Imagine uma sala de aula onde um aluno cego acompanha o texto projetado no quadro pelo professor por meio de um leitor de tela instalado no tablet. Outro estudante, com paralisia cerebral, responde à atividade acionando um teclado virtual com o movimento dos olhos. Uma terceira criança, não verbal, se comunica com os colegas através de uma prancha digital de comunicação alternativa. Uma cena assim parece distante da realidade das escolas públicas, mas a boa notícia é que, com o apoio da tecnologia, todas essas situações são possíveis — muitas vezes com recursos gratuitos, disponíveis e testados em contexto educacional.
O desafio não está apenas na existência das ferramentas, mas na capacidade das redes de ensino de identificar, selecionar e integrar soluções de tecnologia assistiva ao cotidiano pedagógico, garantindo que elas se tornem, de fato, oportunidades reais de aprendizagem.
O Censo Escolar 2025, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) em fevereiro deste ano, confirma o tamanho do desafio e também do avanço brasileiro na educação inclusiva. O número de matrículas de estudantes com deficiência, transtornos do espectro autista e altas habilidades ou superdotação na Educação Básica chegou a 2,5 milhões. Desse total, 96% estão matriculados em classes comuns — um avanço histórico para os padrões globais de inclusão.
Uma análise dos dados do Censo Escolar 2025 feita pelo Instituto Rodrigo Mendes (IRM) organização sem fins lucrativos dedicada à construção de uma educação de qualidade para pessoas com deficiência, mostrou que, desde 2011, o aumento das matrículas foi de 227%. O problema, porém, está na outra ponta. Apenas 11,3% dos gestores escolares têm formação continuada em Educação Especial com carga horária mínima de 80 horas reconhecida pelo MEC.
“A inclusão no Brasil acontece, as matrículas aumentam, mas a inclusão ainda não garante aprendizagem para todos. O professor, muitas vezes, se vê solitário e sem suporte técnico necessário para planejar aulas que alcancem a todos”, comenta Rodrigo Hübner Mendes, superintendente do IRM.
É nesse cenário que a tecnologia assistiva ganha protagonismo, não como solução mágica, mas como ferramenta estratégica quando aliada à formação, ao planejamento pedagógico e à gestão escolar comprometida com a equidade.
Formação antes do equipamento
A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) define tecnologia assistiva como produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que promovem a funcionalidade, a autonomia e a participação das pessoas com deficiência.“Pode ser algo complexo, como um software de rastreamento ocular, ou simples, como um engrossador de lápis feito com espuma”, explica Mendes.
O especialista reforça que nem sempre o problema é a escassez de recursos, mesmo na rede pública, que, segundo o Panorama da Educação Especial publicado pelo IRM, era responsável por 84% das matrículas da educação especial em 2024. O desafio é a falta de formação continuada articulada com o planejamento pedagógico. “Muitas escolas possuem equipamentos em salas de recursos multifuncionais que acabam subutilizados porque não há uma ponte entre o professor do Atendimento Educacional Especializado e o professor da sala comum”, explica.
O Brasil avançou nos marcos legais e no financiamento da educação inclusiva, com medidas como a alteração do fator de ponderação do Fundeb, a implementação da Política Nacional de Educação Inclusiva, o investimento em salas de recursos multifuncionais e a oferta de cursos para professores. Na prática, porém, esses avanços ainda enfrentam obstáculos como burocracia, dificuldades de aquisição de materiais e falta de profissionais de apoio.
Diante desse cenário, a formação de gestores e docentes para o uso pedagógico das tecnologias assistivas se torna elemento-chave para transformar recursos disponíveis em aprendizagem efetiva.
Recursos gratuitos estão disponíveis
Um equívoco comum é associar tecnologia assistiva a custos altos e equipamentos sofisticados, mas não é bem assim. Muitos recursos disponíveis hoje são gratuitos e acessíveis.
