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22.04.2026
Tempo de leitura: 9 minutos

Dia das Meninas nas TICs: A tecnologia também é delas

Estudantes e profissionais relatam como a escola e a mentoria ajudam a enfrentar vieses de gênero, fortalecer a confiança e ampliar a presença feminina na tecnologia

Imagem ilustra a nota técnica que exemplifica o termo meninas na tecnologia

Todos os anos, na quarta quinta-feira de abril, o mundo celebra o Dia Internacional das Meninas nas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Criada em 2010 pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), a data convida governos, escolas, organizações e a sociedade a refletirem sobre um desafio que começa cedo: como garantir que meninas tenham acesso, estímulo e oportunidades para se reconhecerem como parte do universo tecnológico.

No Brasil, as meninas já são maioria na Educação Profissional e Tecnológica (EPT), com 57,9% das matrículas, de acordo com o Censo Escolar 2025 . Mas essa presença se dissipa nos degraus seguintes. No Ensino Superior, elas representam apenas 26% dos ingressantes nas carreiras STEM — Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática. No mercado de trabalho, de acordo com dados da Brasscom, ocupam apenas 39% dos empregos no setor — mesmo sendo, em média, mais escolarizadas do que os homens. A boa notícia é que o crescimento da presença feminina no setor foi 1,5 ponto percentual superior ao masculino nos últimos três anos.

Grande parte dessa diferença não está relacionada à capacidade, mas às barreiras simbólicas e culturais que se formam desde a infância. Pesquisas indicam que meninos são mais incentivados a explorar disciplinas ligadas a STEM, enquanto meninas, muitas vezes, não se veem representadas ou encorajadas a seguir por esse caminho. Por isso, quanto mais cedo o estímulo acontece, maiores são as chances de permanência dessas jovens nas áreas tecnológicas.

Nesse contexto, a escola e os educadores da rede pública exercem um papel central na desconstrução de estereótipos de gênero e na ampliação de horizontes para meninas e jovens mulheres. É a partir dessa convicção que iniciativas de formação e mentoria ganham relevância.

O Pense Grande Tech, programa da Fundação Telefônica Vivo, atua justamente nesse ponto: fortalecendo competências técnicas e socioemocionais, aproximando estudantes do mundo do trabalho e criando referências positivas para jovens que desejam construir uma trajetória na tecnologia. Em 2025, o programa esteve presente em sete territórios, promoveu 130 mentorias e mobilizou 100 executivos da Vivo, conectando jovens mulheres a profissionais experientes do setor.

“É lutar todo dia pelo nosso lugar e pela nossa voz”, resume Carolina Montagner Jaouiche, estagiária na Vivo e estudante de Sistemas de Informação em São Paulo (SP). Ela é uma das três jovens que compartilham suas experiências nesta reportagem, ao lado de Ana Karoline Soares Passos, estudante do 3º ano do Ensino Médio técnico em Desenvolvimento de Sistemas em Tianguá (CE) e participante da mentoria do PG Tech, e Maria Eduarda Sousa Peres, de Goiânia (GO), que cursou Ciência de Dados e hoje trabalha em uma empresa de tecnologia voltada ao agronegócio.

Histórias de territórios diferentes e trajetórias distintas, mas com uma mensagem em comum: a tecnologia também é delas, e a escola tem papel fundamental em mostrar isso para cada menina que ainda está construindo seu caminho.

Maria Eduarda Sousa Peres, de Goiânia (GO)

Em 2020, Maria Eduarda concluiu o Ensino Médio Técnico em Música pelo Instituto Federal de Goiás. Embora siga ligada à arte, decidiu ampliar seus caminhos e iniciou um novo curso técnico, dessa vez em Ciência de Dados, motivada pelas oportunidades profissionais oferecidas pela área.

A transição não foi simples. Após enfrentar um período de desemprego, encontrou na mentoria do Pense Grande Tech um apoio fundamental para seguir na carreira.

“Foi uma troca de muito conhecimento e me ajudou até a conseguir meu novo trabalho”, conta Maria Eduarda, que hoje é assistente de produtos em uma empresa que faz gestão de softwares para o agronegócio.

Como é a sua experiência como mulher na área de tecnologia? No curso técnico, por exemplo, as mulheres provavelmente eram minoria. Como era isso?

Éramos minoria mesmo, três mulheres em uma turma de mais de dez pessoas. É desafiador, não é fácil. Às vezes é um ambiente machista. Mas acho importante esse olhar feminino dentro da área e dentro de uma empresa.

Você já teve alguma dificuldade por causa disso?

No início, foi muito difícil porque eu vim de outra área, era musicista, então tudo era muito novo. No meu trabalho anterior, como assistente de TI, éramos oito pessoas e apenas duas mulheres. Foi um pouco difícil, mas fui muito acolhida, principalmente pelos colegas do sexo masculino. Mas a pressão existe porque a mulher precisa se provar o tempo todo, mostrar que é boa, que é tão capaz quanto o homem.

