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29.01.2021
Tempo de leitura: 7 minutos

Programa internacional de combate à fome recebe Nobel da Paz em 2020

O Programa Mundial de Alimentos da ONU atua em áreas de conflito e reúne esforços de colaboração internacional com o objetivo de erradicar a fome, a pobreza e a desigualdade até 2030.

Quatro crianças estão em frente a uma mesa. Elas sorriem e comem em pratos com decoração de flores.

Uma em cada nove pessoas em todo o mundo ainda não têm o suficiente para comer. De acordo com o último relatório “O Estado da Insegurança Alimentar e Nutricional no Mundo”, lançado em julho de 2020, cerca de 690 milhões de pessoas passaram fome em 2019. A estimativa é que, com o agravamento da pandemia de coronavírus, este número aumente em 130 milhões de pessoas. Diante de um contexto global marcado por múltiplas crises, o Prêmio Nobel da Paz ganha um significado ainda mais simbólico para apontar caminhos em prol de um mundo sustentável. Na noite do dia 10 de dezembro de 2020, a Academia Sueca anunciou o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (World Food Programme) como o grande vencedor da premiação, pelos esforços no combate à fome e pelas melhorias nas condições de paz em áreas afetadas por conflitos.

O órgão faz parte da Organização das Nações Unidas (ONU) e concentra o maior número de operações voluntárias da entidade internacional. Em 2020, o WFP alimentou cerca de 138 milhões de pessoas em 88 países. O objetivo da iniciativa não é apenas levar ajuda humanitária e de reabastecimento, mas também auxiliar os governos na construção de políticas públicas sustentáveis para combater as raízes da miséria.

“Existe uma correlação estatística entre a fome e a paz. As regiões mais vulneráveis estão suscetíveis ao conflito armado que, por sua vez, aumenta as chances da população viver em condições de insegurança alimentar. Onde há guerra, não há como plantar e construir. Onde há fome, há desesperança. Para levar paz ao mundo, temos que diminuir estes desequilíbrios”, explica Daniel Balaban, representante do Brasil no Programa Mundial de Alimentos e diretor do Centro de Excelência contra a Fome.

Daniel Balaban, representante do Brasil no Programa Mundial de Alimentos e diretor do Centro de Excelência contra a Fome.
“Enquanto nós temos qualquer outra pessoa no planeta em necessidade, nós nos responsabilizamos por elas. Enquanto seres humanos nós precisamos cuidar uns dos outros”, diz Daniel Balaban, representante do Brasil no Programa Mundial de Alimentos e diretor do Centro de Excelência contra a Fome.

O especialista acrescenta, ainda, que a motivação para erradicar a fome também atende a uma agenda econômica. Um levantamento feito pelo WFP estima que dois trilhões de dólares por ano são gastos com armamentos. “Se investíssemos 5% desse valor em políticas públicas, acabaríamos com a fome no mundo. A guerra e as consequências da fome são caras, em mais de um sentido”, conclui.

Cooperação internacional pela sustentabilidade

Alinhado aos esforços globais estabelecidos pelos Objetivos Sustentáveis da ONU, o programa redesenhou seu plano estratégico no ano de 2017. Quando foi fundado, em 1961, o WFP atuava apenas para responder a emergências e oferecer subsistência imediata para áreas de conflito. Embora a premissa continue a englobar essa frente, o órgão passou a entender como prioridade o desenvolvimento de um sistema estrutural que garanta segurança alimentar continuamente.

Esse novo direcionamento dialoga diretamente com as metas do ODS 2, que prioriza a erradicação da fome, da pobreza e das desigualdades sociais até 2030. Para alcançar os resultados esperados, as estratégias são renovadas a cada quatro anos e o organismo aposta em uma abordagem multilateral como forma de fortalecer as redes nos territórios em que opera.

Governado por um Conselho Executivo, composto por 36 Estados Membros, o Programa Mundial de Alimentos funciona sem orçamento próprio, contando com recursos doados pelos governos, setor privado e pessoas físicas. Em contrapartida, oferece apoio intergovernamental para a supervisão e coordenação das atividades.

A capacidade de articulação e de cooperação internacional foi um dos critérios decisivos para a conquista do Prêmio Nobel, segundo o Comitê avaliador da premiação. “Aqueles que têm mais ajudam os que têm menos. É um exemplo vivo da importância do multilateralismo para que a gente consiga construir um caminho para um mundo sem fome e, consequentemente, mais sustentável até 2030. Precisamos trabalhar juntos, caso contrário não alcançaremos condições justas para todos”, acrescenta Daniel Balaban.

A fome no Brasil

WFP em ação!

→ Cerca de 5.600 caminhões, 30 navios e 100 aviões estão em movimento diariamente;

→ 15 bilhões de rações distribuídas por U$0,61

→ 17.3 milhões de crianças receberam comida em 59 países

O trabalho do WFP no Brasil se dedica a apoiar outros países na criação de políticas públicas, como por exemplo a implementação da alimentação escolar. Isso acontece porque até 2012 o país se destacou na diminuição da insegurança alimentar e da subnutrição, que chegou a atingir menos de 2,5% da população. Mas dados do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar e Nutricional no Mundo” indicaram que a fome voltou a atingir números preocupantes.

De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), entre 2017 e 2019, cerca de 43,1 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar. O número no período entre 2014 e 2016 era de 37,5 milhões. Tendo em vista esse cenário, a atuação do Programa Mundial de Alimentos no Brasil voltou a direcionar esforços para ajudar organizações da sociedade civil e iniciativas privadas locais.

Imagem mostra menina sentada à mesa, com uma caneca onde se lê “Programa Mundial de Alimentos” em azul.

“O Brasil não é um país pobre. Nós figuramos entre as 10 maiores economias do mundo, mas também entre os países mais desiguais. Temos estrutura para avançar políticas públicas para erradicação da fome e da miséria, como já fizemos antes. Somos um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Mas antes, o país tem de voltar a fazer um pacto nacional de não aceitação da condição de insegurança alimentar no seu próprio território”, afirma Daniel Balaban.

Parte dessa solução, na opinião do diretor, está em evitar a descontinuidade de programas e políticas públicas que obtiveram resultado positivo, independentemente de disputas partidárias. Para alcançar essa consciência, Balaban defende a educação para a cidadania nas escolas e o entendimento de que é possível transformar realidades por meio da mobilização coletiva. “Enquanto nós temos qualquer outra pessoa no planeta em necessidade, nós nos responsabilizamos por elas. Enquanto seres humanos nós precisamos cuidar uns dos outros”, finaliza.

Como ajudar o Programa Mundial de Alimentos?

Os esforços voluntários garantem a estrutura de atuação do WFP, seja na arrecadação de recursos ou na organização de ações de cooperação internacional. No site do Centro de Excelência contra a Fome, é possível encontrar informações sobre os projetos locais e internacionais e como ajudá-los As redes sociais (Instagram, Twitter e Facebook)  também oferecem informações atualizadas sobre o que têm sido planejado e de que você pode colaborar como voluntário!


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