O Repositório de Tecnologia Assistiva no Contexto Educacional (Retace), desenvolvido e gerenciado pelo Centro Tecnológico de Acessibilidade (CTA) do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) reúne em um único lugar leitores de tela, ampliadores, softwares de comunicação alternativa, conversores de fala em texto, tradutores para Libras e muito mais, com descrições detalhadas, tutoriais e manuais de uso. Tudo de graça e testado em contexto educacional. O CTA também oferece serviços de avaliação de estudantes, orientação para aquisição de recursos, confecção de materiais de baixo custo e capacitações.
Diante desta oferta, é preciso saber escolher os recursos adequados. A lógica é bastante simples: antes de comprar qualquer equipamento é preciso entender qual barreira aquele estudante específico enfrenta e qual recurso, de fato, vai removê-la.
Para o diretor de escola pública que quer agir ainda neste ano letivo, Mendes tem uma recomendação: “Comece pelas barreiras, não pelas deficiências.” Para ele, é fundamental reunir a equipe e conversar sobre o que, no ambiente ou no jeito de ensinar, está impedindo determinado aluno de participar e aprender. “A inclusão não é tarefa de um único especialista e sim de toda a comunidade escolar”, avalia.
Essa transformação beneficia a todos. Cada barreira eliminada amplia as possibilidades de aprendizagem das turmas como um todo. A educação inclusiva não é um favor feito ao estudante com deficiência — é a forma mais completa, diversa e eficaz de ensinar.
10 tecnologias assistivas gratuitas para usar na escola
O Repositório de Tecnologia Assistiva no Contexto Educacional (Retace) do IFRS reúne dezenas de recursos organizados por categoria. Veja uma seleção para começar:
1. NVDA (leitor de tela para Windows): Converte conteúdo textual em fala, permitindo que estudantes com deficiência visual usem o computador de forma autônoma. Seu uso é facilitado pela ampla documentação em português.
2. VLibras: Aplicativo que traduz automaticamente textos do português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Disponível para computadores, celulares e como extensão de navegador.
3. AraBoard: Software que permite criar pranchas de comunicação personalizadas com imagens, sons e cores. As pranchas são materiais impressos ou digitais que combinam ilustrações com símbolos e palavras escritas, que facilitam a comunicação de estudantes com dificuldades de fala ou de comunicação verbal.
4. Camera Mouse: Permite controlar o cursor do computador com o movimento da cabeça ou dos olhos por meio de uma webcam comum, dispensando o uso do mouse convencional.
5. Prancha Fácil: Outra opção de software para criação de pranchas de comunicação totalmente personalizáveis, voltado a crianças, jovens e adultos com diferentes perfis comunicativos.
6. Ararajuba: Ferramenta online desenvolvida pelo CTA do IFRS com dupla função: converte fala em texto e texto em áudio, sendo útil tanto para quem tem dificuldade de digitação quanto para quem tem dificuldade de leitura.
7. Lupa do Windows: Recurso nativo do sistema operacional que amplia a tela em até 1600%, auxiliando estudantes com baixa visão sem necessidade de instalação de nenhum programa adicional.
8. Hand Talk: Aplicativo que traduz texto e áudio do português para Libras, facilitando a comunicação entre estudantes surdos e professores em contextos variados.
9. eViacam: Usando a câmera do computador, permite controlar o cursor com movimentos da cabeça, substituindo o mouse. Ideal para estudantes com limitações motoras nos membros superiores.
10. Text2Braille3d: Ferramenta que gera modelos de placas em Braille para impressão em impressoras 3D, permitindo que as próprias escolas produzam materiais de sinalização acessível de baixo custo.

No dia 16 de abril, a Fundação Telefônica Vivo e o Instituto Rodrigo Mendes realizam o webinário Tecnologia e Educação Inclusiva: Estratégias para a Equidade.
O encontro propõe um diálogo qualificado sobre como a tecnologia pode apoiar e potencializar a educação inclusiva na Educação Básica, articulando políticas públicas, práticas pedagógicas e formação docente. Além da análise de especialistas, o webinário contará com a apresentação de cases e experiências exitosas de redes municipais.
Acompanhe no canal de YouTube da Fundação.

