid-19” do Instituto Sonho Grande

Após quatro semanas de disparos, foi observado uma significativa diferença entre os grupos. Em média, a taxa de abandono de quem recebeu os SMS foi 77,3% menor do que a de quem não recebeu. A taxa de abandono foi mensurada pela não comparecimento às aulas online ou pela não entrega de tarefas por duas semanas. “Apenas 1,37% dos estudantes que receberam as mensagens abandonaram as aulas. No outro grupo foram 6,03%”, comemora Ana Paula.

Também foram avaliadas as expectativas dos estudantes do Ensino Médio integral sobre o retorno às aulas presenciais. Nesse caso, 86,5% dos estudantes que receberam as mensagens afirmam que irão voltar, contra 76% dos estudantes que não receberam o SMS. Segundo a pesquisa, a intervenção reduziu em 43,7% a evasão esperada.

O indicador de evasão esperada foi acompanhado semanalmente, mesmo após o fim do envio dos lembretes. Isso permitiu observar que o impacto das mensagens ao longo do período da intervenção. Mas, com o fim dos disparos, esse efeito se perdeu.

“Esse “retrocesso” nos mostrou a importância de manter a comunicação constante entre a escola, estudante e responsáveis, para que o impacto do envio de mensagens não se perca”, chama a atenção Ana Paula.

 

Projeto em expansão  

Diante dos resultados amimadores,  a Secretaria da Educação de Goiás expandiu o projeto para todos os estudantes do Ensino Médio integral da rede. A iniciativa também está sendo replicada nas escolas estaduais de Alagoas, Maranhão e Paraíba.

Intervenções desse tipo podem, mesmo após o fim da pandemia, ter impactos muito positivos.  No entanto, é preciso considerar que apenas o envio de SMS não basta. O documento de estudo de impacto do projeto, aliás, ressalta a importância de complementar iniciativas do tipo com outras ações, como a busca ativa de estudantes que não frequentam as aulas ou dos que precisam abandonar os estudos para auxiliar a família financeiramente.


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