Em que momento da sua carreira você se sentiu mais pressionada?

Quando fiquei desempregada. Tinha muito medo de não conseguir continuar na área. Chegou um momento em que me perguntava: “será que vou ter que virar caixa de supermercado?” Esse medo foi crescendo, até que a aprovação veio. Eu fui percebendo que nós muitas vezes nos sabotamos. Somos capazes, temos a formação necessária, mas nos sabotamos no meio do caminho. Isso não pode acontecer.

Você que já está inserida no mundo do trabalho, o que diria para as meninas que gostariam de seguir na área de tecnologia?

Diria que, se elas têm esse sonho, corram atrás, não desistam e não se deixem vencer pelo medo. O medo às vezes fala muito alto, mas que elas prossigam, porque a tecnologia traz retorno e qualidade de vida. Poder trabalhar de casa é qualidade de vida. Somos bem vistas dentro das empresas quando trabalhamos com tecnologia. A recompensa chega.

Ana Karoline Soares Passos, de Tianguá (CE)

Prestes a concluir o Ensino Médio, Ana Karoline já sai da escola com uma profissão: técnica em Desenvolvimento de Sistemas. Ainda em dúvida sobre os próximos passos, ela enxerga a tecnologia como um campo de possibilidades que dialoga com diferentes áreas do conhecimento.

No final de 2025, participou das mentorias do Pense Grande Tech, experiência que considera determinante para se sentir mais preparada para o mercado de trabalho. “Foi quando entendi melhor como funciona esse mundo e percebi que eu também posso ocupar esse espaço”, afirma.

Como é ser uma garota no meio de mais homens no seu curso técnico?

É bastante desafiador. A área de tecnologia tem, sim, mais homens. No meu curso, mais da metade da sala são meninos e há poucas meninas. Esses desafios estão muito ligados ao preconceito, como o de que uma mulher não é capaz de chegar aonde um homem chega.

Tem alguém que serviu de modelo ou inspiração para você? Alguém da família, uma professora…

A Alexandra (dos Santos, gerente de Projetos Educacionais da FTV) foi minha mentora no PG Tech e me deu uma nova visão de como é importante mulheres estarem nesses espaços, não só para ocupá-los, mas para mostrar o seu olhar para todos aqueles que muitas vezes foram deixados de lado ou ignorados.

O que você diria para uma garota que deseja seguir na área de tecnologia?

Seria bem sincera, porque a sinceridade funcionou comigo. Diria que não é fácil. Vão ter muitos obstáculos e, às vezes, mais do que na jornada de um homem. Mas o fato de ter ferramentas para estar nesse ambiente faz com que você queira crescer ainda mais, queira realmente ocupar aquele espaço. Eu diria que esse campo também é para nós.

Carolina Montagner Jaouiche, de São Paulo (SP))

No curso de Sistemas de Informação da SP Tech, Carolina é uma das 11 mulheres em uma turma com 35 homens. Apesar do cenário, ela se mantém otimista e observa avanços recentes na presença feminina na área. Atualmente, constrói sua trajetória profissional como estagiária na Vivo, na área de Administração de Dados.

Por que você escolheu ir para a área de tecnologia?

Apesar de eu ter inclinações para a área de humanas, a área de tecnologia me pareceu muito interessante porque tinha muitas oportunidades. É muito vasta e eu via uma grande chance de crescimento e reconhecimento no mercado.

O fato de ser mulher nunca limitou esse pensamento?

Não. Eu sempre achei muito importante a representatividade feminina dentro de áreas predominantemente masculinas. Além disso, sabia que seria uma área que financeiramente me agregaria muito e que me abriria muitas portas para o futuro, para conquistar coisas. E, independente da área, enquanto mulher na sociedade, precisamos nos provar 110%. Estar numa área predominantemente masculina me ajudou a me fortalecer enquanto mulher e a crescer pessoal e profissionalmente, porque precisava me provar não só para o mundo, mas para mim mesma.

De onde vem essa autocobrança e como você acha que meninas podem superar os desafios de trabalhar na área das TICs?

Nós acabamos sendo puxadas pela visão que a sociedade tem e, quando um grande grupo nos diz que não somos capazes, começamos a acreditar. Temos que lutar todo dia contra essas crenças. Eu diria para outras meninas: não precisa ficar se provando para os outros o tempo todo, prove para si. Quando as mulheres se reconhecem como capazes, isso transparece. Então, construam a própria carreira para que possamos ter um cenário onde, daqui 10 anos, não exista mais a frase “homens são melhores em tecnologia”.

As histórias de Maria Eduarda, Ana Karoline e Carolina mostram que o talento está presente em diferentes territórios e realidades. O que faz a diferença é o acesso a oportunidades, incentivo qualificado e uma escola comprometida em ampliar horizontes.

Incentivar meninas nas TICs não é apenas formar profissionais para o futuro, mas construir hoje um setor mais diverso, inovador e justo, no qual todas tenham espaço para aprender, criar e transformar.


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