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06.12.2019
Tempo de leitura: 7 minutos

O futuro do trabalho na 4ª Revolução Industrial: estamos prontos?

Em entrevista, a especialista em Políticas Educacionais Claudia Costin faz um alerta: para prepararmos as novas gerações para uma realidade em que o trabalho humano será substituído por máquinas, é preciso reinventar a educação

Em entrevista concedida após sua participação no enlightED, evento realizado em outubro de 2019 em Madri, na Espanha, que trouxe debates sobre temas como transformações do campo educacional e da tecnologia, a diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas, Claudia Costin, falou sobre a perspectiva de inovar na educação com o objetivo de formar profissionais preparados para o que se convencionou chamar de 4ª Revolução Industrial, marcada pelo surgimento e adoção de tecnologias como a Inteligência Artificial.

De acordo com ela, as novas gerações devem ser preparadas para uma realidade em que o trabalho humano vai ser substituído por máquinas, inclusive o trabalho intelectual. Quem não tiver competências mais sofisticadas tenderá a ganhar menos ou terá dificuldades em se estabelecer profissionalmente. Uma das saídas, segundo Claudia, é despertar nas crianças e jovens competências típicas do século XXI, como a resolução colaborativa de problemas, empatia, protagonismo e capacidade de empreender sua própria vida.

Para isso, o professor deve buscar formar alunos com pensamento crítico, sistêmico e abstrato, que são três formas de pensamento interligadas que nos diferenciam dos robôs e nos fazem essencialmente humanos. “Se de fato a inteligência artificial e a automação vão ocupar um espaço grande e extinguir postos de trabalho, evidentemente outros serão criados. Isso vai obrigar a educação a se repensar”, diz.

Para responder a este desafio, Claudia acredita que é preciso melhorar a formação dos professores e garantir oportunidades iguais para os estudantes. Somente assim, o país vai preparar as escolas para o século XXI. A diretora do Ceipe lembra que qualquer reforma deve passar pelo acesso ao sistema, e que o Brasil já conta com modelos de educação de sucesso.

“O Ceará fez um ótimo trabalho em alfabetização inicial com as crianças para garantir que as competências mínimas aconteçam na idade correta. Vamos aprender com o próprio Brasil e fazer avançar muito mais, caso contrário, não estaremos prontos para esse mundo em que a inteligência artificial e a automação substituirão o trabalho humano, inclusive os que demandam competências intelectuais”, reforça.

Particularmente nos países da América Latina, em que o nível de aprendizagem ainda é insuficiente, “vamos ter que resolver as competências do século XX junto com aquelas habilidades que nós ainda necessitamos para o século XXI”.

Para a especialista – que já foi diretora sênior para Educação no Banco Mundial, secretária municipal da Educação no Rio de Janeiro, ministra da Administração e Reforma do Estado no governo de Fernando Henrique Cardoso, entre outros cargos de relevância relacionados com a educação – só trabalhar as competências cognitivas da maneira tradicional não é suficiente para formar um ser humano integral e prepará-lo para ser um cidadão e um profissional ou empreendedor.

Confira a entrevista completa:

Como combinar o uso da tecnologia com a melhoria da educação no Brasil?

Claudia Costin: O desafio do Brasil é enorme, porque infelizmente não estamos nada bem em aprendizagem. Se olharmos para o PISA, que é um teste internacional de qualidade da educação, liderado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre 70 economias, o Brasil está em 63° em ciências. Ou seja, particularmente, nos saímos mal em pensar cientificamente. É como se a gente decorasse a tabela periódica, mas não soubesse aplicar em questões da realidade. Também nos saímos mal em matemática. Mesmo sendo a nona economia em termos de Produto Interno Bruto (PIB), estamos no 66° lugar entre 70. Nós não somos um país pobre, somos um país desigual. Apenas em leitura estamos um pouco melhor, na 59ª posição; no entanto, não estamos aprendendo o suficiente.

Quando olhamos para o que acontece com a tecnologia, sim, o Brasil está presente na internet, até mais que outros países da América Latina. Mas estamos usando bem a tecnologia? A minha quase certeza é que ainda não. Para melhorar isso, precisamos investir nos professores em primeiro lugar, tornando a profissão muito mais atrativa, porque estes novos tempos demandam uma nova postura do professor ou um novo preparo. Precisamos atrair talentos para a profissão e prepará-los melhor para os desafios que vão ter. Agora não é mais suficiente apenas ensinar a partir de um currículo mínimo. As competências que precisam ser ensinadas são de um nível muito mais sofisticado.

Isso implica uma nova pedagogia, aulas muito mais engajadoras, e demanda o desenvolvimento de competências socioemocionais no próprio professor, caso contrário, ele não saberá desenvolver essas competências nos alunos, e não terá um olhar muito atento para combinar excelência e equidade, duas coisas que normalmente não parecem compatíveis.

Temos que ensinar bem a todos os alunos e com altas expectativas para todos. Hoje, no Brasil, a gente ainda não sabe fazer isso, mas vamos ter que aprender a fazer, porque caso contrário o país não estará presente no cenário do século XXI.

Essa substituição de mão de obra já está acontecendo no Brasil?

Claudia Costin: Para nossa sorte, isso vem evoluindo de uma maneira mais lenta no Brasil e vai nos dar mais tempo para nos adaptarmos. Mas é bom lembrar que se robôs “substituem gente”, nós podemos focar naquilo que os robôs ainda não fazem. Porém, a robotização acelerada faz com que seja mais barato para companhias internacionais saírem do Brasil e voltarem para suas bases, onde a automação torna tudo mais barato, mais ainda do que a mão de obra barata. Muitas das empresas já começaram a sair do país. Ou a gente age rápido ou a gente perde o trem da história.

Tendo em vista a sua faceta de gestora, o que o Brasil deve fazer para ter um projeto como país e adotar essas experiências locais de forma global, apostando ao mesmo tempo na pesquisa e nas ciências?

Claudia Costin: Em primeiro lugar, é isso que acabamos de falar: a educação, as ciências e a tecnologia são decisivas para construir capital humano. Nós ainda não estamos investindo suficientemente nisso. Há países que em época de crise preferem não cortar verbas dessas áreas justamente porque estão convencidos de que é a que constrói crescimento de longo prazo. Dois exemplos bem conhecidos são o Japão e a Coreia do Sul. Em situações de recursos fiscais limitados, eles preferiram não cortar recursos dessas áreas. Essa é uma abordagem que nós precisamos adotar e a outra é, ao invés de olharmos para a polarização tão grande que o Brasil vive, que tal começarmos a pensar mais em políticas públicas eficazes? Políticas públicas são o que constroem o país, então devemos olhar para a política educacional como uma coisa integrada, porque não há bala de prata, não há uma solução única. É importante investir em professores, em conectividade, mudar a maneira como educamos as crianças e integrar diferentes políticas públicas na primeira infância para que a desigualdade educacional que a gente vive já possa ser combatida desde o início. Há muito o que fazer, vamos evitar a polarização e focar no que precisamos fazer para o que Brasil desenvolva todo o seu potencial e construa crescimento de longo prazo.

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